Por detrás desta fotografia está um mistério. Um mistério que, diga-se, apesar de alguns acharem ter sido resolvido, não é certo que na verdade o tenha chegado a ser.
Tudo se passou no Desnível, um restaurante local em pleno bairro de San Telmo, junto ao seu mercado, onde fomos jantar para a despedida de uma das companheiras desta viagem. O jantar, delicioso por sinal, e no qual decidimos abrir os cordões à bolsa, não poderia ter corrido melhor. Neste dia decidimos deixar o cuidado com os preços de lado e a páginas tantas demos por nós a pedir a terceira garrafa de vinho Malbec, uma boa Alamos, para fechar o jantar. A fim de a apreciarmos devidamente, como a própria merece e reclama, e para prolongarmos a nossa estadia no magnífico restaurante, decidimos fazer uma pausa para ir à porta fumar um descansado cigarro. Pois bem, cada um dos quatro magníficos encheu o seu copo com o ouro tinto, tendo restado meia garrafa para apreciar e nos regozijarmos calma e categoricamente quando voltássemos à mesa.
Mas eis que, aí regressados, demos com a bendita garrafa completamente vazia, terminada. Com a certeza de que não tinha sido obra nossa, e depois de falar com quem nos havia servido a garrafa inicialmente, começámos a especular o que raio se teria passado. Quem teria tido a lata e falta de vergonha para vir à nossa mesa e acabar o nosso vinho? Entretanto, nota de honra para o restaurante que, ao deparar-se com tamanha situação, logo se disponibilizou e gentilmente ofereceu uma garrafa de substituição. Ou seja, estava tudo bem, tivemos direito até a mais do que aquilo que esperávamos, mas ainda assim havia um enigma sem resposta.
De entre todas as suposições e teorias avançadas, desconfiámos de imediato do nosso vizinho do lado. Depois de chegados à mesa, e após uma investigação apurada das pistas deixadas no local do crime, reparámos que havia um conjunto de copos que ali haviam sido deixados, um deles com marcas de vinho tinto, e que antes não estavam por lá. Estranho. Quando expressámos tal surpresa em voz alta, eis que o famigerado vizinho do lado logo confessou que os copos eram dele e dos seus companheiros de mesa, que ali os teriam pousado depois de sairmos pensando que não voltaríamos.
Com tal pensamento na cabeça e quase certos da autoria do crime, continuámos a emborcar a garrafa de reposição e, por momentos, deixámos de lado os negros pensamentos sobre tamanha desfaçatez. Até que, enquanto estava novamente lá fora a fumar, um dos comparsas de jantar, de seu nome Pedro, vem a correr à porta do restaurante e me diz “foram estes, foram estes!”, apontando para uns miúdos na casa dos vinte e poucos anos que se apressavam a sair do restaurante.
Ao que tudo indica, quando o grupo de jovens desenvergonhados se levantou e passou pela nossa mesa para sair do restaurante, o vizinho do lado – o tal de quem desconfiáramos e que tínhamos a certeza ter bebido o nosso vinho – terá dito que teriam sido aqueles desgraçados que atacaram a nossa garrafa. Eis que o comparsa Pedro logo se levantou, acompanhando-os à saída e perguntando que tal estava o vinho. Claro está que os pequenos arguidos, apressados, apenas perguntaram “que vinho?” e saíram a passo acelerado da casa de pasto.
O mistério estava, aparentemente, resolvido. Não que tivesse grande importância, mas a nossa curiosidade aguçada aliada à indignação desmedida assim o reclamava. Roubar vinho é algo muito feio, não se faz. Água, tudo bem. Mas vinho não!
“Já não morremos burros”, lembro-me de alguém dizer após o sucedido (muito possivelmente palavras minhas). Por entre risos e boa disposição, ainda demos por nós a aproveitar o final da garrafa do tal vizinho do lado, de quem desconfiáramos, que nos la ofereceu já que não a beberia na totalidade, brindando com um alegre “Bem-vindos à Argentina!”. Bem-vindos, de facto.
Convictos de que tudo estava esclarecido, e enquanto aguardávamos a nossa conta para sairmos do restaurante rumo a uma qualquer esplanada para uma cerveja final, demos por nós a pensar se, afinal de contas, tudo não teria sido um plano maquiavélico daquele com quem acabáramos de brindar. É que o vizinho, careca à imagem de um dos maiores vilões da nossa infância, o temível Dr. Evil, ainda para mais adepto do River Plate, bem poderia ter agido como agiu para desviar de si as atenções. Será que foi isso que sucedeu? O plano seria perfeito se assim o fosse… teríamos nós acabado de brindar com aquele que nos tentou ludibriar? Tudo apontava para ele, algo confirmado pelo próprio Pedro que, depois de tudo ter sucedido, ainda se deu ao trabalho de se deslocar à mesa dos malfadados e confirmar que no talão havia um copo de vinho tinto cobrado. Copo esse que ali jazia, vazio, na mesa dos criminosos e de certa forma os ilibava de todas as acusações…
Nunca saberemos. Por agora ficam apenas as suposições. Isso, e uma boa história para contar.
Por João Barros



