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PARA ALÉM DA FOTOGRAFIA – DIA 9 Torres del Paine (Sector Cuernos), Patagónia, Chile

Por detrás desta fotografia está uma noite dormida numa tenda. Não uma noite qualquer, nem tão pouco uma tenda qualquer. Uma noite e uma tenda no meio das montanhas, com temperaturas próximas ou abaixo de zero lá fora, depois de uma longuíssima caminhada.

Durante determinados períodos da nossa vida, há uma certa beleza em acampar. Para mim, tudo começou muito cedo. Lembro-me de acampar, ainda pequenito, com os meus pais depois de intermináveis viagens de carro, como também desde cedo usei o campismo como forma de emancipação e de escape à supervisão atenta dos meus dois progenitores. Festivais de verão, semanas a acampar com amigos no meio da montanha ou junto ao mar, e mais tarde, já com carro próprio mas ainda sem grandes recursos, roadtrips ao longo da Costa Vicentina com uma tenda na mala para que qualquer poiso servisse de estalagem para a noite. As costas, por vezes, queixavam-se da opção pelo campismo, mas tanto o dinheiro não dava para mais como o espírito de aventura me obrigavam a abrir portas e zarpar. Tenham lá paciência, queridas costas.

Tenho um passado romântico com tendas e campismo, sim, mas a verdade é que até ter chegado a Torres del Paine, ignorando um ou outro episódio esporádico pouco digno de registo no passado recente, há muito tempo não o fazia. Como dizia o outro, é como andar de bicicleta: a sensação foi familiar, como se tivesse acampado no dia anterior. Uma boa sensação, portanto.

Acampar no Parque Nacional de Torres del Paine é, ainda assim, uma experiência diferente de todas as outras anteriores. Ao contrário do habitual, as tendas são elevadas do chão e apoiam-se em pequenas plataformas individuais dispersas ao longo das colinas verdes, seja para fazer face à água da chuva que por elas abaixo pode escorrer, seja para escapar ao alcance de pumas que, durante a noite, percorrem todos os metros quadrados que o parque nacional tem para oferecer sem nada temer. Depois de o sol se esconder por detrás da última montanha visível, as temperaturas caem vertiginosamente, e a partir das nove da noite o frio faz-se verdadeiramente sentir. Temperaturas próximas, para baixo, de zero graus, e um vento que tal é a sua intensidade parece querer deitar abaixo não só a tenda, mas tudo o que a rodeia. Valham-nos os sacos-cama que carregámos desde o início da caminhada às costas, alugados à pressa nos dias anteriores em Puerto Natales que, segundo nos foi dito, suportariam temperaturas até dez graus negativos. Confesso que não sei se assim será, mas em abono da verdade senti a necessidade de me desfazer de algumas camadas de roupa durante a noite para não abafar. Talvez tivesse razão o seu proprietário que nos afiançou tamanha mais-valia dos benditos sacos-cama.

Acampar por aqui é bom. O silêncio que se estende pelo acampamento durante a noite é ensurdecedor e deitamo-nos e acordamos com vistas estonteantes de montanhas cobertas de neve. Uma boa forma de acabar e começar um novo dia, portanto. Os enlatados que carregamos às costas durante as caminhadas vão sendo devorados em pequenas mesas de madeira junto às tendas, enquanto os últimos raios que o sol tem para oferecer a cada dia nos banham a pele. À chegada ao local de pernoitar, o brinde de uma cerveja local, seguido de uns goles satisfeitos que invariavelmente terminam com um ahhh misturado com um suspiro, marcam o fim do árduo trabalho e o início de um convívio desacelerado. Risos, conversas, danças e cantorias, há de tudo e para todos os gostos. No dia seguinte, acordamos ao som do vazio, devoramos o pequeno-almoço e preparamo-nos para o que se segue, tudo enquanto inspiramos o ar puro da montanha.

Acampar por aqui está muito distante do conforto das cabañas da Carretera Austral, que nos recebiam com uma lareira acesa, alimentando-nos com o calor e conforto que nos haviam faltado durante o dia. Em todo o caso, ainda que sendo diferente, acampar em Torres del Paine é igualmente bom e faz parte da forma de viver este parque. Aliás, posso mesmo dizer que, depois de alguns anos, duas noites passadas em tendas no sul do Chile me fizeram recordar aquele que era um prazer esquecido: acampar.

 

Por João Barros

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