Artigo

TRC/Zigurfest 2017 

Se para alguns o final de Agosto é altura de rever selfies e sacudir os últimos grãos de areia das sandálias, muitos outros já descobriram que uma melhor opção pode ser rumar a Lamego e viver verdadeiros dias de festa no TRC/Zigurfest.

A completar a sua sétima edição, este festival, organizado pela Zigur Artists em colaboração com o Teatro Ribeiro Conceição, volta a cumprir o seu desafio de trazer até às montanhas todo um mundo de artistas que representam o lado mais criativo da música que se faz em Portugal.

Como um convite a conhecer a cidade, os concertos multiplicam-se por vários palcos, sendo o ex-libris a sala do Teatro Ribeiro Conceição, um espaço surpreendente e sumptuoso, onde o palco despido serve de cenário para aqueles concertos aos quais queremos dar toda a nossa atenção. Foi o palco escolhido para podermos, por exemplo, apreciar cada frequência dos Harmonies reinterpretando Erik Satie, ou viajar com os The Rite of Trio através de vertiginosas camadas de jazz e rock, ou ainda escutar as histórias psycho-folk de Alek Rein- um luxo.

Já o palco da Olaria, situado num gaveto da secular rua com o mesmo nome, contrasta pelo convite à festa e ao desfrutar da música de uma forma mais física. É mesmo impossível ficar indiferente à alegria e à energia que circula entre público e músicos. Por aqui passaram os concertos mais fortes, desde o rock dos Galgo, ou o punk de The Nancy Spungen X, por exemplo, até às sonhadoras Pega Monstro, ou os ritmos africanos do mestre angolano Chalo Correia. Entre espetáculos, podemos refrescar-nos ao longo da Rua da Olaria e espreitar o que se passa num outro palco, quase escondido, a caminho do castelo, que este ano apresentou projectos a solo, como Acid Acid, GPU Panic, ou a enigmática BLEID.

Ao final de cada tarde, são a própria cidade e as montanhas circundantes que servem de cenário para os concertos no Castelo. A subida convida ao repouso, e à contemplação da paisagem e da distância, e que bom que foi sermos aquecidos por um concerto de LamA enquanto a noite ia também trazendo as suas estrelas.

Fora destes palcos, houve ainda tempo para concertos na capela seiscentista do Desterro, no Museu Diocesano, no Museu de Lamego e na Alameda, para além de exposições e residências artísticas, completando um cartaz que não deixou tempo para aborrecimento.

Por entre tudo isto, há uma sensação de comunhão e de boa disposição que é contagiante. A organização é impecável, e tudo parece ir fluindo com facilidade – há programas e mapas espalhados por vários sítios, é fácil encontrar e conviver com os músicos, e até comprar os seus discos, expostos em bancas perto dos palcos, ao pé da “obrigatória” t-shirt, disponível em duas cores e vários tamanhos. Sempre de louvar o espírito desta cidade, uma anfitriã generosa, bem disposta, e sem vontade de ir dormir cedo. Por todo o lado, fomos bem recebidos, como visitantes, sim, mas sobretudo como parte de uma festa que é realmente de todos.

Antes do regresso, podemos sempre expiar algum pecado do fim de semana com uma piedosa subida ao santuário de N. Srª dos Remédios. E deixar a promessa de voltar para a oitava edição do TRC/Zigurfest mas, desta vez, sem perder nem um dia.

 

Tiago A. Henriques

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