Vodafone Paredes de Coura

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Uma história de amor

“Do pinhão, que um pé-de-vento arrancou ao dormitório da pinha-mãe, e da bolota,
que a ave deixou cair no solo, repetido o acto mil vezes gerou-se a floresta. Acudiram
os pássaros, os insectos, os roedores de toda a ordem a povoá-la. No seu solo abrigado
e gordo nasceram as ervas, cuja semente bóia nos céus ou espera à tez dos pousios
a vez de germinar. De permeio desabrocharam cardos, que são a flor da amargura, e
a abrótea, a diabelha, o esfondílio, flores humildes, por isso mesmo troféus de vitória.
Vieram os lobos, os javalis, os zagais com os gados, a infinita criação rusticana. Faltava
o senhor, meio fidalgo, meio patriarca, à moda do tempo. Ora, certa manhã de
Outono…”
Aquilino Ribeiro, “A casa grande de Romarigães” (1957). Lisboa, Bertrand

 

Ora certa manhã de Verão, depois de uma noite de fado organizada pela Câmara Municipal para inaugurar um espaço conquistado à floresta, um grupo de miúdos decidiu revolucionar a vida da sua terra, e em dez dias montou o festival que haveria de mudar para sempre a forma de ouvir, ver e sentir a música em Portugal. Pode parecer romanceado, mas foi mesmo assim.

Estavámos em 1993, num país rasgado a alcatrão pelos fundos comunitários que entravam aos magotes nos cofres do segundo governo maioritário de Cavaco Silva, mas em Paredes de Coura, interior do Alto Minho, ainda se perdia muito tempo a percorrer as estradas serpenteantes do Concelho que levavam à capital de Distrito – Viana do Castelo. Era um mundo à parte, como quase todo o interior do país. E era neste mundo à parte que viviam João Carvalho, José Barreiro, Filipe Lopes e Vítor Pereira, os quatro “miúdos” que sonharam um festival perdido nos confins do país, envolto num manto verde e com as frias águas do Coura como pano de fundo.

Unia-os o gosto pela música e pela partilha das sonoridades que descobriam em LP’s que chegavam trazidos por amigos, em programas de rádio ou nas míticas crónicas musicais de Miguel Esteves Cardoso. Por essa altura, o grunge tomava conta da cena musical, os Pearl Jam lançavam Vs, o seu segundo álbum, e os Nirvana estouravam em vendas com In Utero, com mais de 15 milhões de discos vendidos. Mas o que é que Seattle tinha a ver com Paredes de Coura, além, eventualmente, na estética despojada do movimento grunge? Nada…e tudo.

A verdade é que desde essa primeira noite, em 93, Paredes de Coura passou a ser o recanto “mítico e místico” do indie, a Seattle portuguesa, onde nasceu uma nova forma de “curtir” concertos, feita de partilha e de entrega, de gratidão, de generosidade e de amor. Um local aonde se regressa anualmente para ser feliz. Afinal de contas, como diz Miguel Esteves Cardoso, “só um mundo de amor pode durar a vida inteira”.

Como é que nasceu o Vodafone Paredes de Coura, essa bela história de amor?

João CarvalhoNasceu em 1991 e da forma mais simples. Nada foi muito planeado, pois a ideia não era fazer um grande festival, e acho que esta é a principal razão pela qual o festival vive e sobrevive com este carinho todo. É efectivamente uma história de amor de um grupo de amigos que gostam muito uns dos outros e que gostam de estar juntos. Numa terra pequena no interior minhoto onde não havia muito para fazer, certa noite fomos ver um espectáculo de fado de Coimbra, que era a única coisa que havia para fazer. Era isso ou ir para os cafés. Esse evento servia como inauguração do espaço onde hoje se encontra o Palco Jazz. Esse local estava cheio de mato e tinha acabado de ser limpo pela Câmara, e para mostrar o recinto à população decidiram organizar o espectáculo de fados. Gostámos muito do espaço e sugeri que aquele local era ideal para se fazer um evento para a juventude. Todos acharam que era uma boa ideia e eu, impulsivo como sou, fui imediatamente perguntar ao Presidente da Câmara se havia alguma hipótese de fazermos ali alguma coisa para os jovens. Ele disse “Claro que sim! Quando é que vocês querem fazer isso?”. “Na próxima semana!” – respondi. Não foi na semana seguinte, mas foi passados dez dias. Portanto, o primeiro festival, bem, até é um abuso dar-lhe esta designação, pois não passou de uma noite de música, foi planeado e implementado em dez dias e custou a módica quantia de 180 contos, o que hoje não daria para pagar as águas da segurança (risos).

Como decidiram dar continuidade a essa noite de música?

O primeiro público era um pouco sui generis. Apareceram as pessoas mais idosas de cadeirinha de praia, as pessoas da cultura popular e, também, as da cultura alternativa. Houve uma mescla muito engraçada de público. Foi uma surpresa para os habitantes de Paredes de Coura que, na altura, tinham uma mente bastante fechada, e alguns ficaram um bocado chocados com as performances de alguns artistas. Lembro-me, por exemplo, do concerto dos Tédio Boys que foi bastante provocador nas poses e na abordagem que fazia a quem assistia. Quando vieram os Kick out the Jams, um vizinho foi a casa dos meus pais dizer que lhe tinham ligado de Lisboa a informar que estavam a caminho umas camionetas de skinheads e que devíamos ter cuidado. Ou seja, inicialmente chocou um bocadinho e deu origem a alguns boatos e receios, mas rapidamente as pessoas perceberam que acabava tudo por ser bastante ordeiro. O facto é que, hoje, ninguém em Paredes de Coura passa sem o festival. Todos se identificam com ele e todos anseiam que cheguem aqueles dias do evento.

O facto de serem pessoas da terra a organizar ajudou nesse processo de desmistificação?

Claro que sim! Todos nos conheciam e sabiam que éramos boas pessoas, mas é natural que inicialmente houvesse uma desconfiança. Paredes de Coura sempre sofreu bastante de isolamento.

… mas esse isolamento também contribuiu para o festival ser o que é.

Exactamente! E também para sabermos receber. Estávamos tão pouco habituados a receber que, quando as pessoas começaram a chegar, foram todos muito simpáticos. As pessoas de Paredes de Coura recebem de uma forma ainda mais amável do que a tradicional forma minhota. Somos efectivamente genuínos! Das coisas que mais me orgulho é passar essa simpatia da população local para as pessoas que vêm ao festival.

 

Nas primeiras edições qual foi a reacção da população local?

Foi muito boa. Costumo contar o exemplo de um senhor que me disse “Oh Carvalho, isto está muito bem! Traz movimento à Vila, mas tenho lá uns tipos a acampar perto do meu café que espero não me tragam problemas.” Eram dois rapazes, um de cabelo pintado e outro com piercings nas orelhas e no nariz. Três dias depois veio ter novamente comigo: “Tenho que te pedir desculpa! A minha mulher caiu nas escadas, e não é que o sacana do piercing era médico?!?”.

É um festival que se faz há 25 anos e nunca houve um incidente, nunca houve uma situação de pancada, nunca houve um assalto. Nada!

Por mais boa vontade que se tenha é normal que surjam conflitos e alguns exageros. Como conseguiram que isso nunca acontecesse?

Fazemos aquilo a que chamo Marketing do Coração. Por vezes passo noites a falar com vinte ou trinta pessoas, e a mensagem que sempre passámos é que se trata de um festival de valores. Acredito que simpatia gera simpatia.

As escolhas musicais também contribuem para isso?

Sim, claro! Mas passa muito pela disciplina do público. Daí passar muito do meu tempo a falar com pessoas, dentro e fora do recinto. Há três anos vi um rapaz que, no meio da sua euforia e apesar de não ser uma pessoa agressiva, pegou num outdoor e preparavase para o deitar ao chão. Agarrei-o e disselhe “O que estás a fazer? O público de Paredes de Coura não faz isto!” Ele desfez-se em desculpas e não parava de dizer “Tens toda a razão. Coura não é isto!”. A forma de estar e comunicar com o público é muito importante. O festival tem níveis de aceitação que oscilam entre os 80 e os 90%, o que é muito elevado para um evento desta natureza. Ainda assim, todos os anos queremos melhorar. Acho que o público reconhece o esforço e sente que não é tratado como clientela, mas sim como elementos de uma grande família. Sentem-se acarinhados.

Voltando aos primórdios do festival. Tiveram logo a noção que a primeira edição se iria repetir?

Como a primeira edição correu bem, e foi divertida, começámos a pensar o que iríamos fazer no ano seguinte.

Mas ainda com o espírito de quem organiza uma festa de liceu.

Sim. Apenas nos juntámos um mês antes. Pegámos no Blitz, que na altura era o jornal de referência de grupos e bandas de garagem, e, depois de fazer uma primeira selecção, entrávamos em contacto com as bandas e tentávamos contratá-las. Não era fácil porque tínhamos pouco dinheiro. Estamos a falar de uma altura em que não havia telemóveis e em que o período telefónico era muito caro. Telefonávamos de um café e havia sempre alguém que dizia “Está a cair! Já gastaste cinco períodos!”. Depois, quando o festival começou a crescer, demo-nos ao luxo de comprar um cartão de chamadas e íamos para uma cabine. Foi uma fase bonita, e é muito interessante perceber como o festival foi crescendo ao longo dos tempos. Na terceira edição, na qual já tínhamos um programa de dois dias e evoluído bastante em termos de produção, a Xana começou a tocar às 6 da manhã. Houve um atraso de 5 horas. Nos dias de hoje isso seria impensável. Mas estes episódios deram-nos experiência e fizeram com que o festival tivesse crescido de forma saudável e genuína. Nunca teve objectivos mercantilistas, mas sim de promoção da amizade e de Paredes de Coura. O festival ajudou a colocar Paredes de Coura no mapa, e isso servia como motivação e enchia-nos de orgulho. Olhando para trás, tenho saudades da fase em que fazíamos cola, de farinha e água, e pedíamos uma carrinha emprestada para ir colar cartazes. Basicamente, fomos crescendo num efeito de bola de neve.

O Vodafone Paredes de Coura é um caso único de um evento sem interrupções que foi evoluindo sustentadamente ao longo dos tempos, não é?

Sim, mas é preciso perceber que, ao longo destes anos, tivemos altos e baixos.

Podes dar-nos exemplos?

O primeiro momento maravilhoso foi Rollins Band, porque era um nome muito sonante que até aí só conhecias da MTV e, de repente, está a tocar no teu quintal. Lembro-me de ver o concerto e chorar. Já chorei muitas vezes de emoção no festival. Ainda no ano passado aconteceu. Não nos podemos esquecer que é feito com todo o carinho do mundo, mas é no meio da montanha, e consegue ter projecção nacional e internacional. Não é fácil ter bandas como os Arcade Fire que, para estarem presentes, têm de abdicar de outros grandes festivais europeus.

Como conseguiram que o Vodafone Paredes de Coura se tenha afirmado como uma grande referência no panorama da música?

Não gosto de utilizar esta palavra, mas, basicamente, nunca nos prostituímos. Sempre tivemos os artistas que gostávamos e que era possível, obviamente. É evidente, não conseguimos contratar todos os que queríamos. Diria que o grande trunfo é termos seguido uma linha musical e nunca nos termos desviado dela. Houve momentos em que sofremos pressões e sugestões, mas nunca cedemos mais do que aquilo que achávamos razoável e do que fazia sentido encaixar no cartaz. Muitas vezes, recusando bandas que são fenómenos de bilheteira. Sempre fomos fiéis à linha que delineámos. Mesmo nos momentos em que, devido às más condições climatéricas, acabámos com enorme prejuízo e em que, naturalmente, pairava a hipótese do festival acabar.

Como conseguiram dar a volta a essas adversidades financeiras?

Conseguimos, porque sempre tivemos o apoio da Câmara, que sempre viu o festival como uma mais-valia para a região e porque, nos momentos em que não pudemos contar com o apoio da autarquia, tivemos de ser nós a arriscar tudo. Em 2004, que foi um ano terrível, para conseguirmos pagar o que devíamos, penhorámos tudo o que tínhamos. Tudo o que era nosso e também pusemos em xeque o que era dos nossos pais.

E os vossos pais alinharam nisso?

Acreditavam em nós. Por vezes um bocado cépticos, mas acabavam por nos apoiar incondicionalmente. É preciso apoiar os filhos (risos).

Foi em 2004 que o festival esteve mais próximo de acabar?

Sim, mas em 2005 fizemos uma edição apoteótica. O que podia ter acabado por ser um enorme disparate, pois estávamos na iminência de acabar, com um  enorme prejuízo às costas, e tínhamos acabado de perder o patrocinador. E o que é que tu fazes? Arriscas tudo e montas uma edição com Arcade Fire, Foo Fighters, Nick Cave, The National. Ainda hoje é dos cartazes mais caros de sempre. Sentimos que, depois de 2004, com o festival quase ferido de morte porque a chuva fez com que fosse um desastre, o evento tinha sido beliscado na sua essência, pois quem por lá tinha passado não iria recomendar o festival. Essa super-produção de 2005 deu-nos um novo élan. Foi um novo impulso, embora não tenhamos ganho dinheiro, mas deu para cobrir os custos. (risos).

Espero que tenha dado para ajudar nos prejuízos de 2004.

Não, nada disso! Deu, sim, para ganhar uma nova dimensão e uma nova alma. Isto é uma história feita de loucura e risco.

Falavas, há pouco, da questão dos patrocinadores. Eles têm sido fundamentais no crescimento do festival, e é algo que vocês têm mantido e que vos tem dado alguma estabilidade. Isso não abala a visão não mercantilista que vocês sempre defenderam?

Sempre que tivemos um patrocinador que deixava de estar alinhado com a nossa visão e objectivos, as relações acabaram naturalmente por se deteriorar, e, deixando de haver alinhamento, tínhamos de ir à procura de uma empresa que acreditasse e se adaptasse ao nosso projecto. Se vires o exemplo actual do patrocínio da Vodafone, percebes que a activação da marca está perfeitamente alinhada com os valores, identidade e posicionamento do festival. Outro exemplo é a Super Bock, que faz bares de madeira especificamente para se enquadrarem em Paredes de Coura.

O facto de fazerem um festival para melómanos, e não para pessoas que procuram brindes, deve-se ao facto de vocês serem grandes apreciadores de música?

Deve-se ao facto de sermos melómanos e termos bom gosto (risos), e sentido crítico.

Em termos musicais, qual foi a actuação que mais te impactou positivamente?

Arcade Fire em 2005. Foi absolutamente apoteótico. Posso vê-los novamente um milhão de vezes que acho que nunca será igual. O efeito surpresa foi enorme. Era uma banda que, na altura, ninguém conhecia e que conseguiu conquistar o público todo num concerto à tarde. Aquilo foi um furacão! Queens of the Stone Age, em 2003, também foi inacreditável. O palco tem 30 metros de frente e o suor do baterista, que estava no meio do palco, chegava a uma das extremidades.

Este ano Paredes de Coura volta a apresentar um cartaz de fazer inveja a qualquer festival. O que esperam desta edição?

Esperamos corresponder às melhores expectativas das pessoas. Temos imensas pessoas que acreditam em nós e que compraram bilhete há imensos meses, quando ainda não sabiam as bandas que iríamos ter. Queremos surpreender. Isto não é fácil porque, como costumo dizer, Paredes de Coura é o festival mais difícil de fazer no mundo. E acho que temos muito mérito, pois, além de o fazermos numa terra pequena, o que complica as coisas do ponto de vista das infra-estruturas e de levar as marcas, temos a desvantagem de não se realizar, nesse período, nenhum festival próximo, geograficamente. São realizados sete, mas na outra ponta da Europa. Isto dificulta a contratação de bandas, pois não têm hipótese de, na mesma altura, agendarem concertos perto. Isto limita muito em termos de escolhas, e acaba por ser um enorme desafio conseguir bons cartazes.

É possível que os Arcade Fire tenham aceitado vir, em detrimento de outros festivais, pelas memórias do concerto, em 2005?

Espero que sim. Acredito que os Arcade Fire estejam numa fase de voltar aos sítios onde foram felizes. Atingiram o estrelato, e são uma das maiores bandas do mundo, mas nota-se que não querem perder a identidade.

E que novidades desta edição podes antecipar?

O objectivo é sempre crescer e melhorar. As pessoas vão ficar admiradas quando lá chegarem. Estamos a criar novas zonas de descanso e a melhorar todas as infra-estruturas de apoio. Estamos a investir muito em áreas de comodidade. Vamos, por exemplo, ter mais duas zonas de restauração dentro do recinto. Estamos, também, a apostar mais em projectos na Vila. Queremos cuidar o melhor possível do nosso público. Para que isto aconteça, é importante manter a ligação com os nossos patrocinadores, nomeadamente com a Vodafone, que percebeu a essência do festival e que nós também ajudamos a que encontrem o seu espaço. Andámos anos a, de alguma forma, mendigar o apoio de quem acreditasse no nosso projecto, e, não querendo ser arrogante, confesso que agora me dá algum gozo sermos recorrentemente abordados por marcas que há dez anos não acreditavam que éramos capazes de fazer o que tínhamos projectado.

Vai ser com certeza uma edição épica.

Espero que as pessoas vejam concertos memoráveis e que criem novas e duradouras ligações. Quero que se divirtam e que levem boas recordações de Paredes de Coura, que é uma fonte de simpatia e fraternidade.

 

Por: João Moreira, Nuno Maia

Foto: Hugo Lima

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