Viajar cá para dentro

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A grande viagem que temos de fazer é cá para dentro.

Para dentro de nós.

Não somos a casa em que vivemos, os restaurantes trendy em que comemos, o poder que conquistamos, os carros que conduzimos, as marcas que vestimos, os smartphones que utilizamos, as praias paradisíacas em que nos fotografamos e que depois partilhamos nas redes…

Não somos nada disso. Ou somos muito mais, muito antes de tudo isso.

A grande viagem que temos de fazer é ao que somos de facto, na essência, livres da materialidade e aparência de que nos vamos rodeando ao longo da vida.

Não é preciso abandonarmos tudo. Como em qualquer outra viagem, é óptimo ir, mas muito mais importante é ter para onde regressar. E voltar.

Mas num exercício de abstração relativamente fácil, conseguimos viajar dentro de nós. É essencial conhecer as nossas paisagens intrínsecas, os horizontes que em nós encerramos, os mares que dentro de nós ondulam, os ventos que sopram, as gentes remotas que no nosso interior se cruzam.

Porque só depois dessa viagem interior, dessa descoberta endógena, estamos prontos para todas as outras viagens, para ir ao encontro e descoberta do “outro”, sabendo quem é o “eu”.

Infelizmente, muitas pessoas não conhecem este destino de viagem, o “eu”.

Ele não é vendido em pacotes “tudo incluído” nas agências de viagens.

Não é fotogénico o suficiente para o Instagram. Não bronzeia nem tem festas nocturnas com cocktails exóticos e mulheres e homens lindos de morrer com os sorrisos mais brancos que há e a pele esticadinha que é uma maravilha.

Não é possível viajar e conhecer o mundo e os outros, sem nos conhecermos a nós próprios.

Mas também não é fácil conhecermo-nos a nós próprios sem viajar, sem sair da nossa zona de conforto, sem nos confrontarmos com o que é diverso.

Para viajar, sobretudo para as viagens que mais importam, aquelas que nos confrontam e que nos ajudam a sabermos melhor quem realmente somos, é necessária a coragem da humildade, do despojamento.

Quem não tem estas duas virtudes, a humildade e o despojamento, nunca viajou de verdade, nunca saiu de si, nunca viajará, nunca conhecerá o mundo para ganhar mundo.

E, sem mundo, estamos condenados a conhecer apenas a nossa pequenez. O que é uma coisa muito triste.

Por André Serpa Soares

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