Artigo

Tony Wilson: um hedonista do Norte

“Ninguém distribuiu bilhetes para o Sermão na Montanha: o pessoal apareceu porque sabia que ia ser um bom espectáculo…”

Tony Wilson no filme “24-Hour Party-People”, Michael Winterbottom, 2002.

 

Não tarda nada e terão passado vinte anos sobre o imperdível “24 Hour Party-People” de Michael Winterbottom. E já lá vão mais de quatro décadas passadas sobre algumas das bandas que o documentário – ficcionado à volta da vida de Tony Wilson – celebra. Tony Wilson ganhou a vida a encher chouriços na Granada Television, a estação britânica “do norte”. Liderou talk-shows, foi o “frontman” d´A Roda da Sorte” (formato internacional que entre nós tinha como apresentador Herman José), zangou-se, saiu, voltou. O seu “So It Goes” – um programa de curta duração cujo objectivo principal era a divulgação de bandas emergentes – tornou-se numa Meca para qualquer banda – incluindo os Joy Division – que quisesse pôr-se no mapa, sem perder a independência (leia-se, sem sujeitar o seu trabalho à adulteração de um produtor com um qualquer contratozeco de distribuição). Mas é na “Factory”, o “night-club” que fundou em Machester com o mesmo nome da sua editora musical independente, que está a obra da sua vida e, porventura, o eixo mais estruturado da sua carreira como produtor musical.

A “Hacienda”, como ficou carinhosamente conhecida entre 1982 e 1997, foi considerada pela Newsweek como o Clube mais famoso do mundo e, de muitas formas, é um exemplo acabado da transformação de uma cidade pela sua cultura e animação. Embora seja possível encontrar paralelos a este fenómeno na Madrid da Movida (e Almodóvar), ou na Lisboa do Frágil (e de Manuel Reis), o caso de Manchester precede qualquer outro que possamos encontrar no mundo cosmopolita. Cidade profundamente deprimida durante o final dos anos setenta, Machester viu-se vazia, desempregada, votada ao abandono por um poder central incapaz de conter as consequências devastadoras da desindustrialização em curso à época. Wilson era – acima de tudo – um regionalista convicto e um homem apaixonado de tal forma pelo que produzia, que soube sempre desaparecer por detrás dos sucessos que ajudou a reconhecer, dos Joy Division (mais tarde, os New Order) aos Happy Mondays, dos Durutti Collumn aos A Certain Ratio.

Wilson era um hedonista libertário: soube sempre perceber o valor intangível do que é periférico, e trouxe-o para o centro, renegando sempre qualquer fenómeno de mercado estruturado. Fazia parte da sua filosofia o entendimento de que a verdadeira liberdade é a que chega através de escolhas informadas. Morreu em 2007 e, nesse dia, a “Union Jack” voou a meia-haste no edifício da Câmara Municipal de Manchester.

 

Nicolau Pais

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