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PARA ALÉM DA FOTOGRAFIA – DIA 11 El Calafate (Perito Moreno, Parque Nacional dos Glaciares), Patagónia, Argentina

Por detrás desta fotografia está uma constatação. Uma constatação que, lamentavelmente, não é das melhores que já experienciei.

Quando saídos de Puerto Natales e chegados a El Calafate, depois de atravessar a fronteira chilena para território argentino, sentimos ser chegado o momento de fazer um balanço financeiro da viagem. A conclusão a que chegámos apresentou-se perante mim de forma estrondosa e barulhenta: uma desgraça! Tudo aqui é mais caro do que aquilo que havia sido programado, e o dinheiro sai da carteira a uma velocidade alarmante. Qual a consequência? Poderíamos ser levados a eliminar alguma das atividades que havíamos previsto para os dias que se seguiriam.

Foi então que dei por mim a ponderar se deveria visitar, ou não, o Perito Moreno, o maior glaciar da América do Sul, um dos maiores do planeta, situado no Parque Nacional Los Glaciares. Sim, só estou aqui uma vez nada vida, pelo que faz sentido ir visitar o bloco de gelo ainda que os preços de acesso ao parque e as viagens até lá sejam ridiculamente altos (quarenta euros para fazer uma ida e volta que dura uma hora e meia para cada lado parece-me exagerado, pelo menos a mim…). Em todo o caso, como o único fator na coluna do contra era o preço que haveria de despender para esse mesmo dia, decidimo-nos a ignorar a cautela e aventurarmo-nos rumo ao Perito Moreno. Não me perdoaria se perdesse uma parede gelada azul de cerca de setenta metros de altura a erguer-se diante mim, uma massa de gelo que não derrete e permanece intacta o ano inteiro. Tinha de ver com os meus próprios olhos, testemunhar esse mesmo fenómeno natural, desse por onde desse. E assim foi.

A decisão foi acertadíssima. A visão do glaciar a erguer-se diante de nós e estendendo-se vários quilómetros para diante, perdendo-se no meio das montanhas que ao fundo se fazem notar, é uma vista digna dos mais belos lugares que já tive a sorte de visitar. Uma preciosidade e um espanto. A visita foi tão boa que quase dei por mim a resmungar comigo próprio, silenciosamente, por sequer ter posto em causa testemunhar o que acabara de ver. Um disparate. Se houve noventa e cinco euros que fizeram sentido gastar nesta viagem, estes entram na corrida pelo pódio sem qualquer margem para dúvida.

Em todo o caso, não desvendei ainda qual foi o argumento que mais força teve no sentido de me compelir a visitar o glaciar, e que passa pela constatação referida no início deste texto. A constatação, muito clara, que, ainda que um dia possa voltar à Patagónia para o ver, é possível que daqui a uns anos o Perito Moreno já cá não esteja. Pelo menos, poderá já cá não estar tal e qual se apresenta hoje diante de nós. Não sou especialista na matéria, mas com os acelerados efeitos derivados do aquecimento global e o degelo dos glaciares um pouco por todo o globo, creio que nada nem ninguém parece ser capaz de garantir que se voltar a El Calafate dentro de uns vinte anos, o glaciar ainda cá esteja, ou que, quanto mais não seja, esteja na mesma.

No Parque Nacional los Glaciares, diante do imponente Perito Moreno, os blocos de gelo azulado que vamos vendo dispersos pelo lago enquanto nos aproximamos da parede gelada parecem dar razão a esta preocupação, como também o fazem as periódicas quedas de blocos gigantes de gelo do próprio glaciar que, com um estrondo ruidoso, mostram que este se está a desfazer a um passo acelerado. Algo que aconteceu não uma, não duas, mas incontáveis vezes nas meras duas horas e meia em que por lá estivemos, o que alerta para o ritmo a que o glaciar se está a desfazer. Algo que não passa despercebido nem aos mais desatentos, já que o tamanho dos blocos que constantemente se desprendem da magnífica parede de gelo é digno de registo. Aliás, num dos miradouros que visitámos é possível, inclusivamente, ler que em virtude dos ditos desprendimentos de gelo, e dada a violência do fenómeno, há fragmentos que voam descontrolados até dezenas de metros, o que resultou, entre 1968 e 1988, em trinta e duas mortes de pessoas que foram atingidas. A morrer não morrerá sozinho, parece querer transmitir-nos o Perito Moreno.

O barulho que resulta do choque entre o gelo que do alto cai e a água do lago, mais não se trata que de um grito de ajuda da mãe natureza para quem quer que possa ou queira ouvir, saiba que se nada fizermos o glaciar vai mesmo acabar por desaparecer. Um som que, como sucede numa tempestade de trovões, chega bem atrasado em comparação com a imagem da queda dos enormes pedaços de gelo a desprenderem-se sob a água adormecida lá em baixo, o que nos dá bem a noção da dimensão não só do glaciar, mas também do problema. Afinal de contas, são treze metros de espessura perdidos por ano, tendo a área de gelo entre 1968 e 2022 passado de 838km2 para 647km2. Uma tragédia, que verdadeiramente o é.

Se nada fizermos, a imensidão de torres e pontiagudos picos irregulares de gelo que apontam em direção ao céu, tão azuis que fazem corar a própria água em que assentam, deixarão de lá estar para mais tarde serem apreciados. Desaparecerá a parede de setenta metros de altura que reduz a uma insignificância gritante os vários barcos de três andares que, junto a si, mais não parecem que meras miniaturas de brinquedos indicados para uma criança brincar.

Como se costuma dizer, uma razão destas para visitar o Perito Moreno vale o que vale e pode não ser um verdadeiro argumento para se visitar um lugar ou não. Mas foi precisamente isto que me ajudou a tomar a decisão de o visitar, e que me alertou para a efemeridade de algumas paisagens que tenho tido a oportunidade de vislumbrar nos últimos dias. É que, na verdade, um dia que volte à Patagónia, todas estas paisagens podem, afinal, já cá não estar para me receber.

Por João Barros

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