Quando viajamos sentimo-nos como se estivéssemos dentro de uma bolha. Nada nos afeta, estamos plenos e realizados, os problemas ficaram lá longe, em casa, fechados a sete chaves numa gaveta que durante algum tempo optamos por ignorar. Quando em viagem parece que o mundo pára e que as preocupações do quotidiano deixam de existir. Por momentos somos livres dos afazeres, das tarefas e das inquietações do dia-a-dia e tudo parece um mar de rosas.
Em todo o caso, tal premissa apenas e tão só é válida se a dita viagem durar pouco tempo, isto é, se os problemas, as preocupações, os afazeres, as tarefas e as inquietações puderem efetivamente ser arrumados numa prateleira para que ali fiquem a apanhar pó até que nos lembremos de sobre eles nos debruçar novamente. Mas quando se viaja por longos períodos de tempo há questões que não podem, de forma alguma, ser descartadas. Uma das coisas que não podem, pura e simplesmente, ser ignoradas, são as idas ao barbeiro. É precisamente sobre um tão relevante tema que há necessariamente de falar.
Nunca gostei de ir ao barbeiro, nunca. Quando mais não era que um benjamim as idas ao barbeiro significavam horas preciosas de brincadeira perdidas em (des)favor de uma data de tempo sentado numa cadeira em frente ao espelho enquanto um desconhecido me tocava no couro cabeludo durante uma interminável conversava com o meu pai. Já à chegada aos tempos áureos da juventude as idas ao barbeiro equivaliam à destruição dos sonhos de um jovem rebelde que auspiciava um dia poder vir a ostentar uma portentosa cabeleira à imagem dos seus ídolos Jim Morrison, Kurt Cobain, Dave Mustaine, entre outros. Tal como os cabelos encaracolados, tais expectativas, de três em três meses, acabavam desoladamente quedadas por terra aos pés de uma sociedade que não achava por bem rapazes usarem o cabelo comprido. O pior pesadelo de todos os miúdos de quinze anos que querem livremente usar o cabelo como bem entenderem, um inferno pessoal de toda uma geração.
Numa idade já mais adulta ir ao barbeiro é só chato. Num primeiro momento envolve sempre uma elevada dose de ginástica ao nível da disponibilidade de agenda. À medida que crescemos percebemos o quão valioso pode ser o tempo e a verdade é que dar por nós à procura de um buraco para poder ir ao barbeiro – quando coisas tão mais interessantes poderiam ser incluídas num tal momento de liberdade – parece um exercício fortuito e sem graça. Mas o pior nem se fica por aí. Sejamos francos, não há paciência para todos os meses passar cerca de uma hora sentado em frente a um espelho a olhar para a nossa cara a emergir como que magicamente presa a um pescoço suspenso por debaixo de uma bata cuidadosamente colocada à sua volta, enquanto um estranho com objetos afiados nos dá a volta à cabeça – literalmente -, vendo-nos forçados a fazer conversa de circunstância, a falar sobre o tempo, a crise, o trânsito e o jogo da semana passada, certo? Não é fácil conceber alguém que nutra um especial gosto por todas as vezes que vai ao barbeiro ter de responder à pergunta o que vamos fazer hoje? como se tivesse dedicado o tempo suficiente a preparar a resposta a uma tão premente questão. É o mesmo de sempre, mas pobre do barbeiro que ouve isso de todas as vezes que alguém se senta diante de si. Como se fosse obrigado a decorar o que significa o mesmo de sempre para todas as cabeças ambulantes que lhe aparecem pela frente. Tentamos explicar, mostramos fotografias do passado, pedimos para não cortar demasiado, não quero gel, obrigado, acenamos afirmativamente e com um sorriso tímido quando achamos que o corte não podia ter ficado pior, dá para pagar com cartão?, e apenas fica a faltar uma ida até casa, ao trabalho ou ao carro durante a qual todas as janelas com as quais nos cruzamos servem de espelho para uma cara desconfiada que espreita de lá para cá.
Por estas e por outras ir ao barbeiro é maçador. Pelo menos eu não tenho grande paciência para isso, mas aceito que haja quem goste e faça disso um momento. Ainda assim, a verdade é que, de vez em quando – mais vezes do que aquelas que desejaria – vejo-me obrigado a lá ir. Coisas de adulto, não é?
Como o mundo decidiu não parar enquanto resolvi viajar pelo continente asiático, e por força de ter sido brindado pelos genes com uma vasta cabeleira que parece crescer a um ritmo cada vez mais alarmante, ao longo do último ano vi-me forçado a encarar de frente esta questão.
A primeira vez que cortei o cabelo durante a viagem fi-lo no único barbeiro que havia numa pequena ilha em que nem sequer uma estrada existia. Um local pequeno, mágico e conhecido por muitas coisas que não pela especial queda dos seus habitantes para o corte da gadelha. O pequeno barbeiro a que me dirigi tinha também um supermercado no mesmo local, o que por si só me deveria ter levado a desconfiar da sua habilidade. Em todo o caso, decidi avançar.
Tal e qual como se estivesse em Portugal, também aí foi necessário encontrar o tempo necessário para ir ao local, tentar descrever por gestos e imagens retiradas da internet o que queria, para depois passar mais de uma hora sentado em frente ao espelho com um desconhecido a mexer-me na cabeça. Isto sem a habitual conversa da treta, valha-me tal benesse.
O resultado não podia ter sido mais catastrófico. Nada no corte estava de acordo com o pretendido, a imagem que serviu de base ao exemplo dado não podia ser mais diferente e o cabelo ficou excessivamente curto. Nada bateu certo, nada. Raios partam as idas ao barbeiro. A única coisa positiva foi o preço que paguei pelo serviço, que opto sempre por nem divulgar sob pena de ouvir de volta um então estavas à espera do quê? Meses passaram e muitas foram as fotografias desenquadradas e estragadas, os penteados estranhos multiplicaram-se, fui alvo de inúmeros olhares de esguelha para uma peruca de cabelo real que não fazia sentido algum – pelo menos na minha cabeça assim foi – e uma sensação de que algo na parte superior do meu corpo não estava certo apoderou-se de mim. A verdade é que algo não estava, de facto, certo na minha cabeça, e dei por mim forçado a viver com as consequências de uma decisão irrefletida de ter tido uma súbita vontade de cortar o cabelo num dos locais menos adequados para o efeito por onde passei ao longo do ano.
Para além de tudo isto, uma preocupação latente instalou-se em mim e teimou em não sair do pensamento desde tão afamado dia – como fazer da próxima vez? Como tratar desta farta cabeleira ao longo dos próximos meses? Com uma cabeça estranha como a minha rapar o cabelo esteve sempre fora de questão e deixar o cabelo crescer indefinidamente tendo por base o alienígena corte com que fui brindado não seria nunca uma possibilidade real, digna sequer de ser ponderada.
Mas a verdade é que encontrei uma solução e não mais tive que me preocupar acerca do assunto. Poderia colocar tudo a descoberto mas antes vou optar por não desvendar um tal segredo. Antes prefiro deixar que quem leia estas linhas dê asas à sua imaginação e dê por si a tentar descobrir a sua própria forma de lidar com um dos grandes obstáculos com que quem viaja durante largos períodos de tempo inevitavelmente se depara: o que raio vou fazer ao meu cabelo durante todo este tempo?
Por João Barros





