Artigo

MEMÓRIAS DA CASA ANTIGA – O QUARTO DE DORMIR

A noite, “espaço de tempo que ca o Sol debaixo do Horizonte” e momento de outros tempos na recolha a casa do trabalho nos campos, começado ao nascer do sol e terminado à hora das Avé Marias: o toque sineiro das 18 horas. E era ao ritmo da Natureza e do badalo da igreja que se regulava também o momento do sono, ajudado no despertar pelo grito do galo da matina e no deitar pelo aproximar do silencioso João Pestana. O serão – tarefas de entretenimento ou ocupação doméstica nocturna – era limitado pela luz e pelo cansaço, sendo pouco habitual nas casas mais modestas, mas um hábito crescente nas residências oitocentistas mais prósperas e adeptas de novas e sofisticadas formas de alumiar e prolongar a claridade do dia.

Foi desde sempre a casa local de recolhimento, mas o quarto nem sempre terá sido o aposento de maior intimidade. As habitações populares rurais ou até urbanas, eram compostas por pouco mais do que uma sala que permitia em simultâneo comer, estar e descansar em família, no mesmo espaço, e com escasso mobiliário como o banco, a arca, a mesa e a cantareira (vão na parede para as jarras e canecas de uso quotidiano), fazendo os seus residentes as “camas” em alcovas tantas vezes partilhadas.

O número e a dimensão das divisões da casa aumentavam ao ritmo da subida do estrato social dos seus habitantes, permanecendo no entanto um elemento comum na localização do local de dormida: mais distante e resguardado da entrada e no final do percurso pelas áreas sociais. A designação de quarto estava no entanto distante do que hoje significa, sendo câmara o termo mais utilizado e significando “a casa em que se dorme”, casa denominada como divisão doméstica tal como também era chamada de “casa de jantar” o local das refeições, nome que se manteve até hoje.

O aumento de compartimentos, permitiu a organização dos espaços com usos cada vez mais específicos. Os quartos principais para uso dos donos das casas ou dos seus hóspedes, dispunham-se no andar nobre (usualmente o primeiro) e na sequência das várias salas sociais e/ou de aparato, tendo os restantes membros da alargada família – incluindo as crianças – alguma mobilidade na hora de deitar, acomodando-se nos pisos superiores e inferiores, nos sótãos e caves, dormindo até por vezes alguns criados em improvisadas camas amovíveis encostadas num recanto e mais perto do seu posto de trabalho, ou do chamamento dos seus patrões.

A “cama” era assim feita onde fosse possível acomodar os tantos habitantes e hóspedes destas residências, tendo esta palavra um significado mais amplo do que hoje usamos para definir apenas a peça de mobiliário. A designação do móvel a que hoje chamamos cama era por isso diferente: catre se fosse uma estrutura composta por quatro pilares curtos de madeira e tábuas onde se fazia a cama, leito se a mesma estrutura do catre fosse mais alta e comportasse cortina, ou alcova se a cama fosse feita num nicho de parede, resguardando-a em três lados e fechando-se com um pano pendurado pelo lado maior e da sua entrada. Na estrutura em madeira – seja catre, leito ou alcova -, a cama era feita com sucessivas camadas procurando garantir o maior conforto do seu utilizador. Sobre a tábua era colocado o enxergão, saco largo de pano cheio com palha uniformemente distribuída e que antecedia o colchão, um segundo saco recheado de lã ou penas que amaciava contacto com a base mais incómoda da palha do enxergão, e que recorda os actuais edredons. Os lençóis de linho mais no, onde repousava o travesseiro recheado de lã para apoio da cabeça, separavam a base da coberta, ou dos cobertores, quentes panos de lã de ovelha que antecediam a na e decorativa colcha em seda lavrada, bordada, e que cobria todo o conjunto.

Da roupa de quarto, constavam os lençóis e as suas fronhas bem como as toalhas de rosto e de banho, trazidas ao casamento no enxoval da mulher, feitas em cuidadosos lavores de várias horas de bordados sobre nos ou mais robustos panos de linho, capazes de durar várias vidas e de resistir às imensas lavagens de rio. A esta roupa branca, cuja cor se queria imaculada de horas a corar ao Sol, acrescentavam-se as longas camisas de dormir que durante o dia poderiam servir de forro aos trabalhados vestidos (despidos para o descanso nocturno), acompanhadas por um toucador ou barrete usados por ambos os sexos durante o sono, cobrindo as cabeças e os penteados. Terão estas camisas e calças interiores sido os antecessores do pijama e da camisa de noite, mais tarde acompanhados pela importação francesa do robe de chambre, requintado e confortável roupão – também usado sobre a roupa – substituindo o casaco em ambiente doméstico. Nos pés, o uso mais informal era o do chinelo, sapato sem calcanhar para andar por casa. Mimetizava assim a roupa de noite a roupa usada durante o dia, cobrindo de igual modo a cabeça, o corpo e os pés num formato mais simplificado e confortável.

Eram as cortinas que envolviam o leito ou a alcova um poderoso aliado do aquecimento e do conforto, permitindo o resguardo da cama à luz, ao frio, ao som, e às tantas correntes de ar que circulavam pelas divisões da casa antiga. No Inverno, precedia o deitar a passagem dos lençóis com uma quente escalfeta de cobre recheada de brasas e com um longo cabo de madeira, garantindo o aquecimento à entrada na cama, seguido da colocação de botijas de água quente – metálicas ou de louça – envoltas em panos de lã para o prolongamento do calor ao longo da noite. A forma de fazer a cama, ou o local de repouso, evidenciavam assim a condição social de cada um, sendo as sucessivas camadas de conforto igualmente proporcionais às condições económicas de quem as usava, dormindo a pobreza sobre a palha e tantas vezes sem um enxergão, coberta com um cobertor de papa ou lobeiro e longe dos macios colchões de penas, dos lençóis bordados e aquecidos, reservados aos poucos que os podiam usar e manter.

Com o tempo, a espuma e as molas substituiriam a palha do velho enxergão, cujo nome caiu em desuso sendo absorvido pelo actuais, mais cómodos e higiénicos colchões, e as cortinas do leito ou da alcova passariam para os reposteiros das janelas dos quartos, estes com dimensões cada vez mais reduzidas e hoje quase totalmente ocupados pelas camas. Os lençóis, os cobertores e por vezes as colchas foram sendo substituídos pelos nórdicos, leves e quentes edredons, sendo aos poucos a antiga terminologia do quarto de dormir esquecida, guardada nas memórias dos que ainda recordam as conversas com os seus Avós.

Texto e fotografia por Ana Motta Veiga

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