Tenho medo, logo existo!

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Metade do nosso cérebro não gosta de surpresas, do desconhecido, do imprevisto. Quando isso acontece produz uma emoção a que chamamos medo. É assim a natureza humana e a resposta a esse medo procura imediatamente a ordem, criar padrões, uma espécie de leis. E são muitos os nossos medos! Uns por ignorância, não sabemos o que vai acontecer a seguir; outros por impotência, não há nada a fazer; outros por humilhação e que ameaçam a auto estima e a auto confiança.

Os medos tem origens várias, uns vem da Natureza e são as catástrofes; outros vem da Saúde e são as doenças e pandemias como esta que vivemos; outros ainda vem dos outros seres humanos como nós. Estes são os medos clássicos, porque o chamado medo dos medos vem da consciência de sermos mortais e sabermos que não andamos cá para sempre. Mas esta é só uma das nossas metades, porque a outra metade gosta de desafios, do inesperado, da surpresa, porque isso dá-lhe a oportunidade para criar, para inovar, para fazer diferente. Somos feitos destas duas metades contraditórias e elas próprias entram em conflito uma com a outra todos os dias.

Em momentos de crise, por fragilidade nossa e da sociedade que criámos, o apelo maior é o da ordem e prescindimos da nossa liberdade a favor da segurança. Há uma espécie de troca, damos liberdade em troco dessa segurança, porque as duas são inconciliáveis. Exigimos e aceitamos as leis de emergência, o aumento do poder do Estado, as leis de exceção, para que se garanta a ordem e isso nos dê segurança.

Mas em todo o conjunto dos medos há um outro elemento, não inteiramente novo, que já vive entre nós e do qual fizemos um traço forte da nossa cultura portuguesa. Chama-se o Medo de Errar! Em muitas circunstâncias, como aquela que vivemos agora, ele assume o comando das operações. Então há um desafio que se coloca! É que sendo esta pandemia uma situação nova, não se conhecendo os seus contornos, nem consequências, deveria ser tratada pelo nosso outro lado, aquele que gosta do imprevisto, que é criativo e que funciona bem nesse ambiente. Isto porque a ciência médica, os profissionais da saúde e todos nós, estamos a confrontar-nos com situações novas e que pedem novas soluções. É aqui que surge o Medo de Errar, porque em vez de se criar, há protocolos a cumprir, há normas e leis, há os media a discutir e a apontar os erros, tudo numa visão igual á das rotinas de sempre. O problema é que não são as normas que salvam vidas e este devia ser o tempo de fazer, de experimentar e não o tempo de falar, de teorizar e de criticar. Isso é o que se faz com os pequenos casos do dia-a-dia, porque agora estamos a tratar de um problema complexo que produz reações em cadeia e que são imprevisíveis. Esses tem que ser resolvidos na hora, em cima do acontecimento e de forma precisa. Esses não podem ser alvo das mesmas avaliações ou julgamentos, como são as ações correntes dos políticos ou dos governos e que dão horas de debate e de entretenimento.

A liberdade e a responsabilidade da ação médica deve ser igual á liberdade e responsabilidade dos políticos e dos agentes de informação, porque nesta matéria, todos podem errar e causar danos mais ou menos graves. Deve até ir-se mais longe e exigir muito mais responsabilidade aos cidadãos, que normalmente só acordam para ir votar ou fazer coro das reclamações…Vimos como a prática de uma cidadania consciente é tão importante neste tempo que vivemos.

Por Jorge Marques

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