Por detrás desta fotografia está um contraste. Ou melhor dizendo, está um conjunto de contrastes que me têm dado que pensar.
Os primeiros dezasseis dias desta viagem, ou seja, grande parte dela, tiveram lugar na Patagónia, como se sabe. E como parece também óbvio, a Patagónia é um lugar diametralmente oposto àquele em que me encontrei na parte final da viagem, em Buenos Aires. Montanhas ou cidade? Calma ou agitação? Silêncio ou sons por toda a parte? As diferenças são muitas, venha o diabo e escolha.
Na Patagónia, perdido algures entre as montanhas, nos vales e nos lagos, tudo é calmo. Não se vê muitas pessoas e o trânsito é praticamente inexistente, à exceção de alguns aventureiros com que nos cruzamos nas longas caminhadas percorridas. Tudo é pacífico, o silêncio está instalado para ficar e apenas é interrompido pelos sons da natureza, com o cantarolar dos pássaros à cabeça a recordarem-nos constantemente do deleite que é o estar longe da agitação diária de uma cidade.
Em Buenos Aires não é assim. Na capital argentina estamos no epicentro da agitação. Há vida em todo o lado, são incontáveis os carros, as pessoas, as motas e as bicicletas com que nos cruzamos e das quais temos de nos desviar para evitar problemas. Os mercados são agitados, as pessoas falam alto, temos de olhar para todos os lados antes de atravessar a rua, tudo parece diferente daquilo a que nos habituámos no início da viagem. Em Buenos Aires a cidade vive frenética no meio de uma floresta diferente daquela que vimos na América do Sul. Essa foi agora substituída por uma floresta de pedra com bonitos retoques arquitetónicos, que tal como as montanhas da Patagónia se ergue também rumo ao céu. Em todo o caso, apesar desta breve semelhança, são claras e evidentes as diferenças em relação às montanhas do sul do país.
Por outro lado, quando visitámos a Patagónia estava frio, sempre frio e muito frio. As camadas de roupa acumulavam-se sobre os nossos corpos com vista a combater o ar gélido das montanhas nevadas e dos glaciares que fazem da Terra do Fogo a sua casa. O vento e a iminência da chuva são sempre uma constante, pelo que golas, gorros, casacos, luvas, polares e calças fazem parte do outfit dos viajantes. Em Buenos Aires não é assim. Em plena Primavera, quase aquando da entrada em palco do Verão, está calor. Calor esse alimentado pelas pedras que descansam não só nos prédios que dominam a cidade, mas também pelos passeios em que caminhamos, que preservam os raios quentes para mais tarde os libertar. Por cá passeamos de calções, sandálias e t-shirt, e quando de manhã olho para a minha mochila, ainda no quarto, custa-me a recordar por que raio trouxe roupa de Inverno para cá (nota para mim mesmo: ainda bem que o fiz).
Na Patagónia fartamo-nos de caminhar pelas montanhas. Foram dias e dias de intensa atividade física, colina acima e abaixo, em que o chegar ao fim do dia equivalia a esticar as pernas e permitir aos músculos algum descanso, para recuperar. Em Buenos Aires é diferente. Também se caminha muito, sim, mas de forma distinta. Caminha-se sem rumo, a passo desacelerado e sem grande direção, abraçados pelo calor que faz como que sejamos invadidos por uma molenga distinta da intensidade física que marcou a primeira parte da viagem.
Se podia continuar a apresentar contrastes entre a Patagónia e Buenos Aires? Sim, podia. Não faltam possibilidades. Mas não o farei. Creio já ter passado a mensagem que queria passar. Em todo o caso, apesar de todos os contrastes entre uma parte e outra da viagem, há algo que as une e que vale a pena sublinhar. É que apesar de tão distintas entre si, é possível retirar um prazer desmedido de todas estas diferenças e ainda assim aproveitar o melhor que ambos os sítios têm para oferecer.
Por João Barros



