VIAJAR É PRECISO  

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Há muitos anos dei a volta o mundo em 80 dias com Júlio Verne, naveguei mares afora em busca da Moby Dick, aventureime nas florestas com Jack London, fui ao Congo com o Tintin e à Sibéria com Corto Maltese, cheguei a uma ilha de amores que não entendia. Comecei a viajar através dos livros, ainda sem quase ter saído da minha cidade natal. E pelo cinema, que me levou a uma África que não era minha, ao Vietnam em Apocalipse, ao Cairo em busca de uma Arca Perdida, a ver Florença desde um quarto com vista e a acompanhar as viagens de um Turista Acidental. Ou pela televisão, que me mostrou a Inglaterra aristocrática de Brideshead, o mundo futuro de Conan e as cidades do ouro de Esteban e Zia. Viajei muito na minha cama, no sofá da sala e no escuro de salas de cinema antigas ainda com plateia e balo.  

Mais tarde pude começar a levar o meu corpo para outras paragens, longe deste meu país do qual cada vez mais gosto, à medida que mais lugares conheço. Foi como uma droga de adição rápida de que não nos queremos libertar depois de provar, e de que queremos mais, e de que queremos melhor, e de que queremos mais e melhor. E que vamos experimentando em novas formas: sozinho ou bem acompanhado, por cidades cosmopolitas ou aldeias perdidas no tempo, por mares próximos ou montanhas longínquas. Viajar passou a ser parte essencial da minha vida e do meu equilíbrio, uma terapia sem a qual não passo.  

Comecei por viajar com grupos de amigos, mas fui entendendo que cada viagem deve ser feita na companhia certa, sendo que desta escolha depende grande parte do prazer da viagem. Há viagens para fazer com amigos, outras com uma boa companhia e outras com a nossa própria e única companhia. Por isso me recuso a embarcar em pacotes que me levam em grupo para um qualquer lugar onde me obrigam a conviver com pessoas que não conheço, e de quem provavelmente não gostarei. Prefiro o egoísmo libertário de escolher o meu caminho, sozinho ou com pouca companhia que permita escolhas ágeis e individuais.  

Há uma sensação libertadora de viajar sozinho que é difícil de descrever, um desafio ao que somos, aos nossos medos, às nossas forças, a essa coisa difícil que é termos de nos aturar a nós própriosNão discuto com quem se recusa a fazê-lo, nem me acho especial por gostar disso, apenas duvido que se viajasse sempre acompanhado pudesse ter experimentado a sensação de mudar a minha vida viajando. Gosto de parar quando tenho fome ou simplesmente porque gosto do aspecto de um café, de alterar todo o itinerário a meio, de ficar mais um dia num lugar de que gostei, de jantar com alguém que acabei de conhecer no hostel, de dormir mais, se o corpo assim o pede. Gosto de fugir de lugares turísticos e de pensar que passo por local, gosto de deixar algo por ver para um dia voltar. Gosto mais de estar do que de correr em busca de acabar a caderneta de cromos de cada lugar. Reconheço que sou snob em relação a turistas e insisto em me considerar um viajante, coisas minhas de querer que cada viagem seja diferente, que seja única, que seja minha.  

No regresso ficam as memórias, os cheiros, as notas nos cadernos. Aquele almoço no Quintal em Alagoas, a noite louca em Medellin – onde claramente fui onde não deveria –, subir pendurado no bonde de Santa Teresa sobre os arcos da Lapa, tomar um Pisco Sour a olhar o Licancabur e sentir a vastidão do isolamento de São Pedro de Atacama, ouvir Amália ao entrar num hostel em Istambul, demorar cinco horas a negociar uma almofada em Selçuk, sair em braços do Matt Molloys depois de uma épica jam session de música tradicional, caminhar despreocupado entre a Bombonera e o Caminito depois de um almoço memorável no Carlitos, olhar o fim do mundo desde Ushuaia, dormir olhando as estrelas no meio do deserto marroquino, chegar a pé a Machu Picchu e sentir-me irreversivelmente pequeno.  

O mundo é demasiado imenso para quem gosta de viajar, de não pensar em limites ou fronteiras, de querer, sempre, conhecer algo de novo e ser surpreendido pela beleza e diversidade deste planeta a que chamamos terra. Mesmo que tenhamos os livros ou os filmes. Ou melhor, apesar dos livros ou dos filmes. 

por João Albuquerque Carreiras  

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