Será que valeu a pena? – Dalat

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Há uns tempos atrás percebi que algumas pessoas não gostam especialmente de comer. Não é que não comam ou sequer que tenham algo contra quem goste de comer. Pura e simplesmente não ligam nada a isso. Comem para sobreviver e porque tem de ser. Há até quem diga que, se pudesse, substituiria a comida por comprimidos repletos de suplementos alimentares de forma a simplificar todo o processo. Estamos todos boquiabertos, não é?

Como bom português que sou gosto muito de comer. Mais especificamente, como bom minhoto que sou gosto muito de comer. Mas diria ainda melhor: mais do que gostar de comer, gosto muito é de comer bem. E sei que isso me foi incutido pelos meus pais. Obrigado a ambos por isso.

Lembro-me de ser miúdo e fazermos deslocações ao fim de semana só para experimentar comidas diferentes. Às vezes íamos a Ponte de Lima por ocasião da lampreia, outras vezes o destino era a Apúlia onde um delicioso peixe grelhado à beira mar serenamente nos aguardava. O Alentejo e as suas migas e açordas ficavam para as férias.

Não é então de estranhar que a comida seja uma parte tão importante da minha vida. Não quer isso dizer que coma de uma forma tresloucada. Disso, já foi tempo. Não, não é sobre isso que estou a falar. O que quero dizer é que quando se trata de comer gosto de me debruçar com seriedade sobre o assunto. Vamos a isso então.

Como atribuo tanta importância à comida no meu dia-a-dia, outra não poderia ser a atitude quando estou a viajar. Sem grande surpresa, a particularidade de comer em viagem está na vontade de experimentar o que a comida local tem para oferecer. Gosto de me aventurar nos sabores próprios de cada sítio, de arriscar não gostar daquilo que vou comer, de ter a oportunidade de ter formado a minha própria convicção. E gosto de o fazer independentemente de quão longe seja o lugar em que estou a viajar. Não vou ao Alentejo e deixo passar a ocasião de comer umas migas ou uma carne de porco à alentejana, nem deixo de ir ao Minho e deleitar-me com uns rojões à moda de lá.

Coloquemos de parte os estranhos casos de pessoas que viajam e gostam é de comer as coisas que podem saborear em qualquer sítio. Os casos de pessoas que estão no sul de Itália e querem é comer um hambúrguer, ou que estão na Tailândia e só pensam numa pizza no prato. Ponhamos de lado essas situações, que espero sejam raras ainda que tema que não.

Colocando de parte tais atrocidades, quando se viaja há duas formas diferentes de ver o momento da refeição, o que quer que isto queira dizer. Ou gostamos de analisar tudo de antemão e ir ao melhor restaurante, que serve o melhor prato tradicional de um determinado sítio, ou paramos em frente a um sítio qualquer, percebemos que por perto haverá comida, o cheiro e a visão cativam-nos e portanto aí apostamos todas as nossas fichas.

Não que se trate de uma das formas estar certa e a outra errada. Simplesmente são duas atitudes diferentes perante a novidade gastronómica com que cada pessoa se pode deparar quando viaja. Cada uma das opções tem os seus méritos e deméritos. Se não estudarmos de antemão os sítios mais indicados para provar um prato podemos passar ao lado de experiências de deixar a boca a salivar só de serem relembradas. Mas a sensação de sermos surpreendidos quando não temos qualquer expectativa prévia formada sobre aquilo que vamos comer também não pode ser descartada, não é?

Quando estou em viagem não gosto de comer a horas certas. Não gosto de planear o que comer nem onde o vou fazer. Gosto de saber quais os pratos tradicionais de cada zona que visito, isso sim. Mas não gosto de pensar, ainda durante a manhã, que logo ao jantar gostaria de comer um banh can ou um bun cha. Não. Gosto de ir a caminhar pela rua, começar a sentir a fome crescer dentro de mim e ter de olhar para os lados para perceber o que é que naquele momento será a verdadeira razão da felicidade, o que é que me fará viajar ainda mais intensamente dentro da cultura que tenho vindo a desvendar.

A acrescentar a isso, não tenho problemas em comer onde quer que seja. Aliás, quando é possível prefiro mesmo comer na rua a fazê-lo em restaurantes, qual Anthony Bourdain de palato insaciável pronto a deleitar-me com o verdadeiro sabor das ruas, com a autêntica cultura gastronómica local. Para além de me parecer uma forma genuína de experimentar comida tradicional, contribui-se diretamente para o aumento da qualidade de vida dos habitantes locais e não raras vezes os preços são tão apetecíveis quanto os sabores com que estamos prestes a deliciar-nos.

Sim, gosto de comida de rua. Gosto da aventura que é ter de apontar para os pratos das pessoas do lado para explicar o que quero comer, porque vendedor e eu não nos compreendemos de outra forma. Gosto de ter de me sentar no chão, ou em esplanadas improvisadas, e fazer de qualquer apoio que encontre uma mesa de refeição digna do mais aventureiro peregrino. Gosto de não saber bem o que estou a comer, do risco de ter uma surpresa (des)agradável no momento em que a comida me é posta à frente ou mesmo mais tarde, à chegada ao quarto onde pernoito. Gosto de estar a comer e tentar adivinhar os sabores que estou a experimentar, quais os vegetais que foram usados, que temperos foram atirados para o prato, que carne é aquela cujo sabor não reconheço.

Às vezes corre bem, outras vezes nem tanto. Por vezes somos pioneiros na descoberta de uma nova pérola escondida pelas ruas sujas de Dalat, sentimo-nos donos de uma nova história por contar. Noutros casos, depois do festim gastronómico sentimos a barriga às voltas e tememos pelos dias que se avizinham, os quais podem vir a ficar seriamente comprometidos.

Valerá a pena atirar a moeda ao ar e jogar à sorte o nosso destino? Depende de cada um. Quanto a mim, quando estou a viajar não há outra hipótese senão arriscar e ver no que vai dar.

Por João Barros

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