Artigo

JORGE COLAÇO E FÁBRICA DE CENÁRIOS

Ainda hoje, ao andar por Lisboa, é frequente encontrar azulejos com a assinatura de Jorge Colaço. São painéis de grande formato, azuis e brancos, por vezes com cercaduras coloridas. Mais que a obra de um único artista, estes azulejos ilustram um gosto e uma época específicos, uma evidência de prestígio para os seus proprietários e um momento de reafirmação do azulejo figurativo em espaços públicos e privados.

Jorge Colaço (1868-1942) não foi sempre pintor de azulejos. A sua vasta carreira dispersou- se por desenho, decoração de interiores, pintura e caricatura, áreas onde deixou uma produção original e até desconcertante, injustamente pouco conhecida. No campo da caricatura, principal arma de crítica política à época, foi diretor artístico d’O Século – Supplemento Illustrado, uma publicação republicana durante a Monarquia, e, depois, foi fundador e diretor de arte d’O Thalassa (1913), semanário monárquico ativo em plena 1.ª República. Não obstante o laço de amizade com o republicano Rafael Bordalo Pinheiro, Colaço manteve-se sempre defensor da monarquia, fratura ideológica que não o impediu de exercitar o seu sentido crítico em publicações alinhadas com os dois lados da contenda política que animou a sociedade portuguesa entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX.

Foi também pela amizade que Jorge Colaço chegou à Fábrica de Louça de Sacavém. Depois da formação em Madrid e em Paris, instalara-se em Lisboa em 1896, na Rua das Taipas, desenvolvendo então uma carreira como desenhador e pintor. Em 1902, conheceu James Gilman, sócio da Fábrica de Sacavém e, em 1905, abriu o seu primeiro atelier vocacionado para a pintura de azulejo, na Rua D. Pedro V, num prédio cuja fachada ainda tem um painel assinado por si.

Os primeiros trabalhos em azulejaria correspondem à materialização de um gosto pessoal que, como o próprio escreveu, estava profundamente marcado pela luz e pela cor de uma cidade do Sul da Europa, que tanto tinha em comum com a sua Tânger natal. Outros fatores concorreram para o sucesso de Colaço nesta área, como um acentuado gosto neo-mudéjar em alguma clientela socialmente privilegiada (detetável também nas pesquisas de Raul Lino em torno das casas marroquinas do Estoril e de Cascais, uma das quais – a Casa Monsalvat – havia sido construída para o pianista Alexandre Rey Colaço), ou a ideia de que o azulejo era parte da identidade nacional, uma vez que nenhum outro país havia cultivado tanto esta fórmula artística.

Em pouco tempo, Jorge Colaço assumiu-se como uma referência na arte portuguesa, sendo lícito afirmar que a ele se deve a renovação da produção azulejar nacional, em moldes que viriam a ser integrados e ampliados pelo ideário do Estado Novo. Não se conhece a data em que Colaço se instalou na Fábrica de Sacavém, com atelier próprio. Mas sabe-se que aí trabalhou até 1923, ano em que, por desentendimento com Ralph Gilman, transitou para a Fábrica Lusitânia, onde dispôs também de atelier independente. Até 1942, ano da sua morte, Colaço explorou diferentes dimensões do azulejo, apurando a técnica de cozedura (para melhor fixar os pigmentos), ou pintando mesmo por cima de um vidrado superficial, mas cultivando o desenho como matéria primeira do processo criativo.

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Por:Paulo Almeida Fernandes

Fotografia :Museu de Lisboa

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