Por detrás desta fotografia está o estranho sentimento de chegar a um novo sítio durante a noite, por contraposição a chegar à luz do dia. Esta é uma situação que acontece recorrentemente àqueles que, como eu, tentam maximizar a estadia no local que precede o novo destino. E àqueles que, também como eu, preferem opções mais baratas. E a verdade é que é mais barato viajar chegando-se à noite a algum lado do que de dia. Bem mais barato.
É certo que há pessoas mais notívagas do que outras, que, pelo contrário, funcionam melhor à luz do dia. Há quem goste mais da luz do sol, há quem prefira a luz da lua e das estrelas. Cada um tem os seus gostos e não é disto que as próximas linhas tratam. Nelas vou debruçar-me, isso sim, sobre a diferença entre chegar a um novo sítio, desconhecido, durante a noite, em vez de o fazer ainda com os raios de sol a espreitar por entre as nuvens.
Quando chegados a algum lado durante o dia podemos ver o movimento da cidade, a efervescência, as pessoas locais, na sua vida, de um lado para o outro, a cidade e todo o dia-a-dia a acontecer. Uns saem do trabalho, outros a caminho de lá, uns vão às compras e outros juntam-se para copos ao fim de um dia cansativo de labuta. Há luz por todo o lado e podemos apreciar a beleza dos edifícios, arrepiar-nos com a frescura dos espaços verdes, sentir a corrente dos rios e devolver os olhares curiosos das pessoas que nos fitam. Tudo o que um local tem para nos oferecer, está lá, durante a luz do dia, à mão de semear. É só aproveitar.
À noite tudo é mais parado, mais escuro. Há menos movimento, o frio não raras vezes já se instalou nas ruas enquanto as paisagens se tornam sempre mais melancólicas, quase nos atirando para um sentimento de tristeza deambulante que não combina com a excitação de haver um novo local por descobrir. As ruas, os prédios e os parques parecem mais abandonados que aquilo que verdadeiramente são, por vezes sem vida, e o frenesim habitual das zonas perde-se num tom licencioso. Onde deveria haver pessoas, cor e barulho, há antes sombras, escuridão e vazios apenas interrompidos por um som longínquo que, em regra, nos alerta e faz desconfiar. Aliás, não é à toa que as autoridades de alguns países e cidades recomendam mesmo que a chegada ao local seja feita de dia, e não à noite.
Como está bom de ver, quando estou a viajar prefiro chegar a um novo sítio com a luz do dia, ainda que tal nem sempre seja possível. Não que alguma má experiência digna de registo tenha existido pelo mero facto de chegar a algum lado à noite, não é isso. Trata-se apenas e tão só de uma preferência. Dentro do pouco que se controla no decurso de uma viagem, os timings de chegada de autocarros e aviões não se incluem numa tal lista. E foi isso mesmo que aconteceu em Buenos Aires.
O desembarque do avião deu-se quando faltavam trinta minutos para a meia-noite, havendo ainda a necessidade de encontrar e aguardar que um carro se decidisse a levar-nos até San Telmo, no centro da cidade. Após algum tempo de espera e uma viagem desconfortável, chegámos ao local de pernoita já no início do dia seguinte. A chegada a Buenos Aires deu-se tal e qual eu gostaria que tivesse acontecido? Não. Mas isso não interessa, já que pela frente restavam sete dias para aproveitar ao máximo aquilo que a cidade teria para nos oferecer, tanto de dia como durante a noite.
Até amanhã Buenos Aires, vemo-nos à luz do dia!
Por João Barros



