UDACA – União das Adegas Cooperativas do Dão

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“ Um bom vinho é poesia engarrafada”

Robert Louis Stevenson

 

A caminho dos 60 anos de história, a UDACA, que representa o sector cooperativo da Região Dão, emite importância acrescida ao bom serviço ao cliente, a par de vinhos de qualidade e marcas que correspondam às necessidades dos vários mercados onde opera. À conversa com Carlos Silva, enólogo e responsável do Departamento de enologia e Qualidade, procurámos desmistificar o verdadeiro sentido de “vinhos de cooperativa” e a crescente importância do Dão no panorama nacional e internacional. E ainda levantámos o “véu” das novas colheitas dos vinhos brancos, reis da época que se inicia.

Desmistificando e clarificando, o que significa a UDACA?

 

Carlos Silva – A UDACA é União das Adegas Cooperativas do Dão. É uma cooperativa de cooperativas!

Fazem parte, atualmente, as Adegas Cooperativas de Mangualde, Ervedal da Beira, Silgueiros, Vila Nova de Tazem e Penalva do Castelo.

Foi criada em 1966 com o intuito de comercializar os vinhos das adegas cooperativas, ser a parte da comercialização e dar outra visão ao sector cooperativo.

Estamos sediados em Cabanões desde 1989, no entanto as primeiras instalações eram junto à Telecom na Avenida Capitão Homem Ribeiro em Viseu. Estas novas instalações foram feitas com toda a modernização existente e foram modernizadas durante os anos, com as tecnologias de acabamento de vinhos, de armazenamento e de engarrafamento.

Aqui recebemos os vinhos das adegas cooperativas, fazemos os respectivos estágios, fazemos o loteamento, criamos as marcas, estagiamos e envelhecemos os vinhos. Fazemos a expedição das diferentes marcas para os diferentes destinos e clientes que trabalhamos, quer em Portugal, quer na Europa, quer na Ásia, América do Sul e Norte, e África.

 

Sabemos que além das marcas próprias fazem prestação de outros serviços, quais?

 

Carlos Silva -Para além da actividade que temos nas nossas marcas, temos a prestação de serviços para terceiros. A nossa maior especialidade é o engarrafamento sendo hoje a fatia maior na prestação desses serviços. O produtor pode recorrer à Udaca para não só engarrafar os vinhos como todo o serviço completo.

A Udaca com todas as seguranças que tem, como por exemplo a Certificação IFS, acaba por ser uma mais valia para quem nos procura. A garantia da certificação feita por nós é fundamental.

O vinho chega-nos em bruto e nós preparamos o vinho até ao engarrafamento e entregamos o vinho em palete certificada, com a rastreabilidade completa e com todas as análises referenciadas, pronto a ser comercializado. É um trabalho que para um agente económico é simplificado, que tem aqui uma facilidade enorme recorrendo aos nossos serviços! Especializámo-nos muito nesta matéria, o que torna o serviço recorrente.

Temos sempre uma preocupação com o mercado, com os nossos clientes, com as necessidades de mercado, nas diferentes gamas, nos tempos certos e na qualidade certa. Não é só necessário ter um bom produto, mas é também importante saber servi-lo na hora que o cliente o precisa. E conseguir isto é ter tudo conjugado no timing certo, a documentação certa, tudo organizado para o efeito. Isso é que faz um bom serviço para uma casa.

 

E o Dão como está atualmente? Quais são as necessidades?

Hoje o Dão está a “recuperar” a sua imagem? Temos estratégias futuras?

 

Carlos Silva – Na generalidade os números que se apresentam atualmente do Dão, na comunicação, traduzem o aumento da qualidade do produto, quantidade de selos vendidos e qualidade de valor. Um crescente nestes três fatores, o que significa um aumento interessante para a região.

Há efetivamente algumas perdas aqui… há um aumento na qualidade dos produtos engarrafados, mas há perda na quantidade de produção produzida. Ou seja, há 15 anos atrás tínhamos 20 mil hectares e hoje em dia temos 13 mil hectares.

Mas a verdade é que produzimos mais vinho certificado DOC Dão do que há uns anos atrás. Produzimos mais e exportamos mais vinho certificado. Há uma inversão de papeis e as curvas invertem-se.

Há, portanto, um reconhecimento de valor de produto e da própria região! A tendência é de subida e temos de acompanhar. Esse é o desafio.

 

Nos anos 80-90 era difícil as pessoas reconhecerem o Dão, mas hoje as coisas estão diferentes, há mérito, há mais qualidade, há medalhas, há reconhecimento na comunicação. Começa a ser normal nas revistas, nos concursos nacionais e internacionais os vinhos Dão serem premiados como melhores vinhos do ano.

Mas acha que as pessoas pensam que os vinhos de cooperativa são menos bons que os vinhos do produtor?

 

Carlos Silva – Esse é o estigma que existiu, mas que está a esvanecer-se um pouco. Os vinhos de cooperativa têm uma força enorme, pois elas têm muito por onde escolher para fazer o muito bom! Portanto conseguem fazer o muito bom, volume e preço!

Ninguém mais consegue fazer estes três pontos tão fortes. Uma adega pode escolher para fazer o topo, pode fazer volume, e para fazer o mais simples!

 

O grande trabalho aqui será o do Carlos Silva?

 

Carlos Silva – Escolher vinhos para fazer topos, para ombrearem os grandes, e conseguir vinhos para serem competitivos e terem preço, é o nosso desafio, é o nosso trabalho. O estigma existe sempre e vai existir sempre!

Alguém dizia que da quantidade se extrai da qualidade, e na verdade é que em tantos milhões de litros temos de extrair o melhor e fazer um grande vinho, e de uvas médias fazer vinhos médios. Recebemos uvas dos melhores produtores da região, e sabemos a qualidade de cada um.

Mas qual o papel social da Udaca?

 

Carlos Silva-Temos de perceber o papel social de uma cooperativa, até porque é difícil perceber estas duas realidades. Os viticultores e engarrafadores têm um papel social na viticultura regional e as cooperativas têm outro papel social. Comercialmente ainda têm outro papel e na economia outro… e as pessoas têm de compreender isto, pois confundem-se e baralham-se todos.

Acaba por ser uma pressão económica, é evidente que o viticultor tem de perceber que tem o preço mínimo de adega e uma adega terá outro mercado e até mais abrangente e não se deviam colidir. Muitas das vezes estão a competir com o mesmo preço. E que culpa tem uma cooperativa que o viticultor não consiga vender os vinhos caros?

O viticultor tem de demonstrar que tem valor na sua produção para vender os vinhos a 13, 14, 15 euros e não a 3 e a 4 euros como acontece muitas vezes.

 

Os vinhos de “quinta” terão sempre uma vantagem comercial em relação aos vinhos de cooperativa, certo? Mas é um desafio para a Udaca?

 

Sara Fraga – A Udaca há muitos anos que rema contra a maré do estigma do Dão, e depois o estigma das cooperativas. Muitas das vezes me perguntam, quando temos visitas, por exemplo, como escolhemos o vinho por entre de todos esses viticultores?

 

Carlos Silva – A escolha é ditada pelas várias necessidades que temos durante o ano, os vinhos por castas, os tintos, encruzados, etc. Abrimos os chamados “concursos”, às aberturas das escolhas dos vinhos e recebemos as amostras para preencher determinados volumes de vinhos.

Essas amostras são selecionadas por valor, sensorial e enológico e é feito um ranking de qualidade.

 

Quando percebem que têm um vinho de excelência canalizam logo para as vossas marcas premium?

 

Carlos Silva- Exatamente. São selecionados para as nossas necessidades. Primeiro preenchemos as necessidades para os vinhos Premium, os de topo, e depois para os vinhos colheitas e por aí adiante.

 

As cooperativas engarrafam nas suas unidades ou fazem aqui na UDACA? Essa “união” como funciona?

 

Carlos Silva – Não, não…somente Silgueiros engarrafa aqui, pois todas as outras associadas têm linhas próprias.

Objetivo inicial da Udaca era escoar o vinho que havia em excesso na região e que as cooperativas não conseguiam comercializar. Os nossos estatutos dizem que só podemos comprar vinho nas nossas adegas e os nossos perfis são elaborados a partir daí. As adegas também só compram aos viticultores de cada área.

Se quiserem fazer um bom Touriga (por exemplo) há uma predefinição? Vão buscar o granel aonde? A determinada área? Como escolhem? Por adega, por ano?

 

Carlos Silva – Vamos ver quem são os candidatos, que tipo de vinhos eles têm. Cada uma das cooperativas tem vários lotes de tourigas e nós vamos escolher das diversas cubas, e vamos ver se eu gosto dela (risos)…posso não gostar. Uma pode ser mais madura, mais aromática, mais taninosa, etc….

E depois é a questão do lote que traz uma mais valia à Udaca, pois nós, ao fazermos os lotes entre a sub-regiões do Dão, isso permite-nos conjugarmos as mais valias do Dão num só vinho!

Ao juntarmos vinhos do Sul, por exemplo de Silgueiros, com vinhos do Norte (Penalva), ou de Vila Nova de Tazem, permite-nos fazer uma harmonização especial que individualmente essas cooperativas não conseguem.

 

Mesma zona, mesma região, mas cada zona tem uma característica diferente. A Udaca serve de alguma forma de tábua de salvação comercial para essa adegas?

 

Carlos Silva – idealmente sim…. eu acho que de certa forma ajuda a economia de cada uma delas, aquela percentagem de volume de vendas, de vinho, está vendido –  representará seguramente uma fatia importante no negócio.

 

Voltando para dentro da própria Udaca, como estão organizados?

 

Sara Fraga – A enologia tem 3 dependências: a enologia, a qualidade e a adega propriamente dita, que conta com 5 colaboradores a cargo do Eng. Carlos Silva.

São feitos os “blends”, depois é tudo tratado na adega passando pelos processos de qualidade.

A Udaca tem ainda um departamento financeiro, outro comercial e a administração que é a própria direção. E depois temos o departamento de produção, que é a produção em si – o engarrafamento, linhas de montagem, embalamento – e a expedição. Sem esquecer o Showroom, a loja comercial aberta ao público.

 

Comercialmente exportam para os quatro cantos do mundo, mas e em Portugal? A pergunta que se coloca é: Lisboa compra?

 

Sara Fraga – Lisboa quer comprar…, mas Lisboa tendencialmente vai pela moda das regiões, e depois vai pela moda dos distribuidores de peso, são as marcas que reinam. Não que o Dão não se venda em Lisboa, obviamente que sim, mas qual é o Dão que se vende? São as referências de peso, Sogrape etc…

O mercado nacional representa muito pouco para a Udaca, mas é estratégico. Por definição, nós devemos ser um braço direito das adegas cooperativas, uma ajuda e não uma concorrência directa, por isso exportamos mais de 70% da nossa produção. As cooperativas estão em crescimento em termos de exportação, mas não chegam a estes valores, o que significa que são muito mais fortes no mercado nacional do que a própria Udaca.

 

E assim é que deve ser para não nos atropelarmos uns aos outros. No entanto também estamos um pouco presentes no mercado com as nossas marcas. Temos referências em várias cadeias de distribuição e em garrafeiras espalhadas pelo país, mas como disse não é o nosso forte.

Quais são os vinhos para este Verão? Temos vinhos novos?

 

Carlos Silva – Evidentemente que sim!

Estamos em 2023, vamos entrar na época de lançamento de vinhos brancos, da colheita 2022. Uma colheita mais jovem, mais fresca e mais aromática.

Vamos lançar o Dom Divino 2022, o Irreverente 2022 e o Encruzado 2022. A par do nosso espumante que está sempre em linha. São, portanto, estas novidades que nos vão acompanhar.

Um ano em termos de brancos bem interessante! Em relação ao Encruzado Adro da Sé, que é um perfil ganhador, habitualmente reconhecido e medalhado, apresenta notas da casta bem específicas, com estágio em madeira, notas de baunilha, manga e pêssego, dando um toque muito interessante ao vinho.

Vamos este ano aumentar a quantidade de produção para suprir a procura, pois habitualmente esgota com muita facilidade.

O Irreverente é um vinho com quatro castas, Malvasia, Bical, Cercial e Encruzado com notas bastante aromáticas e expressivas. Costumamos, por isso, dizer que é um vinho internacional. Tem um lado muito fresco, mas com um estágio em madeira que lhe dá um toque mineral e envolvente. Um estilo muito próprio. Um vinho muito característico com um público fiel a esta marca. O próprio rótulo já tem 20 anos, mas continua a ser irreverente, também pelo design.

O Dom Divino, que tem o maior volume, é uma linha muito interessante. Um vinho muito floral, frutado e sem madeira. Vamos encontrar as notas de cidreira, tília, Flôr de laranjeira… enfim um vinho tipicamente de Verão! Aumentámos também o volume de comercialização!

Fica o convite!

Fotografias: Udaca

Fonte: amoviseu.com

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