“SEJAM BELOS, SEJAM APAIXONADOS, SEJAM JOVENS”

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Foi um privilégio assistir, em Lisboa, em 2023, à conferência proferida por um dos maiores pensadores vivos, Edgar Morin, que, do alto dos seus 102 anos, manteve a plateia atenta, durante 30 minutos, sem necessitar de qualquer “auxiliar de memória. Morin concluiu, no livro O Espírito do Tempo (2008) que a velhice é desvalorizada e a idade adulta juveniliza-se: “O sábio ancião tronou-se o velhinho reformado. O homem maduro tornou-se o cota. (…) É o homem e a mulher que não querem envelhecer, que querem permanecer sempre jovens para se amarem para sempre e usufruir sempre do presente. (…) O tema da velhice não diz respeito apenas aos jovens, mas também aos que envelhecem. Estes não se preparam para a senescência, pelo contrário lutam para permanecerem jovens.” A luta pela eterna juventude tem vindo a ganhar terreno, nos últimos anos, exacerbando o medo de envelhecer e o tudo fazer para prolongar a juventude, atingindo, em alguns casos, níveis patológicos, numa gerontofobia / velhofobia assustadora, terreno fértil para a poderosa indústria do antienvelhecimento. Obviamente as opções individuais de cada pessoa são respeitáveis, todos temos o direito à nossa imagem e a fazermos o que considerarmos necessário para nos sentirmos bem. Mas, o que dizer ou pensar da nova tendência das redes sociais que já colocou o skincare como a prioridade das pré-adolescentes? Um movimento iniciado nos Estados Unidos – “Cultura Sephora” – já chegou a Portugal e foca-se no rejuvenescimento da pele das jovens. Morin deu, há quase uma década, uma explicação: “O recalcamento do tempo do declínio acelerou-se bruscamente com a indústria do rejuvenescimento. Esta, nascida da maquilhagem hollywoodesca, deixou de ser apenas a arte de camuflar o envelhecimento, ela repara os ultrajes causados pela idade.” Segundo o autor, a cultura de massas desagrega os valores gerontocráticos, acentua a desvalorização da velhice, dá forma à promoção dos valores juvenis. “A sociedade no seu conjunto é perpassada por um movimento de desgerontocratização.” Têm-se acentuado as divisões, entre quem considera que as pessoas idosas impõem nas urnas o futuro da juventude e quem entende que o culto da juventude é o padrão para ascender ao poder. Há exemplos para ambos os lados da “barricada”, desde a designada gerontocracia americana, com Joe Biden à cabeça, até à recente nomeação do mais jovem primeiro-ministro da história recente de França, Gabriel Attal, de 34 anos, depois da demissão de Elisabeth Borne.
Há todo um mercado a borbulhar com a longevidade e a eterna e incessante busca pelo elixir da juventude, o mercado prateado. “Falar do mercado da longevidade é descobrir o mundo das terapias genéticas, da imunoterapia, do desenvolvimento de novos fármacos, e de novas vacinas, da produção e encomenda de células personalizadas, do rejuvenescimento de tecidos e órgãos, entre múltiplas teorias e procedimentos que nem sempre chegam a sair do laboratório.” (Visão, 18/01/2024)

Num misto de Frankenstein e O Retrato de Doran Gray, Hanif Kureishi, no livro Corpo e Outras Histórias (Companhia das Letras, 2004), conta a decisão de Adam, escritor e dramaturgo sexagenário, que, num mundo que cultua cada vez mais a juventude, atormentado por dores nas costas, surdez e pela visão já não de todo perfeita, recebe uma proposta irrecusável: transplantar o seu cérebro experiente para um corpo novinho em folha. Um romance que reflete sobre a passagem do tempo e o conflito entre gerações. A ficção e a realidade nem sempre estão tão distantes quanto possamos imaginar. Alguns dos homens mais ricos do mundo – Jeff Bezos (Amazon), Sam Altman (ChatGPT), Larry Page (Google), Peter Thiel (Paypal) –investem fortunas para beneficiar com a descodificação dos segredos da longevidade. As pílulas da juventude, o cocktail de Sinclair, a reprogramação celular e as vitaminas da longevidade são algumas ferramentas usadas para combater o envelhecimento. Segundo Marc P. Bernegger, “A longevidade pode tornar-se a maior indústria do futuro.” É com base nesta premissa que são injetados 2,6 mil milhões de euros na startup Altos Labs, fundada em 2022, em Silicon Valley, tendo como objetivo aumentar a longevidade e reverter o envelhecimento.
Entretanto, por cá, no nosso querido Portugal, os partidos políticos cingem o seu discurso, em relação às pessoas velhas, às pensões. Um tópico importante, mas não o único, quando vivemos num dos países mais envelhecidos do mundo.

A propósito da reforma, Guilherme D’Oliveira Martins, em entrevista ao semanário SOL, tendo como mote o seu mais recente livro A Cultura Como Enigma, editado pela Gradiva considerou que “Reformas precoces significam muitas vezes a destruição completa da pessoa. A pessoa deixa de se sentir útil.” e que (…) “É indispensável usar o saber, o conhecimento e a experiência dos mais velhos.”. Guilherme D’Oliveira Martins refere-se também ao idadismo: “Hoje fala-se muito de uma terrível discriminação, o «idadismo», que é um preconceito e um desperdício relativamente aqueles que têm mais idade e que podem dar uma contribuição extremamente rica.”
Um programa político que não apresente propostas para o combate ao idadismo, não serve os interesses de uma larga percentagem da população portuguesa. É também por esta razão que considero limitado o Plano de Ação do Envelhecimento Ativo e Saudável 2023-2026, que apenas se limita a referir o idadismo, sem o considerar um dos pilares estratégicos. Sem combatermos a discriminação e o preconceito, baseado na idade, será muito difícil fazer vingar um plano que visa potenciar os fatores indutores do envelhecimento ativo e saudável.

 

Por José Carreira

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