Artigo

Serralves // Museu como Performance com 13 artistas e coletivos para desafiar fronteiras dos espaços de Serralves

Fundação de Serralves apresenta a 11.ª edição de O Museu como Performance, que volta a afirmar-se como um dos encontros mais importantes para a performance contemporânea em Portugal. Agendado para os dias 18 19 de outubro, o festival continua a declarar os seus pressupostos: transformar os espaços do Museu de Serralves numa paisagem de criação, experimentação e diálogo transdisciplinar, com um programa anual que há onze anos interrompe durante um fim de semana a sua programação regular de exposições.
A edição 2025 reúne 13 artistas e coletivos nacionais e internacionais cuja obra desafia as convenções da dança, do som, da poesia e artes plásticas. As performances propõem reflexões urgentes sobre o corpo, a dívida, a memória, a política da descolonização e o próprio papel da instituição museológica.
O certame tem a curadoria de Cristina Grande, Pedro Rocha e Ricardo Nicolau, que afirmam: “Não andaremos muito longe da verdade se afirmarmos que questões como representatividade, inclusão e identidade, relação não hierárquica do homem com a Natureza, revisitação da ancestralidade, reflexão sobre importantes momentos históricos que terão moldado as ideias de civilização e cultura ocidentais (o colonialismo, nomeadamente), integraram as propostas de variadas performances (e de O Museu como Performance) antes de serem consideradas estruturantes, pelo menos essenciais, na programação de exposições e na abordagem ao colecionismo de muitos museus. Digamos que os artistas e projetos que são apresentados neste programa funcionam como uma espécie de luzes intermitentes, os dispositivos de sinalização luminosa que piscam para alertar ou informar. “
Ocupação temporária e incomum de espaços museológicos, indagação do papel e do comportamento do espectador, aposta em formas artísticas híbridas (entre a performance, as artes visuais, a dança e a música) que interrogam fronteiras disciplinares, enfase na experimentação e na colaboração. São estas as linhas programáticas desta 11.ª edição de O Museu como Performance, que convida todos à imersão numa série de propostas artísticas que utilizam o corpo e o som como ferramentas de transformação e questionamento.
// PROGRAMA
I HAVE SUCH A HORRIBLE VOICE
GUI B.B
Num longo poema corpóreo espectral, Gui B.B mergulha numa exploração complexa da sua experiência com a dívida. Investiga como ela é suportada e combatida no próprio corpo. Gui B.B estabelece um espaço trans simbólico onde reivindica ambiguidade, incerteza, hipervulnerabilidade e caos. Assim, convida-nos para um espaço assombrado onde enfrenta a precariedade inerente de uma vida endividada, transformando-a em força vital. Pelo caminho, exsuda o seu próprio fantasma, oferecendo o corpo em sacrifício quando falha em ser mais do que apenas um sistema.
Gui B.B é artista de performance experimental. O seu trabalho colaborativo e a solo auto-explora o meio da performance e o seu potencial de impostura e cura. Refletindo sobre a performance como prática de construção de mundos, desenvolve enunciados performativos indisciplinares em que teatralidade, ironia e voz surgem como materiais centrais. Ao envolver diferentes formas de parentesco, o seu processo faz emergir novas constelações, possíveis reconfigurações de narrativas dominantes. Num excesso de gestos-objeto, cria espaços onde o público pode experimentar o sem-sentido, uma erupção de alterações às identificações normativas. Mais recentemente, tem vindo a desenvolver um léxico visual, textual e sonoro de D.I.Y. que remete diretamente para a ficção científica, com investigação iconográfica e filosófica em formas de vida não humanas e narrativas especulativas. As suas referências e conceitos por vezes dissolvem-se em esquecimento e agregação.
BATTY BWOY
HARALD BEHARIE
Através da reapropriação do termo jamaicano “batty bwoy”, gíria para designar uma pessoa queer, a obra distorce e revira os mitos do corpo negro queer, revelando possibilidades vulneráveis numa interação entre consciência e ingenuidade.
Batty Bwoy ataca e abraça narrativas sedimentadas em torno do medo do corpo queer como uma figura perversa e desviante. A expressão “batty bwoy” é usada para evocar uma criatura ambivalente que existe no limiar do corpo precário, do poder liberado, da alegria e da energia “batty!” O trabalho encontrou inspiração em mitologias, estereótipos repugnantes, sentimentos e fantasias do corpo e identidades queer, letras homofóbicas de dancehall, filmes Giallo italianos dos anos 70, “gully queens” resilientes e vozes queer na Noruega e na Jamaica que visitaram e participaram do processo.
Harald Beharie é um artista e coreógrafo norueguês-jamaicano que vive em Oslo, Noruega.
A prática coreográfica de Harald consiste em viagens colaborativas, navegando por reinos de ambiguidade e fantasia, pontuadas por temas de construção e desconstrução, esperança e incerteza, desinteresse e intensidade emocional. Tem um interesse especial pelo DIY e pela vulnerabilidade de estar no desconhecido. Numa busca para dissecar narrativas corporais e físicas estabelecidas, o seu trabalho celebra um espectro de encarnação — que vai do patético ao extático, do colapso ao exuberante, do vacilante ao perseverante, ao mesmo tempo que promove uma ingenuidade deliberada e uma diversão queer. O foco de Harald é estar com as pessoas locais, as ideias locais e desenvolver ideias com e dentro da comunidade.
Em 2023, Batty Bwoy ganhou o prémio Hedda de “melhor produção de dança”.
FAUNA
MERCHE BLASCO
Fauna é um espetáculo de improvisação ao vivo que utiliza um conjunto de instrumentos e artefactos criados para o efeito. Estes objetos ganham vida através da exploração e do toque, seguindo a metodologia de composição que Merche tem incorporada e que se baseia na interação física com materiais alternativos. Ao longo da performance, Merche torna audíveis forças energéticas anteriormente não ouvidas, explorando a ressonância eletromagnética que interliga todos os corpos presentes na sala.
Merche Blasco é artista multimédia e compositora que divide o tempo entre Barcelona e Berlim. Desenha e constrói assemblagens tecnológicas imprecisas que catalisam formas incorporadas de composição eletroacústica ao vivo e novos modos de escuta. Através dos dispositivos que constrói, procura estabelecer uma relação mais horizontal com outras entidades, afastando-se de parâmetros de precisão, poder e controlo. Como forma alternativa de performance, engendra espaços colaborativos com instrumentos dotados de agência própria, em composições onde o seu corpo e a exploração ao vivo de materiais orgânicos são elementos centrais.
 
 
BODY LOSS
ANGELA GOH
Começando na boca e expandindo-se para abranger toda a arquitetura, Body Loss transforma os limites do corpo e as estruturas que o contêm.
Uma única expressão transforma-se num coro etéreo e infinito. A voz torna-se um mar no qual o corpo é levado à deriva. Escalando, subindo, descendo e flutuando, o corpo é simultaneamente libertado e restringido. A boca, fixa e aberta, torna-se um buraco, um canal, uma cifra, através da qual algo pode entrar ou sair. Através da boca, o corpo esvazia-se e devora-se ao mesmo tempo.
Body Loss é uma performance que se preocupa em romper limitações — corporais, arquitetónicas e culturais — a fim de perturbar o que é restrito e vazar o que é incontestável.
Angela Goh é bailarina e coreógrafa. O seu trabalho é apresentado em contextos de arte contemporânea e espaços convencionais de espetáculos em todo o mundo. Em 2024, a sua obra Body Loss foi adquirida para a coleção permanente dos Museus de Arte da Universidade de Melbourne, tornando-se a primeira obra de dança a ser colecionada por um museu na Austrália. Angela vive e trabalha na terra Gadigal, em Sydney, Austrália.
HIDDEN TRACK
PEDRO MAGALHÃES + ENSEMBLE DECADENTE
 
Hidden Track é um projeto de Pedro Magalhães que integra um universo de investigação sobre rituais musicais de contracultura como agentes de transformação social. Explora a intersecção e tradução de diferentes media, e instiga a experimentação sónica e visual como ato de resistência e rebelião poética. Este projeto desdobra-se em vários momentos através de diversos media, e materializa-se em múltiplas obras. Tem a sua génese numa performance, passa pelo desenho, transforma-se em fotografias que se tornam partituras gráficas, originando uma peça musical, que promove novas performances.
O título, referindo-se às faixas musicais escondidas, que se tornaram populares nas edições de CD’s de bandas rock dos anos 1990, sugere também, a ideia de mensagem velada, dissimulada na poética do discurso, ou codificada para evitar a censura.
Pedro Magalhães é artista visual, vive e trabalha no Porto. A sua prática artística desenvolve-se de forma transdisciplinar combinando vários media, explora a interseção de territórios visuais e sonoros, e lida com conceitos como: contracultura, memória, ruído, sinestesia, arquivo, déjà-vu, experimentação e poética.
Ensemble Decadente é um projeto da Estrela Decadente – coletivo ativo desde 2017 que se caracteriza por práticas artísticas inscritas pela cultura independente, a auto-organização e o ativismo, e que se apresenta sob diversas formas, aglomerando uma comunidade diversificada de artistas que vão integrando a sua formação em múltiplas manifestações.
 
LOCUS/LACUNA LIVE
NOUR MOBARAK
A exposição coletiva Provas Materiais, patente no Museu de Serralves, apresenta um conjunto de trabalhos da artista Nour Mobarak, destacando-se Locus/Lacuna (2025), uma instalação composta por uma composição sonora que acompanha um grande tapete de 7 x 7 m, tecido manualmente em Beiriz, Portugal, seguindo o seu desenho e as suas indicações. No catálogo que acompanha a exposição, ficamos a saber que esta instalação evoca uma memória pessoal da artista. Lê-se ainda que “O locus visual dessa memória é o assento de pelúcia em tom vermelho que se vislumbra ao centro do grande tapete que preenche o chão da sala e que convida o visitante a percorrer esta área, descobrindo o som que se revela à medida que se desloca, oriundo de colunas isoladas de áudio direcionado. Estas faixas separadas reproduzem variações da mesma memória, difundindo assim as “lacunas” ou falhas de lembrança.”
Em O Museu como Performance, a artista ativará esta instalação de nove altifalantes hiperdirecionais, através de uma performance em que usa a sua voz, manipulada, parapara questionar a posição, tanto subjetiva quanto física, do espectador em uma composição sonora e na recontagem de uma memória. Também os espectadores, convidados a sentarem-se no grande tapete e impedidos de aceder à totalidade dos sons difundidos, terão de fazer um trabalho de associação entre aquilo que ouvem e as lacunas que vão preenchendo, num processo que é, afinal, o funcionamento da arte da memória.
Nour Mobarak nasceu em 1985 no Cairo, Egito. Tem nacionalidade libanesa e americana. Atualmente, vive e trabalha entre Los Angeles, a ilha de Bainbridge e Atenas, na Grécia. O seu trabalho abrange performance, vídeo, poesia, escultura, som e vídeo, usando muitas vezes a sua voz como fio condutor.
UM LADO | OUTRO
CARLOS M. OLIVEIRA
 
UM LADO | OUTRO é a terceira iteração da série de performances cujo título comum se reduz ao símbolo | . Iniciada em 2017 no ciclo Nova-Velha Dança e reiterada em 2021 no ciclo Novas visualizações para corpos em activação, a série re-articula um conjunto de matérias coreográficas de acordo com as circunstâncias de cada apresentação. Paredes móveis, baralhos de texto e corpos em espiral compõem um espaço em reconfiguração contínua, que o público também habita, e onde os gestos circulam sem endereço estável.
Toda a série é uma incursão à relação entre acto e conhecimento, com que se aferem dependências entre um e outro em corpos que aprendem e desaprendem. É, no fundo, um estudo coreográfico sobre a própria condição do estudo.
Carlos Manuel Oliveira (1980, Santarém) trabalha como artista nos campos da dança, coreografia e performance contemporâneas. Depois de um período dedicado à crítica da relação entre coreografia e dança — foi investigador em universidades da Europa e E.U.A., doutorando-se em 2016 pelo Programa UT Austin | Portugal com um estudo sobre os modos de existência dos objectos coreográficos—, dedica-se desde 2017 a produzir, criar e apresentar o seu trabalho artístico e curatorial, sem abandonar os mesmos problemas.
REPLICA – RELIC
DANIA SHIHAB
Replica – Relic confronta os gestos performativos de descolonização em instituições culturais ocidentais — de forma mais vincada no British Museum — e questiona a sua sinceridade ao abordar erros históricos. Dania rejeita a autoridade custodial do museu reanimando património cultural através de um ato de soberania sonora e táctil. Sem permissão institucional, Dania capturou clandestinamente em 3D artefactos mesopotâmicos do British Museum. A partir destes fragmentos digitais emergiram cinco instrumentos musicais totalmente feitos de raiz, cada um eco fragmentado da sua forma ancestral. Cada instrumento funciona como artefacto e como vaso amplificador. A performance habita o interstício entre passado e presente — tornando o arquivado audível, táctil e liberto.
 
Dania Shihab (Bagdade, 1982) é artista transnacional, música, curadora e médica de emergência residente em Barcelona. Enquanto artista sonora, a sua prática foca-se em identidade, fronteiras e deslocação a partir da experiência de migração forçada. Usando samples e gravações de campo e empregando a voz como ferramenta de agência cultural e de género, compõe peças eletroacústicas de longa duração. Desde 2014 dirige a plataforma Paralaxe Editions, onde lança música experimental e comissaria performances pela Europa.
 
HAMMAMTURGIA
SOCIETAT DOCTOR ALONSO
Hammamturgia gera e capta o fluxo de corpos e coisas no espaço, uma sucessão que não explica nada, mas antes propõe e ativa transformações, um trabalho coreográfico que opera com o espaço e o tempo.
Entendemos “hammamturgia” como a outra parte da dramaturgia. A dramaturgia seria a ação de criar, compor e realizar uma peça. “Hammamturgia”, por sua vez, refere-se a uma relação com as condições atmosféricas que produzem a transformação da forma/obra: estar dentro, atravessar, ser aquilo que nos move e que não vemos. Se a dramaturgia se relaciona com a narração e, consequentemente, lhe é atribuído um autor ou autora, “hammamturgia” liga-se ao acontecer e não necessitaria de alguém que prescreva ações. Por isso dizemos que “hammamturgia” é o que acontece — ou o que provoca a mudança. O espaço constrói-se e transforma-se durante a ação, à vista de quem assiste.
 
SOCIETAT DOCTOR ALONSO, dirigida por Tomàs Aragay (encenador e dramaturgo) e Sofía Asencio (bailarina e coreógrafa), construiu uma linguagem cuja chave fundamental reside no conceito de deslocamento. Colocar algo fora do seu lugar, âmbito ou espaço próprio, investigar como esse deslocamento modifica a linguagem, tanto na gramática constitutiva como na leitura de quem observa: deslocar para revelar. Esta manobra tem-se mostrado eficaz na geração de espaços de discurso poético que questionam o status quo do nosso entendimento da realidade.
HYBRID #1 – ⥀18
ANDREAS TROBOLLOWITSCH
 
hybrid #1 – ⥀18 é uma composição/instalação sonora composta por vários gira-discos mecânicos, flautas e balões. As flautas são tocadas pelo ar expelido pelos balões e são postas em rotação pelos gira-discos.  Nesta versão ampliada, pensada para dois espaços distintos do Museu de Serralves, a instalação é expandida com um ensemble de vozes que imita os sons modulados das flautas no campo microtonal, interagindo com eles e/ou amplificando-os parcialmente.
Andreas Trobollowitsch é um músico eletroacústico, compositor e artista sonoro austríaco sediado em Viena. Estudou musicologia e teoria do jazz em Viena e Paris e escreveu a sua dissertação sobre a abordagem espacial nas composições de Karlheinz Stockhausen e John Cage. O seu interesse pela dicotomia entre o intelectual e o físico é evidente, uma vez que inclui aspetos visuais, espacialidade, movimento e as suas relações com o som.
WHEN THE CALABASH BREAKS
TIRAN WILLEMSE & MELIKA NGOMBE KOLONGO (NKISI)
Este projeto surge do encontro e da pesquisa partilhada entre o bailarino e coreógrafo Tiran Willemse e a música e compositora Melika Ngombe Kolongo (Nkisi).
When the calabash breaks está enraizado em cosmologias espirituais e rituais afro-diaspóricos, usando a improvisação como uma prática transformadora e política. O som é intenso e em camadas e atua como uma força viva capaz de afetar o tempo e o espaço, enquanto o movimento abrange dimensões energéticas, memória ancestral e dinâmicas coletivas. Juntos, eles criam uma performance ritualística experimental numa trama explosiva de música e dança – criada para a arquitetura histórica e atual.
O bailarino e coreógrafo sul-africano Tiran Willemse, radicado em Zurique, estudou na P.A.R.T.S em Bruxelas e na Universidade de Artes de Berna (HKB). A sua prática baseada na performance explora a profundidade física e emocional do corpo, utilizando técnicas sonoras e visuais para criar paisagens somáticas e psicológicas além da condição humana. Tiran trabalhou e colaborou com coreógrafos como Trajal Harrell, Jérôme Bel, Wu-Tsang, Ligia Lewis, Meg Stuart, Andros Zins-Browne, Eszter Salamon e Deborah Hay. Em 2022, ganhou o Prix Suisse de la Performance.
Nkisi é o pseudónimo de Melika Ngombe Kolongo, produtora, música, DJ e curadora. A sua pesquisa sonora investiga forças invisíveis através de uma mistura cativante de ritmos africanos, dança europeia e melodias sintéticas. Cofundou o coletivo NON WORLDWIDE e aperfeiçoou o seu estilo entre as festas Endless de Londres e as residências na rádio NTS. O seu álbum 7 Directions e o EP The Dark Orchestra moldaram uma estética sonora poderosa e multifacetada. Nkisi combina apresentações ao vivo internacionais com uma prática interdisciplinar que inclui instalações e performances.
667 views
cool good eh love2 cute confused notgood numb disgusting fail

Este site utiliza cookies para permitir uma melhor experiência por parte do utilizador. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização. Mais informação

Se não pretender usar cookies, por favor altere as definições do seu browser.

Fechar