Artigo

Brotéria, um projeto há muito esperado

Era um projeto há muito desejado e que agora está prestes a concretizar-se, assim que as obras de requalificação do Palácio Marquês de Tomar, em Lisboa, ficarem concluídas. É já a partir do próximo ano que a Brotéria vai ter um espaço nobre para acomodar todo o seu arquivo. Propriedade da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, aquele imóvel situa-se no Bairro Alto, bem no coração do complexo de São Roque, tendo albergado até 2012 a antiga Hemeroteca Municipal, encontrando-se então num estado de profunda degradação. Este projeto da Santa Casa vai contemplar uma área de 2.300 m² do Palácio Marquês de Tomar, que manterá, na generalidade, as suas características construtivas e os seus traços mais identitários.

O centro Brotéria deverá abrir portas em setembro de 2019, o que representará um importante contributo para a cidade de Lisboa, no âmbito do polo cultural desenvolvido pela Santa Casa e que contempla os já existentes Museu de São Roque e Igreja de São Roque e, brevemente, “A Casa Ásia – Coleção Francisco Capelo”, no Palácio de São Roque, edifício também propriedade da Misericórdia de Lisboa e contíguo ao Palácio de Marquês de Tomar.

Além de manter o seu propósito, enquanto publicação de Humanidades e Cultura, com estas novas instalações, a Brotéria, publicada pelos jesuítas desde 1902, será integrada num projeto mais vasto e ambicioso, no qual a revista será apenas um dos elementos. Assim, o edifício irá acolher a revista, a biblioteca, o arquivo, uma livraria, uma galeria de arte, um espaço polivalente para conferências e outras sessões públicas e uma área nobre que sirva diferentes públicos, tirando o máximo partido da localização e devolvendo o edifício à cidade. Está também prevista a criação de uma zona residencial para a instalação da comunidade jesuíta.

A reabilitação do Palácio Marquês de Tomar, assim como do Palácio de São Roque, insere-se num plano mais vasto que a Santa Casa tem para aquela zona da cidade, onde, além da criação do polo cultural acima referido, pretende-se recuperar e reabilitar alguns imóveis que possam ser colocados no mercado de arrendamento jovem, criando-se condições de atratividade para fixar famílias jovens naquela área de Lisboa. Além disso, o novo centro cultural jesuíta será uma porta aberta à comunidade, sendo que o seu propósito passará por tornar-se num espaço onde a fé cristã se encontra com as culturas urbanas contemporâneas. No fundo, será um espaço que procurar interpretar e compreender as necessidades e preocupações atuais das pessoas. Este projeto espera obter uma relação de maior proximidade com a “rua” e com o pulsar do coração dos homens e das mulheres dos tempos de hoje.

Um sonho antigo

O primeiro passo deste projeto foi dado em 2010, com a celebração de um protocolo entre a Província Portuguesa da Companhia de Jesus, a Brotéria – Associação Cultural e Cientifica e a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. No âmbito desse acordo, ficou prevista a instalação da revista, da biblioteca da Brotéria e da Comunidade Jesuíta no complexo de São Roque, no Largo Trindade Coelho, onde se situam os serviços centrais da Santa Casa. Um ano depois, era assinado com a Província Portuguesa da Companhia de Jesus um programa funcional que previa uma zona de arquivo, um espaço polivalente e uma área nobre e multifuncional para diferentes públicos. Em 2012, através do protocolo celebrado entre a Misericórdia de Lisboa e a Câmara, o Palácio Marquês de Tomar, antiga Hemeroteca municipal, passou a integrar o património da Santa Casa.

Já em 2013, a Misericórdia de Lisboa aprovou, finalmente, a transferência da revista Brotéria e da sua biblioteca para o Palácio Marquês de Tomar. Recorde-se que, em 1540, a Companhia de Jesus chega a Portugal, a convite do rei D. João III, e inicia a partir de Lisboa a sua atividade missionária, tendo escolhido o espaço da antiga ermida de S. Roque para a construção da sua primeira Igreja e Casa Professa.

Além do regresso à sua primeira casa, a Companhia de Jesus e a Santa Casa estão a criar condições para uma maior e melhor acessibilidade à revista Brotéria e à sua biblioteca, complementando e potenciando a oferta cultural, ao rentabilizar os recursos existentes e reforçando a ligação histórica entre as duas instituições.

CAIXA 1

Palácio Marquês de Tomar
O Palácio Marquês de Tomar foi construído na segunda metade do  século XIX sobre estruturas pré-existentes (tem vestígios de construção setecentista), como residência de António Bernardo da Costa Cabral, primeiro Marquês de Tomar. Em 1970, foi adquirido pela Câmara Municipal de Lisboa que ali instalou a Hemeroteca. O edifício é constituído por quatro pisos, apresenta como características principais no exterior os trabalhos de cantarias várias em lioz branco, janelas amplas e varandas em ferro forjado com caráter significativo.

 

 


CAIXA 2 Um espólio único A revista Brotéria foi fundada em 1902, por três jesuítas, Joaquim Silva Tavares, Carlos Zimmerman e Cândido Mendes, no Colégio de S. Fiel, para abordar temas de Ciências Naturais. Pouco depois, em 1907, subdivide-se em três séries: Botânica, Zoologia e Divulgação Científica. O nome da revista está ligado ao pendor inicial dado às Ciências Físicas, pois pretendeu-se homenagear o naturalista português Félix de Avelar Brotero (1744-1829). A biblioteca da Brotéria, aberta ao público, conta com cerca 150.000 monografias e mais de 200 publicações periódicas. É particularmente valiosa no campo da Teologia, Filosofia, Literatura e História, com destaque para a história da Companhia de Jesus.

 

 

 

Por: José Diogo dos Santos

Foto: Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

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