Por detrás desta fotografia está um desvio. Um desvio que para alguns poderia ser pequeno, mesmo insignificante, mas que para mim é algo digno de nota e registo.
Durante a viagem que fiz pelo continente asiático em 2023, tirando um ou outri caso pontual ou outro – e por caso pontual entendam-se três semanas no Japão e um mês no Vietname –, não comi carne. À chegada a Portugal, mantive-me fiel a essa ideia e continuei a não o fazer. A decisão veio na sequência de algo que já ponderava há algum tempo, e acabou por ser como que uma continuidade daquilo que já era o meu quotidiano desde há uns tempos para cá: em casa nunca cozinhei carne, ainda que sempre que me apetecesse, sem pensar duas vezes, o fizesse fora do lar.
Mas a verdade é que vir ao Chile e à Argentina e não comer carne é algo que não faria sentido para mim. Deixemos de parte a premissa de que a carne por estes lados da América do Sul é deliciosa, porque o é e contra factos não há argumentos. Aqui, comer carne faz parte da cultura local, da forma de ser das pessoas e da maneira como se fazem as coisas. No Chile e na Argentina, o comer carne está enraizado não só na gastronomia local, chegando mesmo a ser um marco cultural assinalável.
Quando decidi deixar de comer carne fi-lo, principalmente, por razões egoístas. Quando não como carne sinto-me melhor, o meu corpo está mais leve e consigo ter mais energia para fazer o que quero, e especialmente por essa razão decidi deixar de incluir a carne no meu menu quotidiano. Não quer isto dizer que descure a natural preocupação com a causa animal e as más práticas que assolam a indústria da pecuária um pouco por todo o mundo, já que a consciência acerca dessa mesma premissa está presente e também tem o seu peso na decisão. Só não foi isso que a guiou, digamos assim.
Pois bem, na Argentina e no Chile fiz questão de, por mais de uma vez, comer carne. Fi-lo porque optei, quando viajo, por sempre aproveitar ao máximo a cultura e a tradição locais, sendo que a gastronomia ocupa um lugar de destaque em tais domínios. Por outras palavras, comi carne porque quis poder aproveitar ao máximo o que ambos os lugares tinham para me oferecer. Não por saudades do sabor da carne, não por a ougar, mas porque quis ter uma experiência completa.
Não vou mentir: soube-me bem e senti-me bem ao fazê-lo. Por cá, não só a carne é de excelente qualidade, como também quem a prepara e serve sabe fazê-lo em condições. Esqueçam os bifes sola de sapato elásticos, finos e sem sabor. Por cá a carne é grossa, sumarenta e invade-nos o paladar de agradáveis sensações. O sabor a grelhado está sempre presente, sentimos o carvão e o fumo imiscuírem-se nas papilas gustativas sem pedir licença nem perdão. Da primeira à última garfada, seguem-se momentos de prazer gastronómico que não podem, de forma alguma, ser ignorados. Mas se isso é verdade, também o é que depois de algumas das refeições me recordei porque não como carne no dia-a-dia, já que o corpo pesado, inchado, mais cansado e com menos energia lançou os seus sinais sem grande demora.
Tudo visto e ponderado, se hoje voltasse a viajar para estes lados, voltaria a comer carne como o fiz, desde logo porque sou apologista de que descartar a gastronomia local quando se viaja é um grande disparate (sem desconsiderar que, no Chile e na Argentina, se não se comer carne não há grandes opções à disposição, mas isso é outra conversa). Vou continuar a comer carne sempre que viajo e quando a gastronomia local assim o exija, ou pelo menos recomende. Porque a verdade é que também se viaja com a boca, e, se assim o é, sinto que devo abraçar o que a cultura local tem, nesse domínio, para me oferecer.
Bom apetite!
Por João Barros



