Artigo

O 25 de Abril e as Independências

Após a participação na feira de arte de Vancouver, onde prestou homenagem a João Artur da Silva, mestre português com cidadania britânica e canadiana, que, aos 95 anos, voltou a expor o seu trabalho publicamente após um hiato voluntário de 30 anos, a Perve Galeria inaugura este sábado, 20 de abril, entre as 17h e as 20h, a exposição “O 25 de Abril e as Independências – uma visão crítica a partir da Coleção Lusofonias”, em Alfama.

Recuperando a mostra “Resistência e Liberdade”, cuja primeira apresentação aconteceu no Palácio da Independência, em Lisboa, em 2015, dando-lhe um novo e mais amplo contexto no âmbito das celebrações dos 50 anos do 25 de Abril de 1974, esta exposição promove uma reflexão sobre o impacto do processo revolucionário de libertação democrática e das independências na arte desenvolvida em Portugal e nos países de língua portuguesa. Trazendo para a contemporaneidade o debate iniciado em 2015, esta mostra visa questionar criticamente as mudanças sociais, políticas e artísticas que o último decénio concretizou.

Patente na Casa da Liberdade – Mário Cesariny e na Perve Galeria, a exposição explora o modo como os artistas portugueses, artistas oriundos do espaço da CPLP e da diáspora africana, exerceram um discurso problematizador sobre o período histórico do Estado Novo, da Revolução dos Cravos e das Independências dos países africanos de língua portuguesa.

Visando contrariar o apagamento silencioso de artistas cuja criação urge ser vista, reconhecida e valorizada, a exposição é composta por obras da Coleção Lusofonias da Perve Galeria, cuja génese remonta ao final da década de 1990, quando começou a ser reunida em ambiente de pesquisa pelo curador Carlos Cabral Nunes. Visando cobrir o universo temporal de um século de produção artística dos países de língua portuguesa, do início do século XX à atualidade, a mesma alberga centenas de peças, incluindo obras de alguns dos mais representativos autores de Angola, Brasil, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe.

Estabelecida numa abrangência que permite várias leituras, a Coleção está agrupada tematicamente em, fundamentalmente, quatro núcleos históricos centrais, através dos quais também se organiza a exposição que agora inaugura: “Autoritarismo, Doutrina e Resistência”, “A Emergência das Democracias”, “Futuros, Miscigenação e diáspora” e “Outras Geografias”.

Partindo deste enquadramento, a exposição divide-se em dois núcleos. Na Casa da Liberdade – Mário Cesariny são apresentadas obras diretamente relacionadas com a Revolução de Abril, realizadas no contexto português. Entre os destaques estão obras inéditas do fotógrafo suíço Claude Paccaud (1948), que registam os murais políticos que marcaram a vivência da cidade de Lisboa nos primeiros anos de democracia em Portugal. A par destas, os visitantes poderão também descobrir a escultura-objeto, ready-made, que Mário Cesariny realizou em 1976, sublinhando a importância vital de preservar a liberdade e a democracia. Neste espaço de reflexão, é evidenciada a necessidade premente de proteger esses valores, que, embora tenham emergido triunfantes com o 25 de Abril, permanecem em constante estado de vulnerabilidade.

Na Perve Galeria dá-se destaque à criação de artistas oriundos dos PALOP, resgatando obras que se alinharam com os movimentos de resistência, procurando o despertar de consciências pró-independência nos respetivos países, como pinturas e desenhos dos moçambicanos Ernesto Shikhani e Malangatana Ngwenya, ou ilustrações que o artista cabo-verdiano Manuel Figueira, falecido a 8 de outubro de 2023, a poucos dias de completar 85 anos, realizou para o livro poético-revolucionário “Kordá Kaoberdi”, da autoria de Kwame Kondé (pseudónimo literário e artístico de Francisco Fragoso), editado em Paris em 1974, antes da independência de Cabo-Verde.

Mais informações e catálogos das exposições estão disponíveis no site www.pervegaleria.eu.

 

Foto: José Escada

Fonte: perveglobal.com

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