Por detrás desta fotografia está uma manhã bem passada quase estragada por uma má notícia. Uma notícia que, à imagem de todas as outras que são más, não queríamos ter recebido naquele preciso momento.
O dia não poderia ter começado de melhor forma. Depois de o despertador tocar por volta das quatro e meia da madrugada, eram cinco e um quarto e já a dose diária de trekking se havia iniciado. Ultrapassados com sucesso os pontos de controlo onde nos seria cobrada uma portagem choruda apenas e tão só por nos apetecer caminhar, sem dar qualquer hipótese de sermos interpelados de tão cedo que foram iniciadas as festividades, seguiu-se uma caminhada até ao topo da montanha que nos brindou, no final, com uma paisagem de trezentos e sessenta graus livre de quaisquer nuvens, nevoeiro ou o que quer que a pudesse arruinar. Uns sortudos que, ainda assim, fizeram por ser merecedores de tal sorte, diria eu!
Tudo correu às mil maravilhas. Ao longo da caminhada o sol brilhou como até então não havia brilhado, ininterruptamente, o vento decidiu dar-nos uma folga da sua presença e nem sequer nos visitou, caminhámos sozinhos montanha acima sem que qualquer outra alma viva por lá estivesse para nos acompanhar (exceção feita a duas enormes vacas que nos fitaram como quem pergunta ‘o que estão a fazer aqui tão cedo?’). Uma hora sozinhos no topo da montanha a apreciar, em silêncio, vistas de retirar a já pouca respiração que nos restava, uma descida rápida, confortável e sem percalços. À chegada a El Chaltén, após uma paragem estratégica no supermercado mais barato da cidade para nos abastecermos de cerveja local para brindar a tão vitoriosa manhã, dirigimo-nos a casa para as bebermos ao sol, com os pés descalços no terraço da nossa cabana, sentados no deque de madeira.
Aí chegados, ao sublime e tão desejado deque de madeira, refira-se, compartilhámos a felicidade com as companheiras de viagem que, nessa mesma manhã, haviam decidido folgar e recuperar forças. E eis que, por entre os sorrisos dos alegres caminhantes, a malfadada má notícia chegou: o voo para Buenos Aires, inicialmente agendado para vinte e sete desse mesmo mês de novembro, ou seja, daí a dois dias, havia sido cancelado sem mais. A opção proposta pela malvada companhia aérea? Voar no dia um de dezembro, o que não faria sentido já que tudo o que havia a ser feito em El Chaltén já o havia sido, queríamos agora ir conhecer Buenos Aires tal como tínhamos planeado há muito tempo atrás, e inclusivamente uma das viajantes da companhia tinha voo marcado de volta para a Europa no dia trinta de novembro. A opção oferecida, para nós, estava fora de questão.
O que significou isto? Ter de solicitar a devolução do dinheiro já gasto no primeiro voo (devolução que, à data em que estas linhas se escrevem, mais de um mês e meio volvido, ainda não sucedeu) e por cima ainda ter de desembolsar mais do que o dinheiro inicialmente previsto num novo voo para podermos manter o plano inicial e aproveitar convenientemente o que faltava da viagem. Sim, porque voos marcados em cima da hora são sempre mais caros, e dado que outras pessoas terão ficado na mesma situação que nós, os preços irremediavelmente subiram tal qual a nossa irritação. Porca miséria!
A verdade é que numa viagem nem sempre tudo corre bem ou de acordo com o planeado. Os inesperados acontecem, por vezes bons, outras vezes maus, e estão cá para ficar. Quando se confia em companhias aéreas low cost de baixa qualidade (nota para mim mesmo: nunca mais voar na FlyBondi!), os inesperados acontecem ainda mais. Não havendo nada mais a fazer, somos forçados a adaptar-nos, prosseguir, continuar e aprender para tentar mais tarde tentar, sem garantias, não repetir os mesmos erros.
Acima de tudo, haverá que relativizar e não deixar que uma pequena areia na engrenagem arruíne o estado de espírito para o resto da viagem. Ainda para mais quando tanto resta para fazer e aproveitar. Dito isto, vamos lá comprar nova viagem de avisão e toca a desembolsar!
Por João Barros



