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PARA ALÉM DA FOTOGRAFIA - DIA 10 Torres del Paine (Sector Frances), Patagónia, Chile

PARA ALÉM DA FOTOGRAFIA – DIA 10 Torres del Paine (Sector Frances), Patagónia, Chile

Por detrás desta fotografia está a desconexão. Estão três dias algures no meio das montanhas sem qualquer acesso a internet. Mais do que sem acesso internet, estão dias sem que o telemóvel tenha, praticamente, saído da mochila, e tudo o que isso significou.

Estaria a mentir se dissesse que o telemóvel não saiu, de todo, da mochila. Ele saiu, sim. Em todo o caso, o simples facto de estar guardado na mochila, e não em algum dos mil e um bolsos que o equipamento desportivo tem para oferecer, já muito diz sobre os dias em Torres del Paine. O telemóvel foi apenas usado para registar alguns vídeos que a paisagem, de tão admirável, assim o exigia, assim como para servir de despertador que nos alertava para a necessidade de começar uma nova caminhada ainda antes do nascer do sol. De resto, para nada mais serviu. Nem sequer para ser usado como lanterna, já que os preparadíssimos caminheiros se fizeram munir, desde o início da viagem, de uma pequena lanterna para colocar à volta da cabeça nas horas de maior escuridão. A prova da parca utilização do aparelho é tal que, mesmo com a bateria de tal modo viciada que num dia normal necessita de ser recarregada duas vezes, por cá, a mesma, durou três dias, ainda restando uns admiráveis vinte por cento no final. Obra digna de registo!

Os três dias em Torres del Paine, para além de provarem muitas outras coisas, servem também de prova de que, quando queremos, é possível viver durante uns tempos sem o telemóvel. Quanto mais não seja, em determinadas ocasiões devemos forçar-nos a não lhe dar tanta utilização, a afastarmo-nos e, por recomendação dos nutricionistas tecnológicos globais que por aí andam, fazer um detox. Claro está que no nosso caso a abstinência foi forçada, já que a falta de conexão e o preço inusitado que se teria de pagar por uma senha de acesso a um wifi fraco assim o reclamaram. Mas foi melhor assim.

A verdade é que no dia-a-dia somos constantemente solicitados a dizer presente a toda e qualquer solicitação, quer estejamos perto ou longe, livres ou ocupados, tristes ou felizes, disponíveis ou não. Mesmo quando a viajar do outro lado do mundo assim é. Ter a possibilidade de tirar o pé do acelerador social e da teia que nos rodeia soube bem, muito bem.

Os três dias em Torres del Paine não fizeram de mim um eremita que não necessita de tecnologia para sobreviver. Não, a minha personalidade ao longo destes três dias não evoluiu de tal modo que hoje sou um paternalista que olha para quem usa o telemóvel – como eu, aliás! – como se de almas perdidas se tratassem. Nada disso. Também eu uso o telemóvel, dou-lhe uso para coisas úteis e inúteis, e gosto de o fazer. Não dei por mim a acordar um dia e ser um negacionista que acha que o que faz sentido é viver isolado, longe de tudo e todos, sem acesso ao telemóvel, meios de comunicação e informação.

O que sei é que foi muito o prazer que retirei de, durante três dias, ter estado perdido nas montanhas do sul do Chile, sem acesso a conexão, afastado do mundo em geral. Não o esquecerei, e um dia destes certamente vou repetir a dose.

 

 

Por João Barros

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