A nova vida da Lancha

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Praia da Costa Nova

Nos anos quarenta do século XX devido à grande necessidade de transporte da Base Aérea Militar, do Estaleiro de São Jacinto, das gentes de São Jacinto e bens essenciais como: peixes, legumes, correio e assim por diante, foram mandadas construir cinco lanchas de carreira.

Curiosamente, a “Praia da Costa Nova” foi uma das primeiras a ser erguida a pedido da ETRA e no início de setembro de 1945 foi realizada a sua inauguração. O quotidiano da Ria permite assim o cruzamento desta, com outras Lanchas construídas para a mesma finalidade. Em São Jacinto, Aveiro, Gafanhas, Ílhavo, Ovar, Murtosa e Torreira, transportando diariamente centenas de pessoas e bens, “unindo” as margens e as pessoas da região de Aveiro. Mantendo desta forma um papel importante na estrutura económica da sociedade.

O nome notável dos estaleiros de São Jacinto, a grande importância da Base Aérea e os usuários da Ria (pescadores, comerciantes, moliceiros) causam uma comoção enorme no tráfego local, pela Península São Jacinto e na Ria, mantendo a necessidade e importância destas Lanchas. Mas, com a construção da ponte de Varela e a perda da preponderância da Base Aérea de São Jacinto, a ETRA entra em dificuldades financeiras e os estaleiros de São Jacinto compram a Lancha em leilão público. Reduzindo assim, as conexões e servindo os trabalhadores dos estaleiros e a população da aldeia. Posteriormente, a enorme competição europeia entre estaleiros de construção naval, as várias ressecções económicas a que foram sujeitos e o endividamento dos estaleiros de São Jacinto, contribuíram para a sua falência. Os barcos tornaram-se propriedade do município de Aveiro, nesta altura reduzida a três Lanchas:

“Praia da Costa Nova” A-8217-TL construído em 1945 e continua até 2006 de serviço público.
“Praia da Torreira” é vendida a uma empresa de turismo e destruída há alguns anos. “Costa da Luz” A-8218-TL, construído em 1948, hoje encontra-se numa associação da região, num grande estado de degradação e abandono.

Em 2012, a “Praia da Costa Nova” foi abandonada e entrou em processo de abate. Após alguns estudos, foi perceptível que o barco cumpre os requisitos para ser considerado patrimônio cultural e industrial da cidade. E com uma atitude social e cívica de respeito pelo passado e a memória daqueles que vieram antes de nós, este projeto começou, com o objetivo de salvar a “Praia da Costa Nova”. Após a aquisição da Lancha que durou cerca de meio ano, começou o desafio de alcançar o investimento e o conhecimento necessário para a recuperação. Neste momento foi essencial usar a sabedoria dos antigos trabalhadores do sector da construção naval tradicional. Ao lado de todos os desafios a Lancha foi totalmente recuperada em 22 meses (numa duração de 3 anos), à luz do período.

 

Uma breve descrição da recuperação

Inicialmente foi feita uma análise exaustiva à embarcação, de forma a estudar a sua integridade no seu todo.Através do reboque e com o auxílio de um pequeno barco realizou-se o resgate da embarcação, até ao pontão de atracação, na Marina Clube da Gafanha, na Gafanha da Encarnação, Aveiro.

Considerou-se importante retirar a caixa de velocidades, a fim de verificar o seu estado de funcionamento, pelo que esta foi a primeira “peça” a ser retirada da embarcação.

A partir deste momento iniciou-se uma sequência de procedimentos faseados:

  • Colocou-se a embarcação em seco, usando o Travel Lift.
  • Para não correr o risco de tombar para um dos lados, esta foi devidamente “calçada”.
  • Desmontaram-se as janelas e as que estavam minimamente intactas foram enviadas para a carpintaria, a fim de serem replicadas.
  • Foi feita uma limpeza profunda, retirando do seu interior, bancos, motor, depósito, componente elétrica, lixos, pós, lama, óleos acumulados nas cavernas, entre outros.
  • Com a embarcação despida foi possível aceder ao esqueleto da mesma, para poder aferir o estado das madeiras.
  • Após retiradas várias camadas de tinta sobrepostas do costado, casco e abaixo da linha de água. Com uma forte limpeza manual chegou-se à cor natural da madeira.
  • Foi necessário aguardar alguns meses para a madeira sofrer uma secagem ao natural, permitindo assim distinguir a madeira sadia, da madeira que teria que ser recuperada ou substituída.
  • A proa foi refeita na sua totalidade, bem como a troca de algumas tábuas. Para assegurar uma perfeita absorção da tinta sobre a madeira, foi iniciada a sua pintura exterior.
  • O chapeamento foi uma das fases mais demoradas. A madeira foi preparada com piche inglês, colocou-se uma camada de serapilheira para fazer de junta da madeira, com as chapas de cobre.
  • Assim que o casco de um bordo estava pronto para aplicar as chapas, estas com 2 metros de comprimento foram marcadas, recortadas e furadas. Depois foram apontadas ao seu lugar para testar a sua conformidade.
  • Cada chapa foi pregada ao casco com cerca de 150 tachas de cobre. Todo este processo de chapeamento demorou cerca de 5 meses.A falta de informação existente, matéria prima e a extrema dificuldade de arranjar o material mais adequado, foi uma das maiores complexidades.
  • Refez-se todo o interior da embarcação. Foram colocados veios, leme, bombas de água, um novo tipo de extração de gases do motor e refeita a parte elétrica.
  • Optou-se por um motor novo, mais potente face ao original, a fim de superar as atuais correntes da Ria de Aveiro.
  • Colocaram-se os paneiros que fazem o “chão”, as forras do costado, os frisos e os interiores foram pintados.
  • Término de todo os trabalhos de recuperação da embarcação. Início da tramitação necessária à obtenção da licença Marítimo – Turística.

Foi feita a vistoria da embarcação a seco, que permitiu colocar esta na água, mesmo sem a permissão para poder navegar.Para a realização da vistoria final e obtenção do certificado de navegabilidade, efetuaram-se as últimas afinações e alterações relacionadas com toda a mecânica e funcionalidade da embarcação.

O culminar sentido de todo este projeto foi com a estreia na participação na 1° edição da grande regata de barcos tradicionais “Ria Weekend”.

O total do investimento foi graças a um parceiro privado, apesar de todas as candidaturas infrutíferas a competições e dos fundos disponíveis, para este tipo de recuperação.Além disso, com a recuperação e manutenção à luz do período, mantendo o traço original da Lancha, a “Praia da Costa Nova” foi candidata e nomeada para o Prémio Luigi Micheletti, pela European Museum Academy em 2016. Este prémio parabeniza o Museu mais inovador do mundo indústria, ciência e tecnologia.

Agora totalmente recuperada, a “Praia da Costa Nova” prova ser um museu que navega na Ria de Aveiro, venerando e honrando tradições e memórias, sendo também a testemunha mais próxima da comunidade.Para nós, a arte é também a preservação histórica da nossa herança.

Alvejando um público mais amplo, oferecemos tours e atividades direcionadas para todos através de experiências. Pretendemos exponenciar o melhor que a região de Aveiro tem para oferecer, focando sempre a nossa Ria de Aveiro e a “Praia da Costa Nova”. O principal objetivo é a partilha cultural através de histórias e contos.

Também desenvolvemos a educação ambiental: palestras a bordo, observação de aves, fotografia, arte da marinharia, aprender a fazer, percursos interpretativos e oficinas relacionadas à natureza e assim por diante. Hoje pode encontrar-nos no coração da cidade de Aveiro. http://www.praiadacostanova.pt

Outras informações: Características: “Praia da Costa Nova” Barco de Madeira Coberto; Comprimento: 16,78m – Boca: 3,48m – Profundidade: 1,22m Construído em madeira de pinho e cavernas em riga, casco de cobre; Capacidade 89 passageiros + 3 tripulantes (Mestre TL; Marinheiro TL; Maquinista Prático). No vigésimo dia do mês de setembro de 1945, na Capitania do Porto de Aveiro, pelo capitão João Duarte de Almeida Borralho, justificou à ETRA a sua construção, por 85.000 mil contos. Ano em que foi construída e colocada a serviço da população. Em 5 de Fevereiro de 1974, o capitão do porto de Aveiro, António Machado Melo, por documento de quitação, autorizou a compra em leilão público por 220.000 contos, transferindo a propriedade para os estaleiros de São Jacinto. Na época, os estaleiros tinham cerca de 800 trabalhadores, sendo considerados os maiores e melhores estaleiros a nível europeu. Em 1994, com o declínio dos Estaleiros de São Jacinto, o Município de Aveiro é obrigado a adquirir as embarcações para garantir o transporte dos habitantes da freguesia de São Jacinto. A “Praia da Costa Nova” foi comprada dos Estaleiros por 3.500 mil contos. Em 25 de outubro de 2004, com a criação da Moveaveiro – Empresa Municipal de Mobilidade E.E.M. (Empresa de Transporte), foi resolvido na Assembleia Municipal que esta Lancha passa a propriedade para esta empresa. Continuando a executar sua função original até 2006.

 

Texto: Ana Ferreira
Relato: Gustavo Madeira Barros

Foto: Gustavo Madeira Barros

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