Artigo

Um piquenique na zona de guerra

Até à chegada do Daesh, pensava-se que o Curdistão Iraquiano seria em breve o novo Dubai. Desde que o terror chegou às portas de Erbil, a cidade transformou-se num fantasma, numa ruína do futuro. Como se vive numa cidade rica, a poucos quilómetros da guerra?

As grandes avenidas de Erbil estão inacabadas. De ambos os lados das artérias mais recentes da cidade erguem-se centenas de vivendas, prédios de muitos andares, centros comerciais inteiros em tijolo nu, com vigas de betão e estruturas de aço à vista, abandonados a meio da construção. É assim ao longo da Koya Road, na direcção do aeroporto, e por todas as circulares que começavam a transformar a capital do Curdistão Iraquiano numa grande e rica metrópole. Como se de súbito o inesperado acontecesse. Alguma coisa detivesse a marcha do progresso. Algo terrível transformasse a cidade nova numa ruína do próprio futuro.

A guerra mais sangrenta do planeta combate-se a umas dezenas de quilómetros daqui. Nura pede o menu dos gelados. Hesita entre o de baunilha e manga e o sorvete de natas, chocolate e fruta. Para começar, manda vir um cachimbo de água. Bakur, o marido, pede um chá. A esplanada está quase cheia e no interior, mais perto do grande ecrã de televisão, não há mesas livres. É um café italiano, luxuoso, e as famílias aperaltaram-se para vir assistir ao grande acontecimento: o Barcelona – Juventus dos quartos de final da Liga Europa. Não há propriamente uma “vida cultural” em Erbil e são raras as ocasiões de festejo. Não há concertos nem espectáculos de teatro ou dança. O único cinema fechou anos atrás. Os jogos do “Barça” tornam-se um evento capaz de mobilizar milhares de pessoas. Um motivo para sair de casa, envergando as melhores farpelas. Os cafés das zonas ricas da cidade apetrecharam-se com grandes ecrãs de televisão, transformando-se por umas horas numa espécie de clube nocturno da alta roda. Grupos de homens ocupam a maioria das mesas, concentrados no jogo ou dividindo displicentemente a atenção entre os passes de Lionel Messi no relvado do Camp Nou e os dados do gamão no tabuleiro à sua frente.

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Por Paulo Moura

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