O silêncio lisboeta nunca existiu

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“Uma esmola para o ceguinho…” “Sai um bitoque para a mesa cinco!” “Agarra, que é ladrão!” “Táxi!…” “Vivam os noivos!!!…” “Abaixo o Governo!” “Há dias de sorte, anda hoje à roda…”, “Fora o árbitro!”, “Muitos anos de vida…”, “Paz à sua alma…”

O silêncio nunca existiu, mesmo antes de Ulisses aportar a uma baía onde marulhavam as ondas, gritavam as gaivotas, assobiava o vento, uivavam os lobos, trovejavam relâmpagos, estalavam as árvores, percutia a chuva, coaxavam os batráquios, trinava a passarada.

Depois, chegaram os gritos de várias línguas, os martelos de bater pedra e as espadas de tinir sangue, o repicar dos sinos que Pessoa dizia serem os da sua aldeia e os foguetes das festas com estúrdia e zaragata, as brigas de rua nos tempos da navalha e as discussões domésticas que as paredes das casas não escondem, o choro das crianças e o ladrar dos cães, a música dos sacabuxas e dos sintetizadores, as falas dos negros e as palavras asiáticas, o tropel dos cavalos e o clarim das casernas, os urros do rinoceronte a lutar com um elefante e os decibéis do avião a furar as nuvens quando aponta à pista, as arengas das vendedeiras e as telefonia nos autocarros, as sirenes dos faróis marítimos em dias de nevoeiro e a balbúrdia da mocidade em tempos de romaria, as botas dos soldados e os tamancos das varinas, a berraria dos bêbados e os altifalantes dos políticos, a pronúncia brasileira e os pregões dos galegos, os cânticos das procissões e as buzinas da feira popular, as bandas de coreto e a metralha das revoluções.

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Por Fernando Madaíl

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