Exposição Fafe do Brasileiro de torna viagem: Heranças e Memórias

1592 views

Em Fafe, no início de junho, de 6 a 8 do mês, foi apresentada a exposição “Fafe do Brasileiro de torna viagem: heranças e memórias” por ocasião da realização do V Colóquio Internacional – A Casa Senhorial: anatomia dos interiores.

A mostra é dedicada ao tema da e/imigração entre Portugal e Brasil, fenômeno que marcou as identidades dos dois países, seja como colonizadores, emigrantes, “brasileiros” de torna-viagem, e perdura como alternativa privilegiada de migração entre suas populações. No fluxo da imigração, merece atenção a figura do “brasileiro” de torna-viagem, o imigrante português que retornou a Portugal durante o século XIX e começo do século XX, e que construiu, em seu percurso, um intercâmbio de capitais, mercadorias e ideias.

Essa exposição apresenta a contribuição dos “brasileiros” de torna-viagem ao concelho e suas marcas na cidade de Fafe, com destaque para a trajetória de um “brasileiro” de torna-viagem, o comendador Albino de Oliveira Guimarães (1833-1904). Esse emigrante, quando proprietário, promoveu profunda reforma em chácara em Botafogo, no Rio de Janeiro, que pertenceria, anos depois, ao iminente advogado e político Rui Barbosa. Após a morte de Rui, a propriedade se tornaria o Museu Casa de Rui Barbosa, da FCRB, hoje imóvel de interesse público nacional.

O tema é exposto em seis painéis, sendo um dedicado à apresentação da mostra, e os demais a aspectos da trajetória e contribuições dos torna-viagem, comentados em cinco pranchas ‒ “O campo e a cidade”, “A renovação de Fafe”, “Casas dos Brasileiros (I)”, “Casas dos Brasileiros (II)”, “Um Brasileiro Torna-Viagem”.

Em “O campo e a cidade” são abordadas a feição rural da antiga Montelongo e a expansão da vila de Fafe, sede do concelho, centro da principal feira da região; em “A renovação de Fafe”, o tema é a urbanização e expansão da cidade, a partir das contribuições dos “torna-viagem”, com investimentos rurais, iniciativas filantrópicas e a construção de elegante casario, erguido por sucessivas gerações de retornados. Nos painéis sobre as casas dos “brasileiros” são comentadas as casas situadas nas duas localizações de maior prestígio da cidade no século XIX. Aquelas situadas à direita do então largo de Fafe, via de grande movimento, com sobrados azulejados, e as da rua Monsenhor Vieira de Castro, via mais reservada, de selecionada vizinhança, com fachadas clássicas. Todas trazem a claraboia como elemento tanto funcional de iluminação como decorativo, bem como escada em madeira nobre, com corrimão torneado, e requintados estuques. Algumas casas mantem o mobiliário e objetos originais, que permitem que se conheça os modos de vida domésticos do passado. Já no século XX, surgem construções mais ecléticas, em estilo chalé, como o palacete de João Alves de Freitas, hoje sede do arquivo da municipalidade. Em painel destacado, a trajetória de Albino de Oliveira Guimarães, entre Fafe, Rio de Janeiro, e retorno, e sua vinculação com a Casa de Rui Barbosa. Ele adquiriu a casa em 1879, para instalar sua extensa família, com sete filhos, quando promoveu uma profunda reforma, lançando mão dos artefatos de ferro para instalar varandas e novas circulações, e onde implantou um jardim ao gosto romântico. Contudo, por força de contratempos nos negócios, ele a colocaria em leilão, em 1886, e retornaria a Fafe, onde se constituiu um grande proprietário rural.

Vitrines expõem documentos e objetos do legado da família de Oliveira Guimarães, mantidos pela bisneta Maria Luiza Campos de Carvalho, e pelo Arquivo Municipal de Fafe. O acervo é formado por cartas, cartões e fotografias, documentos que testemunham a comunicação entre parentes e amigos na busca de superar as distâncias e as saudades. São documentos e objetos pessoais que trazem as marcas da emigração e da vida privada da virada do século XIX e XX, nos dois lados do Atlântico. A exposição é uma realização da Fundação Casa de Rui Barbosa, instituição brasileira vinculada ao Ministério da Cultura, inicialmente apresentada na Fundação, no Rio de Janeiro, de 23 de outubro de 2017 a 13 de janeiro de 2018. A mostra teve curadoria de dra. Ana Pessoa (FCRB), organização de Roberto Abreu (FCRB), programação visual e montagem de Apoena Horta e Juliana Sidsamer, fotografias de Manuel Meira, e colaboração da dra. Ismênia de Lima Martins (UFF); em Fafe, ela foi organizada pelo sr. Artur Coimbra, diretor do Museu das Migrações e das Comunidades, da Câmara Municipal de Fafe.

 

Por: Ana Pessoa*

*Pesquisadora Fundação Casa de Rui Barbosa

Este site utiliza cookies para permitir uma melhor experiência por parte do utilizador. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização. Mais informação

Se não pretender usar cookies, por favor altere as definições do seu browser.

Fechar