Gula Ambiental

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A linha que separa a necessidade de uma gula desmedida é, no máximo, micrométrica.

Por gula ou por necessidade, a verdade é que o meio ambiente está cada vez mais afastado da condição humana para uma vivência (melhor, sobrevivência) semelhante àquela em que todos fomos criados.

Talvez nem todos tenham percebido ainda que o Planeta Terra não está, nem nunca esteve em risco. O que está verdadeiramente em risco somos nós pois o Planeta, esse persistirá como persistem os outros planetas, nem que se tenha que transformar num desertificado Marte ou Mercúrio…Nem que tenha que voltar a iniciar tudo de novo e voltar à época dos aminoácidos para reconstruir tudo de novo.

Pensar que estamos a proteger o Planeta de cada vez que reciclamos uma tampa de garrafa é, no mínimo, arrogância Humana… ao reciclarmos essa tampa estamos sim a protegermo-nos a nós. Temos que mudar o “chip” urgentemente! O Planeta sobrepõe-se a qualquer uma das nossas atrocidades e vontades e, ainda que o discurso já tenha mudado nos últimos anos, muitos ainda pensam que toda a conversa acerca de aquecimento global, ambiente, biodiversidade e ecologia se resume à sobrevivência do terceiro calhau a contar do Sol.

É o ser humano que está em risco de perder a sua casa, a biodiversidade necessária para a sua sobrevivência e tudo o que este planeta único nos dá e que justifica uma vida por cá em condições compatíveis com o que somos espiritual e fisicamente. Os locais inóspitos às nossas condições são cada vez maiores até que se resumirão a espaços que não terão espaço para todos. A palavra de ordem é coexistir e para coexistir é necessário entender este casulo terreno único e delicado e evitar os Efeitos Borboleta que geram cada vez mais impactos desproporcionais à variável que lhe deu origem.

Não temos dúvidas de que o mundo será mais elétrico e menos carbonizado, que o mundo será renovável (seja lá o que isso quer dizer) e que sol, vento, geotermia e hidro serão as palavras chave para nos levar à energia infinitamente grande com emissões infinitamente pequenas. Muitos temos estado a tratar disso a uma velocidade alucinante. Só em Portugal prevê-se que em 3 anos mais 10% da produção total de energia será Solar (3 anos é muito pouco tempo) a juntar aos cerca de 50% de energias renováveis que já são uma realidade.

A questão energética, sim ou sim, será solucionada muito brevemente pois está entregue a profissionais dedicados, políticos motivados e, claro, envolvidos no racional económico favorável. O grande problema é que, sendo a energia abundante e renovável capaz de solucionar muitas das outras questões ambientais, fica a faltar tudo o resto, e esse resto é sobretudo respeito pelo outro e por todos os seres que coexistem e estão tão ameaçados por nós, quanto nós.

Consumo desmedido com desperdícios infindáveis, destruição de florestas, agricultura intensiva carregada de química, mega incêndios, caça desmedida, extinção de espécies. Esta parte não se faz só por decreto. O respeito só se consegue com uma melhor compreensão do Planeta como organismo vivo que assegura a nossa sobrevivência por ser como nos habituámos que fosse. Depois então, talvez consigamos acabar com a gula, porque a Terra tem tudo o que necessitamos, mas não tem suficiente para alimentar a nossa atual gula.

O ser Humano tem uma tão grande capacidade de solucionar problemas quanto de ser pessimista quanto a esses mesmos problemas. A verdade é que nos últimos anos solucionámos grande parte dos problemas que existiam à minha nascença. Consola saber que muitos arregaçaram as mangas e ignoraram o dramatismo dos média que pintam sempre o lado escuro do mundo, desacreditando na força humana para fazer do mundo um mundo melhor para todos. O livro “Factfullness” de Hans Rosling é de leitura obrigatória pelo menos para todos os que são da minha geração. Se tem pouco mais de 40 anos, estou certo de que ainda pensa que muitas das crianças raparigas não têm acesso à escola primária, que muita gente não tem acesso a água potável, e que uma grande parte das crianças não são sequer vacinadas. Era tudo verdade em 1980, quando começámos a ouvir notícias, mas as notícias não nos mostram o quanto grande parte dessa nossa perceção do mundo é hoje mentira.

Na realidade 86% das crianças com mais de 15 anos têm capacidades básicas de ler ou escrever, 88% dos bebés com um ano tiveram acesso a vacinação (eram 22% em 1980) e 88% das pessoas têm água proveniente de fontes tratadas (eram 58% em 1980). Surpreendentemente, 90% das raparigas em idade de escola primária estão matriculadas (eram 65% em 1970) e enquanto em 1800, 85% da população mundial vivia abaixo do limiar da pobreza (em 1966 eram 50%), hoje são “apenas” 9% os que vivem com menos de dois dólares diários.

Lembram-se de ouvir falar na Etiópia? Falava-se muito em tempos, mas hoje a Etiópia já não é considerada sequer um país subdesenvolvido. Nenhuma dessas manifestações de materialização Humana são enfatizadas nos média, nos média parece que só é notícia o que de mau acontece. Conseguem imaginar quantos milhares de heróis anónimos conseguiram tornar o mundo mais humano nos últimos 40 anos?

E, já agora, o buraco do Ozono? Lembram-se ainda o que é feito dele?

Somos efetivamente capazes de tudo ao que nos propomos. Essa será talvez a maior das diferenciações do ser humano versus qualquer outro ser.

É verdade que o ambiente é hoje uma catástrofe face ao que já foi, mas também é verdade que o ser humano, apesar da sua gula, tem acudido e construído de forma extraordinária um mundo melhor para todos. Os média destroem quase sempre as boas conquistas ao ignorá-las, e os média existem para satisfazer a gula Humana de informação que, curiosamente, parece alimentar-se mais com notícias más do que com as boas. Para dar início a qualquer atitude drástica de “correção ambiental”, temos primeiro que acabar drasticamente com a nossa priorização às coisas más que acontecem ao mundo, ao outro, a nós. Temos que olhar positivo e que dar tempo de antena ao bem. Temos que arrumar no esquecimento os que destroem e colocar na linha da frente os que constroem.

O negativismo não é a regra, é a exceção, assim como o mau é a exceção e não a regra.

Para nos salvarmos de um planeta inabitável, temos que confiar e ter o pragmatismo positivo de olhar o problema e agir já hoje, seja à escala micro (cada um de nós) seja à escala macro (institucionalmente). Não precisamos dos discursos catastróficos das ilhas de plástico, nem da desflorestação amazónica… precisamos sim, de fazer pequenas e grandes conquistas a cada dia, conquistando também a cada dia o respeito pelos que connosco coabitam e que contribuem com a sua existência para este fabuloso ecossistema.

Digamos que depois de um período de gula, é tempo de dieta, neste caso uma dieta ambiental. Não sei se o mundo mudou ou se nós mudámos o mundo, mas se algures um dia alguém concluiu que o Homem é o centro do Universo, agora é melhor o Homem ser tão invisível quanto possível aos olhos do universo.

Acreditemos que vamos conseguir sobreviver às condições que estamos a infligir ao Planeta, sejam elas quais forem.

Bernardo Mota Veiga

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