ELOGIO DA BICICLETA

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Uma bicicleta é, tal como um diamante, para sempre.
Não por acaso, quando queremos dar o exemplo de uma aprendizagem que nunca mais se esquece, dizemos: “É como andar de bicicleta”. É um meio de transporte urbano perfeito: não ocupa espaço, não é perigoso de conduzir, é simples de manter e simples de reparar, é extremamente económico, ecológico e duradouro. E tem uma série de vantagens homeopáticas que lhe são exclusivas: nenhum outro meio de transporte trata da nossa saúde e da nossa forma física enquanto o utilizamos.
Um dos grandes mistérios da mentalidade portuguesa é a rejeição linear do uso da bicicleta no dia-a-dia. Com o clima que temos, com a dimensão relativamente contida da maior parte das nossas cidades, com o preço dos combustíveis, com o exército de parcómetros à espreita, não se percebe por que tão pouca gente prefira os pedais para se deslocar.
A bicicleta apenas requer uma pequena disciplina mental quando se troca o uso indiscriminado do automóvel pelo uso militante do selim: obriga-nos a pensar no modo mais lógico e eficiente de efectuar um percurso porque a distância paga-se com o corpo.
A atracção portuguesa pelo automóvel decalca um pouco a atracção portuguesa pela carne. Ingrediente escasso ao longo de gerações durante a penúria salazarista, a carne hoje é utilizada com “excesso de abundância”, como se assim Portugal cancelasse uma dívida atávica na ingestão de proteínas. Também o automóvel, acessível a poucos eleitos da nação até há um par de décadas, hoje é visto e usado não como objecto utilitário de deslocação; mas como arma de vingança a todos os autocarros que se atrasaram, a toda a chuva e frio que apanhámos a pé, a todos os quilómetros que tivemos que pedalar ao longo do século vinte, precisamente o século do automóvel.
Vejo regularmente #bicicletas a circular pelas cidades do planeta. Nos países pobres é um sintoma de subdesenvolvimento, nos países ricos uma opção de desenvolvimento. Só nós, com um pé no Sul e o outro no Norte, não temos a humildade de seguir pedalando com o resto do mundo.
(in “1 Km de Cada Vez”, Clube do Autor 2009)
Por: Gonçalo Cadilhe

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