TOM DE FESTA 2018

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Crónica de um festival que é um segredo guardado à vista

 

Há vinte e oito anos que o Tom de Festa – festival de músicas do mundo – acontece. Pelos palcos da ACERT já passaram nomes como Compay Segundo, Vieux Farka Touré, Richard Bona ou Chico César, muitos deles antes de serem conhecidos em Portugal. O programa é sempre ecléctico, tem concertos para muita gente e outros mais intimistas, e acrescenta à música várias outras formas de expressão artística, não esquecendo a vertente da sociabilização, afinal, um pilar importante na existência da associação que organiza este festival. Podia ser presença habitual nos destaques da imprensa cultural, mas é sabido que as redacções gostam pouco de olhar para o que não está à porta e ainda menos de descobrir o que as redacções vizinhas ainda não descobriram. Isto é uma crónica, podem dizer-se estas coisas sem abalos de imparcialidade, que aqui nem tem como ser regra (não fosse quem escreve associada da estrutura que organiza o Tom de Festa – e fica feita a declaração de intenções e assumido o registo cronístico, pessoal, comprometido).

Este ano, a programação do festival teve de ser reduzida para três dias, em vez dos habituais quatro, depois de a ACERT ter sofrido um rombo no seu orçamento na sequência do corte do apoio da Direcção Geral das Artes. Apesar disso, a qualidade da programação manteve-se e quem quis ouvir música brasileira de diferentes latitudes, ritmos e matrizes teve aqui o espaço ideal. No programa do Tom de Festa não deixou, ainda assim, de se dar notícia desse rombo: “A ACERT nega-se a pedir desculpa ao público pelas consequências do duro golpe que sofreu no corte de apoio resultante da redução drástica do apoio da DgArtes/ Ministério da Cultura. Resistência, motivação redobrada e encantamento são antídotos comprovativos duma ACERT que quer continuar a seduzir a comunidade e os espectadores, pelo serviço público que presta numa região do interior que se afirma sem paternalismo no panorama artístico nacional.” Com menos um dia, a festa fez-se com a dedicação de sempre, desta vez com toda a programação virada para o Brasil, assinalando meio século de Tropicalismo –  um dos mais importantes movimentos culturais do século XX em cuja génese estiveram nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé ou Gal Costa.

Na primeira noite do festival, a Cor da Língua ACERT prestou homenagem à Tropicália num concerto que fez desfilar temas popularizados por Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Tom Zé, Rogério Duprat ou Os Mutantes, entre outros. Entre as vozes convidadas para se juntarem ao grupo, Luca Argel, um repetente do festival que deu corpo a várias canções, entre elas “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso, confirmando que o balanço da bossa, o quebrado do samba e os riffs do rock sempre se deram bem nessa mistura que foi – e é – o tropicalismo. Mais tarde, no concerto que fechou a noite no Pátio, o cantor e compositor haveria de voltar a subir ao palco a convite de Os Sincopados, para se juntar à roda de samba.

Na parede que começa onde o palco do Auditório ao Ar Livre acaba, um emaranhado de imagens coloridas começava a ganhar forma. Drika Prates, artista visual brasileira a residir em Portugal desde o ano passado, ocupava-se das tintas e dos pincéis para criar um mural dedicado ao tropicalismo. Será um vestígio mais duradouro deste Tom de Festa a ficar em Tondela, pelo menos enquanto o sol e a chuva o deixarem resistir, como é de lei nos murais. Enquanto A Cor da Língua visitava a herança tropicalista, Drika Prates pintava, ajudada por três ou quatro crianças que não faziam parte do programa. Quando lhe perguntámos de onde surgiram os ajudantes, contou: «A Alice ficou muito entusiasmada com o mural e eu perguntei se ela queria experimentar pintar um pouco. Quando ela começou, apareceram outros meninos que quiseram juntar-se, e daí participaram também. Eu já trabalhei com crianças em arte e educação, estou habituada a fazer isto com outras pessoas. E, bem ou mal, os meninos acabaram ajudando.» No dia seguinte, outros ajudantes, estes já adultos, deram também uma mão, enchendo contornos previamente definidos e permitindo que no domingo houvesse uma composição completa na parede do jardim da ACERT. Entre cogumelos, ananases e flores, as linhas com que Drika Prates encheu a parede branca são agora testemunhas de como a Tropicália continua bem viva.

 

Por: Sara Figueiredo Costa

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