Turismo, ex-líbris da gula

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Em janeiro a Organização Mundial de Turismo (OMT) emitia um comunicado à imprensa em que anunciava que no ano de 2018 se tinha atingido a meta prevista para 2020, 1,4 mil milhões de chegadas de turistas internacionais por todo o mundo. Dito em americano é ainda mais impressivo porque são 1,4 billions! Note-se que são chegadas internacionais, o que quer dizer que os que viajam dentro dos seus países não contam, e isso, em países com uma população como a da China ou com a facilidade de viajar internamente dos norte-americanos não é coisa de pouca monta. Acrescentam que cresceu 6%, em contraste com a economia global que cresceu 3,7% no mesmo ano.

É muito natural que a OMT fique agradada com os bons resultados do turismo, assim como ficaram agradados os turistas, particularmente aqueles a quem, até há bem pouco tempo as viagens estavam vedadas, fosse por falta de rendimento discricionário que lhes permitisse viajar, fosse por razões políticas dos países de origem, que lhes dificultavam ou mesmo proibiam as viagens. Em boa verdade, ficam agradados todos os turistas ainda que, muitas vezes, se ponham na posição de só lhes agradar a sua viagem, não a dos outros. É um pouco como a bochecha do porco. É ótima, mas se houver à mesa demasiados a gostar, fica-se com medo que o que nos toca não seja suficiente.

Heis-nos chegados à gula! Esse pecado capital que, mesmo entre as pessoas mais frugais, não conheço quem não cometa. Há gulas para diversos gostos. Haverá mesmo gulas para todos os gostos, pois ela é da natureza humana e não haverá também falta de quem se queira arvorar em polícia da gula. É igualmente da natureza humana. Não quero ter de viver numa sociedade de pessoas sem gula. Sem o duro, por vezes estoico, esforço de lhe resistir, mas sempre sabendo que chegará o momento da doce rendição.

A gula é um dos mais antigos motores da evolução da cozinha e dos vinhos. Encontramo-la evidentemente num refrigerante ou num pacote de batatas fritas gourmet que seguramente ninguém precisa de comer, evidenciamo-la popularmente numa sardinhada, justificamo-la urbanamente num qualquer restaurante de fast-food onde, claro, são os filhos que querem ir, ou quando comemos cozinha de autor, cuja sofisticação esconde, precisamente, a gula.

Esta é, porém, apenas a gula diagnosticada e posta por escrito no início da Era Cristã. Há muito que a mesa perdeu a sua exclusividade. Os vícios pelas drogas ganharam o seu lugar, e é curioso verificar que Portugal teve o seu papel. O ópio veio de oriente, o tabaco, a canábis e a cocaína, das américas. Receio que, também aqui, tenhamos dado mundos ao mundo.

Hoje, a nossa sociedade que entre, muitas outras características, é seguramente uma sociedade do muito, e do depressa, exponencia a gula de forma brutal. Podia, e se calhar devia argumentar que, mais do que precisamos, é o apelido do meio da nossa vida, mas não me interessa chegar a tanto. Fico-me apenas pelos outros alimentos. Depois dos alimentos do corpo, agora os alimentos das emoções e os do cérebro, e isto porque é ao turismo que quero voltar, e nada junta tão bem a necessidade gulosa destes três tipos de alimentos como esta atividade.

Férias de verão, férias de inverno, short breaks, uma ida a um festival de verão, a esperança de encaixar uma visita a um outro festival urbano e um fim de semana prolongado com os amigos fora da cidade. Se a tudo isto pudéssemos somar um cruzeiro, isso é que era! Talvez não para já que ainda somos novos, mas daqui a uns anos, de certeza.

Precisamos de conhecer gente, dizemos. De conhecer novas culturas, novas realidades, novas paisagens e, de preferência, em curto espaço de tempo, para assim podermos ir ainda a mais um monumento nestas férias, ou a um novo sítio na primeira oportunidade. Perderam espaço as repetições do mesmo destino com o mesmo tipo de férias. A gula empurra-nos para novos lugares, com novas coisas para ver. Tal como no resto das nossas vidas, o espaço que dedicamos ao entretenimento esmaga aquele que dedicamos à cultura e isso reflete-se na forma como fazemos turismo. Vemos o mais possível, mas o tempo que dedicamos a cada sítio é absolutamente insuficiente para aquilo a que achamos que nos propomos. Não se conhecem pessoas e muito menos culturas em dois ou três dias. Não é essa a forma de criar novas relações nem é óbvio que as precisemos. Isso é gula. Vamos a um festival e ouvimos dois ou três concertos de seguida sem termos tempo para processar o que ouvimos em cada um deles. Isso é gula. Gastamos menos nos transportes e nos alojamentos para podermos gastar mais nos destinos, na compra de produtos locais e claro, a comer a beber mais do que precisamos. Gula. Tudo isto encimado por um vastíssimo número de fotografias que tirámos com telemóveis, máquinas fotográficas e muitas as vezes com as duas. Na hora ou à noite partilhamo-las com os nossos milhares de amigos do Instagram e do Facebook. Gula. E não me façam começar a falar dos cruzeiros!

Mais uma vez nada de princípio tenho contra a gula, mas não sei se São Tomás de Aquino quando ordenava os pecados capitais do mais grave, para o menos grave e colocava a gula em sexto lugar, previa que um dia, muitos séculos depois, haveriam de existir tantos tipos de gula e um produto composto, que junta todas.

 

Por: João Pedro Costa

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