Artigo

PARA ALÉM DA FOTOGRAFIA – DIA 16 El Chaltén (Laguna de Los Tres, Fitz Roy), Patagónia, Argentina

Por detrás desta fotografia está uma caminhada. Mas esta não foi uma caminhada qualquer. Foi uma caminhada especial, quiçá a mais aguardada de todas as que a Patagónia nos reservou.

Esta foi uma caminhada que culmina todas as outras que marcaram esta viagem e a nossa estadia na Patagónia. Desde logo porque, para este vosso narrador, era a mais ansiada, aquela que mais expectativas lhe criava, já que no seu final poderia ter uma visão direta e próxima do famoso Fitz Roy, que desde o alto dos seus três mil e quatrocentos metros rasga ameaçadora e destemidamente o céu. Mas também porque a aguardada caminhada seria a última das muitas empreendidas no sul da Patagónia, da qual nos viríamos a despedir no dia seguinte.

Como está bom de ver, uma viagem ao sul do Chile e da Argentina não é pera doce. Os dias por cá passados não se tratam propriamente de uma jornada de descanso para o corpo, bem pelo contrário. Descanso para a mente sim, disso não restam dúvidas, já que a imersão na natureza, com boa companhia, sem horas nem preocupações para fazer o que quer que seja assim o dita. Mas as caminhadas foram muitas e longas, algumas das quais nos deixaram mesmo perto do limite. Imagine-se até que frases como ‘isto para mim, neste preciso momento, deixou de ser prazeroso’ foram ouvidas sendo ditas em voz alta, o que tudo visto e ponderado não deixa de fazer algum sentido.

Quando se pensa na Patagónia, salta-nos logo à mente Fitz Roy, a montanha que deu cara à famosa marca Patagonia. Uma imagem há muito gravada e enraizada na memória dos viajantes lusitanos, e que fazia parte dos planos deste narrador conhecer pessoalmente, com os meus próprios olhos, pernas e pés, desde que tem memória. A caminhada que nos leva ao miradouro de base da tão aclamada montanha foi, então, como que o fechar do capítulo de um sonho antigo que era conhecer a Patagónia, em toda a sua calma e extensão.

Por essa razão partimos novamente animados e destemidos às cinco horas da madrugada nesta jornada rumo ao miradouro pretendido, a qual nos levou por lagoas, encostas, bosques, subidas íngremes até mais não e, por fim, à base do Monte Fitz Roy. Aí, uma lagoa parcialmente congelada, rodeada por neve, aguardava-nos e os pedregulhos perdidos nas suas imediações funcionaram como bancos para que o espetáculo natural com que nos deparámos pudesse ser devidamente apreciado, em profundo e merecido descanso. E a verdade é que valeu a pena, como não poderia deixar de ser. Não só o destino, mas também todo o percurso até lá, presentearam-nos com aquela que, se pudéssemos ter escolhido, seria a forma indicada de terminar uma viagem pela Patagónia.

A caminhada terminou por volta das três da tarde, onde, para fugir novamente aos postos de controlo fomos forçados a cortar caminho montanha abaixo, num percurso não marcado, que mais tarde nos obrigou a trepar a um tronco caído de forma a saltarmos por cima da cerca que limitava o acesso livre e desimpedido ao trilho marcado. Chegados à cabana, mais um brinde de cerveja entre todos os bravos caminheiros que, depois de vinte e oito quilómetros encosta acima e abaixo, cansados, mais não demonstravam que sorrisos tão rasgados quanto os picos que, hoje mais de perto, haviam tido a oportunidade de ver cobertos de neve rasgar as nuvens sem fim.

Estava terminada a nossa estadia por cá.

Um brinde à Patagónia, voltaremos a ver-nos um dia.

 

Por João Barros

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