MEMÓRIAS DA CASA ANTIGA

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Amanhecem os dias de outros tempos ao som do galo anunciador do Sol. Diz-nos o adágio popular “tu ao canto do galo acordas, ele ao som da trombeta”, instrumento musical para juntar gentes à chegada de notícias ou visitantes. Nas igrejas, repicavam os sinos marcando as horas do dia, chamando fiéis para as missas ou anunciando as más e boas novas. E tantas igrejas tinha (e tem) Lisboa…

Na Casa Antiga modesta, a chegada fazia-se sentir pela voz chamando “ó da casa” – atendendo quem estivesse -, ou pelo som de um bater de palmas que antecedia a entrada por uma porta destrancada – e tantas vezes aberta – para a cozinha, palco de todas as movimentações mais ou menos informais. Nas mais abastadas, aguardavam as visitas no pátio de honra exterior o convite de entrada pela grande porta que se abria sobre o vestíbulo, precedendo as salas e salões que as compunham. Dispensava-se o aviso para quem chegasse de sege ou charrete em visitas programadas e esperadas, tocando o recepcionista um pequeno sino já no interior da residência para o anúncio dos convidados.

E se no campo ou arredores se avisava a chegada à propriedade no sino do distante portão que antecedia a entrada pelos jardins, na casa urbana a porta fecha-se sobre a rua e a chamada faz-se pela seca pancada do batente pendurado no exterior, que ecoa até às áreas de serviço.

Ao batente também se chama aldraba, ou aldrava, quando em forma de argola, com que se bate na porta ampliando o som dos dedos do punho cerrado, tão frágil para se fazer ouvir no interior da casa através da grossa espessura das madeiras. Em latão, bronze ou ferro, adquirem várias formas que lhes conferirão diferentes sons, adornando as fachadas durante todo o século XIX e inícios de XX, até que a electricidade lhes trouxesse a inutilidade pela novidade da campainha eléctrica. Pancadas de argolas, punhos, leões, animais e outras figuras, ecoavam pelas ruas como melódicas lengalengas ritmadas como a tão conhecida “mão morta, mão morta, vai bater, àquela porta”…

O “hardware” (i.e. ferragens para casa) era então outro: batentes e dobradiças, puxadores e maçanetas, chaves e ferrolhos, grades e portões, e no movimento de cada um deles, seu som.

Para a segurança que se queria mais apertada, a chave que precede a entrada – essencial na casa urbana e cosmopolita -, trará à porta da rua este objecto tão usado no interior, encerrando quartos, cofres, armários ou gavetas, na procura de alguma privacidade difícil de conseguir onde tantos vivem (e convivem). Quase extinta nos dias de hoje, a sua utilidade milenar é agora substituída pelos cartões electrónicos, códigos numéricos, impressões digitais, palmares, oculares e um sem fim de alternativas consideradas mais seguras do que esta antiga peça metálica.

Portas adentro, onde o silêncio dos bons modos não permitia o levantar da voz para se fazerem ouvir os chamamentos, a linguagem é igualmente sonora. Distribuem-se campainhas pelas várias divisões da casa (quartos, salas e saletas), onde a família fará sentir a necessidade da presença dos seus criados ao som do toque numerado na grelha da copa.

Não distante dos sons escolares que marcam os horários de pausa e de trabalho, também na Casa Antiga a enorme família é chamada para as refeições ao som do pequeno sino, hábito mais expedito do que a procura individual pelas grandes áreas domésticas por onde se dispersam pais, filhos, avós ou visitas. À mesa, pousa um sininho metálico em forma de boneca e que estabelece a linguagem entre a dona da casa e quem serve a mesa, disciplinando subtilmente os rituais de pôr e tirar os pratos. Mais tarde, será o sino substituído por uma discreta campainha fixada no soalho e próxima do pé da patroa, soando nesse pedal o chamamento para as áreas de serviço.

Antes do chegar da electricidade, era então a campainha o sino e o sino a campainha.
E se o som do sino se difunde de forma mais dispersa e melodiosa pelo ar, pelo interior, exterior, jardins ou até mesmo na quinta, dependendo dos humores de quem o toca, o batente da porta da rua direcciona-o para o interior, sendo por isso mais próprio para ambientes urbanos ou limitados.

Compõem assim e também os sons da Casa Antiga o ambiente da cidade ou do bairro, onde se fundem com ritmo dos passos, das vozes, dos sinos das igrejas, dos pássaros e das pessoas. Que permaneçam os antigos batentes, aldrabas e graves ferragens ecoando pelas calçadas em memórias de outros tempos e destas (e de outras) vidas da casa e da cidade…

Texto e fotografia por Ana Motta Veiga

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