Em 2026, o Atelier-Museu Júlio Pomar celebra o centenário do nascimento de Júlio Pomar, um artista cuja obra, sempre em transformação, atravessou décadas, e cuja vida e o legado o tornaram numa das figuras mais incontornáveis da arte portuguesa do século XX e XXI.
A celebração de um centenário, especialmente no contexto de figuras como Júlio Pomar, é um marco de extrema importância cultural, social e histórica, desde logo porque comemorar a arte e os artistas significa, na atualidade, mais do que nunca, agir contra a destruição da memória, da história, das sociedades, da beleza, da vida. No centenário de Julio Pomar, símbolo de longevidade intelectual, festeja-se não apenas o tempo decorrido, mas a herança cultural que sobrevive ao indivíduo e estimula as gerações futuras a relançar o seu legado de liberdade e de resistência.
As comemorações são uma oportunidade para instituições como o Atelier-Museu organizarem programas em torno da preservação e revalorização do seu legado, da reflexão crítica e da atualização da herança, incentivando ainda o estímulo à investigação. Neste âmbito, o programa de 2026 do Atelier-Museu permitirá às novas gerações conhecerem obras fundamentais do seu património artístico, possibilitará «repensar» o artista no seu contexto histórico, avaliando o modo como a sua obra influenciou a modernidade e como continua a dialogar com o presente, catalisando a publicação de novos estudos, a realização de exposições antológicas e programas complementares multidisciplinares. Em 2026, retomando o texto que se escreveu em torno da sua morte e do seu legado artístico, volta a lembrar-se a excecionalidade de Júlio Pomar, citando uma frase de Michel Waldberg que dá conta da pluralidade de sentidos que a sua obra nos abre.
«Não conheço obra mais paradoxal, mais contraditória em aparência, do que a de Júlio Pomar. […] Vi-o incessantemente mudar de estilo (se é que esta palavra ainda tem algum significado), renovar os temas e as técnicas, desiludir as expectativas […], recusar qualquer barreira, qualquer encerramento, ir mais além, largar as amarras, arriscar tudo, dar reviravoltas conceptuais, recomeçar do zero, pôr a vida em jogo na pintura e a pintura em jogo na vida, enfrentar sem descanso e por assim dizer só com as mãos, o “branco desassossego” da tela ou do papel.»
Esta frase exprime a potência que a obra de Júlio Pomar transporta, em alguns casos, influenciando determinantemente o curso da arte portuguesa e a dos seus sucessores contemporâneos. Por isso, desde o momento em que a equipa do museu começou a trabalhar com o pintor tornou-se mais desafiante descobrir o que une esta obra ao longo de sete décadas, do que as variações que inevitavelmente assumiu para se renovar.
Aquilo que percorre a obra deste autor é uma procura vincada pelo movimento. Como dissemos noutra ocasião, o artista «movimenta-se a pintar e move espíritos a escrever. Pomar busca o movimento e este, como se lhe escapasse já ao controle, ganhando autonomia, avança das suas telas em direção ao espaço do espectador. E a cor ganha espessura, impacto, recua e avança, nas suas tonalidades planas ou compostas. Os traços do desenho ganham vida como se mexessem sobre e no próprio papel.»
Umas vezes falando através da pintura, outras fazendo o uso da palavra, Pomar nunca perdeu a vontade e a necessidade de pôr o mundo do avesso e todas as convenções em questão. A inquietação terá estado na base da transformação contínua da sua obra, tendo-o feito mudar esteticamente, sem temer aceitações ou rejeições – o que, diga-se, paradoxalmente, o tornou um artista raro e excecional.
Apreender as reviravoltas que perfazem a carreira de um artista é compreender, também, a história da arte e perceber que esta se faz do que foge à norma, daquilo que se apresenta controverso, ou não consensual. Neste âmbito, não é possível esquecer o percurso de Pomar, desde o neorrealismo, como uma figura da contestação e da crítica ao regime – problematização e sentido crítico que nas diversas fases soube alargar às próprias noções disciplinares, forjando colaborações que pareciam inconciliáveis, unindo polos antagónicos, aproximando cultura erudita e cultura popular. Foi esta amplitude que a equipa encontrou na sua obra quando o Atelier-Museu abriu as portas ao público (5.04.2013), com uma coleção de cerca de 400 obras, nele depositada pela Fundação Júlio Pomar, a qual correspondeu sempre, sem reservas, às solicitações do Atelier-Museu.
Havia que perceber de que modo a obra deste artista, os conceitos e problemas a ela inerentes, se mantêm operativos no presente, nomeadamente na obra dos seus pares. Não se tratava, portanto, de olhar para trás, mas de fazer do museu um espaço pleno de ensaio e de atelier, mostrando, que revisitar a obra de um artista, compreendê-la por dentro e por fora, nos seus fundamentos e na sua produção concreta, reside num movimento de ida e volta, procura e investigação, uma ponte entre passado e presente, sempre com o intuito de perceber aquilo que a obra semeou e abriu no tempo posterior. É também este princípio que preside à programação do ano de 2026, correspondente à celebração do centenário de Júlio Pomar no Atelier-Museu. Este desafio, no qual revisitar a obra tem um sentido prospetivo e não retrospetivo ou melancólico, só foi possível com a cumplicidade do pintor, que acompanhando de perto o trabalho da equipa, lhe atribuiu uma «carta-branca». Pomar confiou como se fechasse os olhos e se entregasse ao movimento de uma dança da qual era protagonista e simultaneamente espectador. Foi assim que, passo a passo, se construiu o Atelier-Museu, espaço com o seu nome. Não o edifício, mas o programa, o lugar, o espírito de entreajuda, de desafio, de abertura que para ele se desenhou com referência à obra e à figura de Júlio Pomar e onde entraram diferentes gerações, de diferentes áreas disciplinares, exercendo e pondo em prática o seu sentido crítico. No ano de 2013, já com o Atelier-Museu em pleno funcionamento, foi atribuído ao artista o grau de Doutor Honoris Causa, pela Reitoria da Universidade de Lisboa.
E, em 2014, como forma de reconhecimento pela cooperação da CML e pelo trabalho do Atelier-Museu – EGEAC, Júlio Pomar fez uma nova adenda à doação para acrescentar um número significativo de obras de arte à coleção em depósito no museu, alargando assim as suas possibilidades de trabalho. Em 2023, ao celebrar «10 Anos [da implantação] do
Museu» no meio e no tecido artístico português, a sua fundação optou pela cessação,
passando o depósito de obras de arte a ser propriedade da autarquia para desenvolvimento e consolidação do trabalho do museu.
Com 13 anos de atividade no seu balanço, desde que abriu as portas, passando pela celebração dos 50 anos do Maio de 68, e dos 50 anos do 25 de Abril de 74, o Atelier Museu Júlio Pomar conta já com a colaboração de inúmeras instituições, artistas e profissionais de várias gerações, de campos de atividade distintos: da arquitetura às artes- plásticas, passando pela crítica da arte e outras áreas de reflexão, aos quais se têm juntado um público crescente de exposição para exposição. Desde o início, Júlio Pomar seguiu e colaborou ativamente com o Atelier-Museu, tendo sido realizadas, até à data, várias exposições em torno da sua obra e uma programação que procura alargar os âmbitos de leitura do seu trabalho, revelando novas ligações do artista com a contemporaneidade, de que foram exemplo exposições com Rui Chafes, Julião Sarmento, Pedro Cabrita Reis, Luisa Cunha, Sara Bichão, Rita Ferreira, Hugo Canoilas, Salomé Lamas, Suzanne Themlitz, Jorge Queiroz, André Romão, Osso Coletivo, Inland Journal, Graça Morais, Daniel Moreira e Rita Castro Neves, entre outros, mas também exposições comissariadas por curadores que trouxeram novas perspetivas à obra de Júlio Pomar: Delfim Sardo, Paulo Pires do Vale, Catarina Rosendo, Maria do Mar Fazenda, Hugo Dinis, Alexandre Melo, Mariana Pinto dos Santos, Afonso Dias Ramos, Alexandre Pomar, Óscar Faria, Ana Rito, entre outros.
No ano de 2026, a exposição que celebra o centenário abordará a obra o ponto de vista amplo da colagem. Intitulada «A cola não faz a colagem», a exposição antológica procurará dar a ver que a produção artística de Júlio Pomar foi em grande medida atravessada pela ideia de aglutinação, junção de planos, sobreposições, de partes, coisas, elementos, ícones, simbologias, figuras, cores, traços, mesmo que aparentemente, e à primeira vista, a junção de tais partes pareçam não fazer sentido. A exposição, com curadoria de Sara Antónia Matos, Pedro Faro e Constança Pupo Cardoso, reúne, por isso, obras ao longo do seu percurso, cujo foco não reside na colagem enquanto tal, isto é, no recurso à cola enquanto elemento de aglutinação. O que está em causa é um jogo livre de associações, através do qual o pintor prosseguiu, permanentemente, um exercício de liberdade e de criação.
No último trimestre do ano de 2026, mostrando a audácia que esta obra enceta e de que pode ser propulsora, será a vez de juntar em exposição Júlio Pomar a um dos artistas possivelmente mais irreverentes e desafiantes da atualidade, Gabriel Abrantes, que sob o mote e o título de «Pintura – Pintura», ocorra ela nos meios tradicionais ou com recurso à IA, explorará o suporte em que Pomar foi exímio: a pintura.
Durante o ano, e no âmbito dos ciclos de conferências organizados pelo Atelier-Museu, realiza-se o ciclo de conversas sobre Arte e Inteligência Artificial (IA), com conceção de Shifter, apresentado e dinamizado por João Ribeiro, e na metade anterior do ano, o 3º ciclo de conferências do Atelier-Museu e do BAC sobre Arquivos, nesta edição tratado sob o ponto de vista dos artistas, com conceção de Liliana Coutinho.
A fim de facultar ao público ferramentas de análise, o Atelier-Museu Júlio Pomar continua a apostar fortemente no seu projeto editorial, tendo editado até à data mais de 30 publicações, entre as quais se destacam os catálogos e as entrevistas, nomeadamente a entrevista de fundo realizada, durante 2 anos, ao pintor. Nesta coleção, em 2026,
destacam-se duas novas entrevistas a protagonistas da área, que trazem novas perspetivas, provavelmente inesperadas, sobre o meio e o contexto das artes.
No que se refere ao Projecto editorial são de destacar ainda as 3 publicações dos textos críticos que o autor publicou entre 1942 e 2013, que permitiram, pela primeira vez, o acesso à «Parte Escrita» da sua obra: Notas Sobre uma Arte Útil; Da Cegueira dos Pintores; Temas e Variações [2014]. Em 2026, vai conhecer-se a publicação da Parte Escrita IV – os seus relatórios enquanto bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian –, ficando assim concluído e disponível ao público o compêndio da sua obra escrita.
2026 será também o ano para a publicação e lançamento do terceiro volume do Catálogo Raisonné de pintura – o qual dá sequência aos dois volumes anteriores e completa o trabalho de investigação realizado em torno da sua obra ao longo dos últimos 10 anos. Nada devendo destacar, porque todas as ações são relevantes e se reforçam no programa do Atelier-Museu, a publicação do Raisonné corporiza, talvez, o mais extenso trabalho de fundo do museu, espelhando o investimento na investigação, na sistematização e divulgação da obra do pintor – portanto, legado e objeto de celebração do centenário.
Além das exposições que desenvolve nas suas instalações, o Atelier-Museu, que começou o seu programa de itinerâncias logo dois anos depois da abertura, levando «portas-fora» a obra de Júlio Pomar, abrirá o ano de 2026 com uma parceria com o Museu da Marioneta, também da Egeac, através de uma exposição onde se mostrarão pela primeira vez os desenhos de «Robertos» de Júlio Pomar.
O Atelier-Museu, que desenvolveu ainda parcerias com várias autarquias, dando a conhecer a obra do artista noutras regiões do país, lança-se desta vez, em 2026, numa divulgação internacional, em parceria com o Instituto Camões, através de uma exposição de divulgação da obra e do autor que estará patente em diversas embaixadas portuguesas e noutros equipamentos culturais.
Acreditando que a divulgação da obra deve ir muito além das barreiras e das fronteiras físicas, durante o ano de 2026, o Atelier-Museu, numa parceria com a Wikipédia e com a Google Arts, irá divulgar a obra e a figura de Júlio Pomar também online, potenciando-os e ampliando as suas reverberações.
Para além da vertente de exposições e divulgação da obra do autor, e também por vontade do próprio Pomar, em 2015, o Atelier-Museu instituiu um Prémio de Curadoria de Arte Contemporânea com o seu nome, mostrando-se assim aberto às propostas das novas gerações de profissionais, e criou uma bolsa de residências em Nova Iorque que, em alguns casos, conferiu aos artistas nomeados a sua primeira experiência de internacionalização. Em 2016, e para celebrar o centenário, o Atelier-Museu vai atribuir um prémio de pintura, com o apoio de Tereza Martha, a um artista que opere ou repense este suporte, no contexto da arte contemporânea.
Júlio Pomar morreu com 92 anos e mais de 70 de carreira, tendo trabalhado diariamente no seu atelier, tornando a arte presente na vida do dia-a-dia, o que é patente em várias obras públicas, e particularmente na Estação Alto dos Moinhos, do Metropolitano de Lisboa, e no passaporte dos cidadãos portugueses, onde Fernando Pessoa está representado pela mão deste artista.
Não chegou a ver a descoberto as pinturas censuradas do Cinema Batalha, no Porto, mas elas estão cá – em 2026 e para o futuro – para nos fazer lembrar que, em muitas circunstâncias, a luta pela liberdade e pela democracia resistem às formas de opressão mais vis.
É o único pintor português que, em vida, viu uma obra sua, Almoço do Trolha, em processo de classificação pelo Estado português (2015) como «bem móvel de interesse público», podendo dizer-se que Júlio Pomar não só faz parte da História da Arte Portuguesa como a «construiu» com ele.
É tudo isto que se pretende avivar em 2026, durante o centenário de Júlio Pomar, estimulando a divulgação, compreensão e atualização do seu legado, desenvolvendo em torno dele novos estudos e investigações.
O Atelier-Museu Júlio Pomar cumprimenta todas as entidades e instituições que em nome de Júlio Pomar, recordando a versatilidade e importância da sua obra, organizaram momentos e ações de celebração, em pareceria com o museu ou de forma independente.
Sara Antónia Matos
Diretora do Atelier-Museu Júlio Pomar
Júlio Pomar nasceu a 10 de janeiro de 1926, em Lisboa. Frequentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio e as Escolas de Belas-Artes de Lisboa e Porto. A sua primeira exposição individual foi no Porto, em 1947, e nela apresentou
apenas desenhos. Nesses anos, a sua oposição ao regime de Salazar resultou numa estada de quatro meses na prisão, a apreensão de um dos seus quadros pela polícia política e a ocultação dos frescos, com mais de 100 m2, que havia realizado no Cinema Batalha, no Porto.
Instalou-se em Paris em 1963 e foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian de 1964 a 1966. Trabalhou e viveu entre Paris e Lisboa até à data da sua morte, em maio de 2018, na capital portuguesa.
De uma obra que se prolongou por oito décadas, destaca-se a sua participação na II Bienal de São Paulo (1953), e salientam-se as exposições «Tauromachies» e «Les Courses» (Galerie Lacloche, Paris, 1964 e 1965), e a participação numa mostra dedicada à pintura de Ingres, Le.Bain.Turc, no Museu do Louvre (1971), assim como as mostras «L’Espace d’Eros» (Galerie de la Différence, Bruxelas, 1978), «Théâtre du Corps» (Galerie de Bellechasse, Paris, 1979), «Tigres» (Galerie de Bellechasse e Galeria 111, 1981 e 1982), «Um ano de desenho – quatro poetas no Metropolitano de Lisboa» (Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em 1984, instituição que, em 1978, promovera a sua primeira exposição retrospetiva), «Pomar – Autobiografia» (Sintra Museu de Arte Moderna, 2003), «Júlio Pomar: Cadeia da Relação» (Museu de Serralves, 2008) ou «Júlio Pomar. Atirar a Albarda ao Ar» (Galeria 111 e Árvore – Cooperativa de Actividades Artísticas, 2012).
Durante a sua longa vida, nunca deixou de criar – desenhos, pinturas, gravuras, cerâmicas, esculturas, assemblagens – inscrevendo na História da Arte obras tão importantes como O.Almoço.do.Trolha (1946-50), Gadanheiro (1947), Varina.Comendo. Melancia (1949), Marcha (1946), Abriliberdade (1974), Navio.Negreiro (2005-2012). A obra pública de Júlio Pomar inclui os emblemáticos painéis cerâmicos da Avenida Infante Santo e do Campo Grande, a estação do metropolitano Alto dos Moinhos, em Lisboa, e outras intervenções artísticas realizadas em diversas cidades.
Em 1990, o Ministério da Cultura francês convidou Júlio Pomar a realizar um retrato de Claude Lévi-Strauss. No ano seguinte, Pomar pintou o retrato oficial do Presidente Mário Soares, que hoje se encontra no Museu da Presidência da República, no Palácio de Belém: uma obra emblemática, irreverente e incontornável pela forma como desconstruiu o protocolo das representações oficiais.
Fonte: egeac.pt




