Artigo

PARA ALÉM DA FOTOGRAFIA – DIA 8 – Torres del Paine (Sector Central), Patagónia, Chile

Por detrás desta fotografia está um sentimento de medo. Um medo diferente daquele que poderia ser normal sentir por estes lados.

Não, este não é o medo provocado pela potencial visita não anunciada de um dos pumas que habitam livremente o Parque Nacional Torres del Paine. Também não é o medo da chuva incessante que ameaça cair a qualquer momento, nem tão pouco da neve que encharca os casacos e calças assim que se começa a ganhar altitude, nem ainda do cansaço extremo depois de, num primeiro dia, caminharmos cerca de vinte e oito quilómetros montanha acima, montanha abaixo. Não, este é um medo diferente. Esta é a história do medo de ter feito uma asneira e ter de arcar com as suas consequências.

Ao que tudo indica, e nos foi informado ao longo da estadia neste parque nacional, há uns tempos para cá houve um grande incêndio que dizimou uma data de hectares de floresta, com consequências nefastas para os seres vivos que por cá habitam e para o ecossistema em geral. Como habitante em Portugal que sou, não me é estranho o tema dos fogos florestais, tema esse que, aliás, muito me diz e sensibiliza. Mas não é dos fogos veraneios em Portugal que se tratam estas linhas. Tratam-se, isso sim, do facto de na sequência do grande incêndio que vitimizou inúmeros metros quadrados de paisagem e de vida no sul do Chile, as medidas contra incêndios terem sido, naturalmente, apertadas, algo que me agrada, percebo e aplaudo.

Quem me informou acerca de tudo isto foi um ranger do Parque Nacional enquanto me expulsava, a mim e aos três compinchas de viagem, do miradouro base de Las Tres Torres. Porquê expulsos? Porque alegadamente alguém terá tirado uma fotografia ao nosso grupo enquanto dois de nós – eu incluído – fumavam um cigarro. Claro está que foi precisamente esta a situação que gerou medo, o tal medo do início deste texto. Estávamos no primeiro dia de caminhada pelo Parque, com a perspetiva de dois outros bem repletos pela frente, uma grande parte da viagem, senão toda, fora agendada tendo em consideração a visita a Torres del Paine, e de repente deparámo-nos com o risco de sermos expulsos por uma estupidez.

Antes de mais, importa começar por esclarecer que quando o fizemos, sabíamos que era proibido fumar naquele local, e a verdade é que o fizemos mesmo assim, ainda que nem sequer tenhamos raciocinado nesse sentido. Certo que não se trata de uma desculpa ou justificação, mas depois de uma caminhada árdua, muito árdua, de um almoço merecido composto por umas sandes de queijo e uma bolacha de sobremesa, diante da magnífica lagoa das três torres lá acendemos cada um o seu cigarro. Com aquele frio, barriga cheia e sensação de dever cumprido, não mentirei dizendo que não soube bem.

Por outro lado, e ainda em abono dos palermas fumadores, para que dúvidas não restem, a verdade é que quando cada um de nós fumou o seu cigarro fizemo-lo enquanto estava a nevar. Sim, a nevar em cima de nós, com temperaturas negativas próximas de zero, numa zona húmida e sem vegetação – só pedras, água e neve pela frente. Todas as cinzas e os restos mortais dos cigarros fumados foram diretamente para um cinzeiro portátil que nos acompanhou durante toda a viagem. Por outras palavras, o risco de incêndio, se não inexistente, era escasso, muito escasso. Mais uma vez, não se trata de uma desculpa, mas antes de um enquadramento. Vale o que vale.

O que fica desta história é, repita-se, o medo. O medo de termos sido marcados pelos rangers do Parque era real, e o de sermos expulsos do Parque no final do primeiro dia de caminhada, para não mais voltar, assombrou-nos o resto da jornada. Afinal de contas, havíamos marcado a nossa vinda ao parque há mais de cinco meses, reserváramos tendas para pernoitar no parque a um preço inqualificável (de tão caro que foi, esclareça-se), organizáramos grande parte da viagem à Patagónia tendo tudo isto em consideração. Perder dois dias num paraíso natural como este por causa de um cigarro seria uma estupidez. Mas a verdade é que estávamos prontos a arcar com essa decisão se assim tivesse de ser, na eventualidade de a nossa fotografia de procurados estar a circular no Parque para não nos deixarem continuar (num aparte, quem é que se lembra de tirar uma fotografia e delatar alguém, dadas todas as atenuantes acima referidas, só porque sim? Sim, pusemo-nos a jeito, mas caramba…).

No final de contas, tudo correu bem. Não sei se pura e simplesmente os rangers do parque acharam que o susto que nos pregaram já chegava e por si só seria castigo suficiente, ou se foram os nossos disfarces na segunda parte do dia que os iludiram e salvaram de represálias adicionais. Sim, depois de expulsos do miradouro da laguna das três torres, gorros e luvas foram para a mochila, óculos de sol, ainda que desnecessários, foram para a nossa cara. O casaco quente foi substituído pelo impermeável mais fresco, de cor diferente, uma gola passou a tapar o nariz e a boca, e todos separados para não sermos reconhecidos enquanto grupo, avançamos irreconhecíveis rumo ao acampamento da primeira noite sem sermos interrompidos por nada nem ninguém.

Tudo visto e ponderado, arrependo-me enormemente do que fiz. Não porque ache que tenha colocado em causa alguém ou algo, mas porque havia uma regra para cumprir e eu, deliberadamente, quebrei-a a meu bel-prazer, sem no momento pensar nas consequências. Para mim e para os que viajavam comigo. Tanto me arrependi que não voltei a fumar num local em que não fosse expressamente possível fazê-lo no Parque Nacional de Torres del Paine. Três horas de caminhada sob a ameaça constante de ser reconhecido e expulso não justifica um cigarro que seja.

Em todo o caso, ainda que o medo se tenha feito sentir de forma intensa e constante, ainda que o receio de vir a poder nada mais ver nos dias que se seguiriam tenha sido uma constante nessa tarde, nada retira um pingo de beleza e maravilha ao que nesse dia tive a oportunidade de ver e admirar. Montanhas debruçadas e toscamente encavalitadas umas sob as outras, vales com rios que calmamente correm nos seus meandros, florestas densas, neve, formações rochosas de pequena e grande dimensão, há de tudo e para todos os gostos. O parque nacional de Torres del Paine no seu máximo esplendor, ali, à vista desarmada.

Quanto ao resto, ficou apenas uma lição para mais tarde recordar. Isso, e uma história para aqui contar.

 

Por João Barros

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