Por detrás desta fotografia está uma caminhada. Mas esta não foi uma caminhada qualquer. Foi uma caminhada especial, quiçá a mais aguardada de todas as que a Patagónia nos reservou.
Esta foi uma caminhada que culmina todas as outras que marcaram esta viagem e a nossa estadia na Patagónia. Desde logo porque, para este vosso narrador, era a mais ansiada, aquela que mais expectativas lhe criava, já que no seu final poderia ter uma visão direta e próxima do famoso Fitz Roy, que desde o alto dos seus três mil e quatrocentos metros rasga ameaçadora e destemidamente o céu. Mas também porque a aguardada caminhada seria a última das muitas empreendidas no sul da Patagónia, da qual nos viríamos a despedir no dia seguinte.
Como está bom de ver, uma viagem ao sul do Chile e da Argentina não é pera doce. Os dias por cá passados não se tratam propriamente de uma jornada de descanso para o corpo, bem pelo contrário. Descanso para a mente sim, disso não restam dúvidas, já que a imersão na natureza, com boa companhia, sem horas nem preocupações para fazer o que quer que seja assim o dita. Mas as caminhadas foram muitas e longas, algumas das quais nos deixaram mesmo perto do limite. Imagine-se até que frases como ‘isto para mim, neste preciso momento, deixou de ser prazeroso’ foram ouvidas sendo ditas em voz alta, o que tudo visto e ponderado não deixa de fazer algum sentido.
Quando se pensa na Patagónia, salta-nos logo à mente Fitz Roy, a montanha que deu cara à famosa marca Patagonia. Uma imagem há muito gravada e enraizada na memória dos viajantes lusitanos, e que fazia parte dos planos deste narrador conhecer pessoalmente, com os meus próprios olhos, pernas e pés, desde que tem memória. A caminhada que nos leva ao miradouro de base da tão aclamada montanha foi, então, como que o fechar do capítulo de um sonho antigo que era conhecer a Patagónia, em toda a sua calma e extensão.
Por essa razão partimos novamente animados e destemidos às cinco horas da madrugada nesta jornada rumo ao miradouro pretendido, a qual nos levou por lagoas, encostas, bosques, subidas íngremes até mais não e, por fim, à base do Monte Fitz Roy. Aí, uma lagoa parcialmente congelada, rodeada por neve, aguardava-nos e os pedregulhos perdidos nas suas imediações funcionaram como bancos para que o espetáculo natural com que nos deparámos pudesse ser devidamente apreciado, em profundo e merecido descanso. E a verdade é que valeu a pena, como não poderia deixar de ser. Não só o destino, mas também todo o percurso até lá, presentearam-nos com aquela que, se pudéssemos ter escolhido, seria a forma indicada de terminar uma viagem pela Patagónia.
A caminhada terminou por volta das três da tarde, onde, para fugir novamente aos postos de controlo fomos forçados a cortar caminho montanha abaixo, num percurso não marcado, que mais tarde nos obrigou a trepar a um tronco caído de forma a saltarmos por cima da cerca que limitava o acesso livre e desimpedido ao trilho marcado. Chegados à cabana, mais um brinde de cerveja entre todos os bravos caminheiros que, depois de vinte e oito quilómetros encosta acima e abaixo, cansados, mais não demonstravam que sorrisos tão rasgados quanto os picos que, hoje mais de perto, haviam tido a oportunidade de ver cobertos de neve rasgar as nuvens sem fim.
Estava terminada a nossa estadia por cá.
Um brinde à Patagónia, voltaremos a ver-nos um dia.
Por João Barros



