Artigo

Alface fora d’água

Rolo de Carne e Maltesers

A primeira vez que viajei sozinha fui para Londres com uma amiga. Marquei quarto numa residência de estudantes, em Chelsea, que tinha protocolo com o ARCO, onde eu estudava na altura. A Inês ficou em casa de uma amiga portuguesa que vivia em Londres. A minha mãe pagou a viagem, a estadia e deu-me dinheiro para deslocações e refeições, mas nós queríamos gastar em mercados e lojas. De maneira que, de Lisboa, levámos rolos de carne. O resto comprámos nos supermercados.

Fazer o rolo de carne e ligar para a residência de estudantes foi o meu planeamento. A Inês programou a ida a alguns museus e a compra de fosforeiras em prata para a coleção da sua mãe, de modo que corremos alguns mercados de antiguidades até cumprir a tarefa. Na minha falta de planeamento dei por falta do secador pelo que, em pleno Inverno, tinha de sair de cabelo molhado até ao Burger King mais próximo para usar o secador de mãos da casa de banho.

 

Foram muitos anos de ausência total de planeamento. Marcava as viagens, às vezes marcava o hotel e nada ou pouco mais.

As pessoas andavam a olhar para o guia e eu a olhar para cima. Literalmente, porque cheguei a interromper amigos: “Olha que coisa linda ali à frente!! Não será o que procuras no mapa?”.

É verdade que me falam de sítios nos locais por onde passei dos quais não faço a mínima ideia existirem ou sequer que seriam de visita ‘obrigatória’. Também me aconteceu ter de correr quase todos os hotéis de Barcelona — desde os de cinco estrelas aos não numeráveis — até, em desespero, conseguir arranjar um sítio onde dormir.

Esse improviso estendia-se desde as marcações e direções aos gastos. Se fosse noutra moeda era mesmo até à última. Numa viagem a Nova York, em 2000, tivemos uma pequena amostra de como gastar tudo pode não ser a melhor opção. Quase não conseguimos embarcar porque não tínhamos dólares para uma taxa que se pagava na altura. Safámosnos graças à generosidade de um português que estava na fila e que se ofereceu para pagar por nós. Esse mesmo português que nos desapareceu no aeroporto em Lisboa quando fomos levantar dinheiro para lhe devolver o que nos tinha adiantado.

Essa pequena experiência não serviu de emenda. Em 2006, percebi que, sobretudo quando se viaja com crianças, temos de manter “reservas”. Perdemos o cartão de cidadão da minha filha Maria e quase não conseguíamos embarcar em Roma, no voo de regresso a Lisboa. Se isso acontecesse estaríamos mesmo em apuros. Salvou-nos a escandaleira da nossa contestação. Os Italianos, também eles bastante salientes, não gostam do barulho dos outros e não estiveram para aturar o nosso drama, e, “como ela é igual a si e só pode mesmo ser sua filha” deixaram-nos seguir viagem. Duvido que hoje em dia funcionasse.

Assim, de contratempo em contratempo, fui aprendendo algumas coisas e tornei-me mais previdente.

Nisto a minha filha cresceu e saiu hoje para um Interrail com as amigas. Foram meses de reuniões e planeamentos. Uma das amigas — a Sara Vicário — é youtuber, portanto, também publicaram vídeos de algumas dessas reuniões. A Maria adora listas, sempre adorou. Eu recebo listas de compras, listas do que não me posso esquecer na mala, listas de roupa, lista de coisas a fazer. A minha filha encheu a minha vida de listas na porta do frigorífico e se faço uma dieta ela inundanos de listas de receitas Paleo. E a nossa dieta passa a ser a a mais saborosa e diversificada do mundo.

Para o Interrail as listas subiram um patamar e passaram a incluir folhas Excel. Custos, hotéis marcados com meses de antecedência, percursos, taxas municipais, cauções, marcações de comboios, supermercados e restaurantes glúten free, entre tantos outros detalhes que jamais me passariam pela cabeça. A capacidade que elas têm de planear é de tal qualidade que me deixa esmagada de admiração.

Vinte dias depois da viagem pela Europa, a Maria sai de casa e vai estudar para San Sebastian. Serão quatro anos na Basque Culinary Center, um sonho tornado realidade para ela e para todos nós. Ainda assim sufoco com a ideia agora que a data se aproxima. Em tempos, quando era minúscula, a Maria deixava-me recados pela casa, assinalados por maltesers. Interrompia o meu trabalho com mensagens deliciosas para relembrar que tinha fome, que eu precisava de ir ao supermercado ou, mais tarde, para me explicar porque é que já era altura de a deixar sair à noite, ou de ir com as amigas a festivais de música.

A Maria tem, agora, a idade que eu tinha quando saí do país sozinha, pela primeira vez. E eu preciso que ela me deixe uma lista e um planeamento detalhado de como vamos fazer para vivermos longe uma da outra porque, pela primeira vez na vida, o improviso me está a deixar sem chão.

 

Por: Marta Gonzaga

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