A devoção a Santa Bárbara, profundamente enraizada na cultura popular de Salvador, primeira capital do Brasil, atravessa o Atlântico. De 8 de novembro a 14 de dezembro, o Museu de Lisboa – Santo António apresenta a exposição Bárbara – O Poder da Fé, dedicada a esta tradição luso-afro-brasileira com 384 anos de história. Originária de Portugal, a festa regressa agora às suas raízes, trazendo consigo as influências afro-brasileiras que a transformaram ao longo de mais de três séculos.
A exposição reúne fotografias, vídeos e uma instalação que dão a conhecer ao público europeu a força da devoção da Bahia. A essência da Festa de Santa Bárbara é captada pelas lentes dos fotógrafos brasileiros Adenor Gondim, Elói Corrêa, Lúcia Correia Lima, Manu Dias e Margarida Neide. O projeto tem coordenação de Shirley Pinheiro, curadoria de Adelina Rebouças e produção executiva de António Moreno.
A inauguração está marcada para o dia 7 de novembro, às 18h30, com uma palestra do investigador brasileiro Vagner Rocha, doutorado em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia e autor da tese Salve Bárbara! Caminhos de uma festa popular na Cidade da Bahia.
«Queremos mostrar como a Festa de Santa Bárbara se tornou um encontro de culturas que celebra a diversidade, a fé e a força das mulheres, ao mesmo tempo que propomos a reflexão sobre as heranças compartilhadas entre Brasil e Portugal», afirma Shirley Pinheiro, coordenadora geral. «A devoção chegou ao Brasil no século XVII com um casal de portugueses que construiu uma capela na beira do Porto de Salvador. A população negra local, impedida de praticar sua religiosidade, acabou por associar a santa ao orixá Iansã, resultando em uma fusão cultural que perdura até hoje. Assim, todo dia 4 de dezembro, a cidade se veste de vermelho para homenagear essas duas forças femininas ligadas ao fogo, aos raios e à transformação», explica Shirley Pinheiro.
A escolha do espaço expositivo é também significativa: «Nada melhor do que o Museu de Lisboa – Santo António, espaço que guarda o mistério encantador da fé, para acolher este projeto», destaca a curadora, Adelina Rebouças. «O projeto expositivo propõe uma experiência sensorial através de estandartes com fotografias, objetos usados na festa e projeções de vídeo que testemunham a vitalidade desta celebração e a força da cultura afro-baiana, em que religiões se misturam, e pessoas, cheiros e sons partilham o mesmo território de fé», acrescenta.
Para a realização da exposição, os seus criadores — Shirley Pinheiro, Adelina Rebouças e António Moreno — foram além do encantamento e da devoção à santa. O ponto de partida foi o estudo do jornalista Geraldo Moniz de Aragão, realizado no âmbito do mestrado em Cultura e Sociedade da Universidade Federal da Bahia. O tema foi depois aprofundado pelas investigações antropológicas Festa de Verão em Salvador, de Cleidiana Ramos, e Salve Bárbara! Caminhos de uma festa popular na Cidade da Bahia, de Vagner Rocha — ambas teses de doutoramento na mesma universidade. Outras informações fundamentais foram recolhidas junto de devotos e feirantes da Feira de São Joaquim.
«Ao apresentar a Festa de Santa Bárbara como símbolo de diversidade cultural, o projeto abre espaço para a reflexão sobre herança, tradição e resiliência cultural num mundo interligado. Esta festa, com 384 anos de história e reconhecida como Património Imaterial da Bahia, é um exemplo poderoso de como a cultura pode unir pessoas de diversas origens, reverenciando deusas que representam o poder das mulheres. É uma celebração da diversidade, da inclusão, da tolerância e, também, do poder da fé, da comunhão e da comunidade», sublinha António Moreno, produtor executivo.
Nas palavras do coordenador do Museu de Lisboa – Santo António, Pedro Teotónio Pereira, «receber no Museu de Lisboa – Santo António a exposição dedicada à devoção a Santa Bárbara no Brasil é revisitar antigas tradições portuguesas que, ao atravessarem o Atlântico, se transformaram e ganharam novas expressões. É celebrar a riqueza cultural de um país que une fé e festa, num testemunho comovente e exuberante de religiosidade popular».
Integrada no projeto Vermelho de Fé: Circulação Cultural entre Bahia e Portugal, esta exposição, para Pedro Teotónio Pereira, «propõe-se um espaço de encontro e partilha, reunindo especialistas dos dois países em torno de um diálogo sobre as práticas, memórias e expressões que revelam as dinâmicas culturais que historicamente aproximam o Brasil e Portugal».
O projeto Vermelho de Fé: Circulação Cultural entre a Bahia e Portugal é uma iniciativa que reafirma os laços históricos e culturais entre os dois países, com o apoio do Governo do Estado da Bahia, através do Fundo de Cultura, da Secretaria da Fazenda e da Secretaria de Cultura, no âmbito do Edital de Mobilidade Artística e Intercâmbio.
Esta exposição no Museu de Lisboa – Santo António tem o apoio da Casa de Ogun, em Almada.
Fonte: museudelisboa.pt



