SALVATO TELES DE MENEZES 

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Preciso de medir a casa. Os quartos, um a um: comprimento, largura, pé-direito. Avaliar a superfície entregue à névoa e os seus pontos frágeis (janelas, portas e postigos). Conhecer melhor o brilho da cera delida ou a sombra que se oculta nas galerias de caruncho; e o pó, as manchas de humidade nos tectos, a serradura interior da madeira. Numa tarde assim, tão cheia de água, registar ainda o fino diapasão das goteiras, a pouca transparência lá de fora, cada vez mais turva: como absorve ela o murmúrio dos móveis?  

A fita métrica deve estar na gaveta superior direita da cómoda holandesa, onde sempre esteve; a chave, vejo-a daqui: chama de níquel vacilando na fechadura do último gavetão. Calcular com rigor o espaço em que posso mexer-me, a distância entre as coisas, o sítio certo das cadeiras. Andar altas horas através da casa: às escuras e sem tropeções.  

Carlos de Oliveira,  

Finisterra – Paisagem e povoamento  

 

Professor de Literatura Inglesa, Norte-americana e de Teoria da Literatura, Director Editorial de Livros Horizonte, consultor da Bertrand e da Quetzal Editores, fundador e Director de Programação do Festival de Cinema de Troia, tradutor de Mário Vargas Llosa, Fernando del Paso, William Shakespeare, Woody Allen, Vladimir Nabokov, Saul Bellow, Guillermo Cabrera Infante, entre outros, ex-Vice-Presidente e Presidente do Instituto Português da Arte Cinematográfica e, porventura o epíteto de que mais se orgulha, amigo do genial escritor Carlos de Oliveira, Salvato Teles de Menezes é um conversador nato. Sentado no seu gabinete da Fundação D. Luís I de que é Presidente, conversou com a Bica sobre cinema e literatura, política cultural e a acção da Fundação D. Luís I no Concelho de Cascais, sobre o seu lado calvinista e o gosto pelos prazeres da existência. 

O Senhor Professor, um homem ligado ao cinema…  

Isso é mentira. Eu não sou um homem ligado ao cinema. Isso é uma ideia falsa.  

Para a qual o Senhor Professor contribuiu um bocadinho.  

Isso é verdade (risos). Mas corresponde a uma época da qual eu me quero esquecer. Estava equivocado em várias matérias e o entendimento que eu tinha do cinema já não é o mesmo que tenho hoje. É completamente diferente. Portanto, aquilo que pensava nessa altura, em termos institucionais, já não é o que penso hoje. A ideia que tinha sobre o que era necessário fazer, o que eu entendia que era necessário fazer, hoje estou convencido que estava equivocado. Não totalmente, mas estava equivocado. Portanto, foi uma experiência que até podia ter repetido, mas, se o fizesse, seria sempre com maus resultados.  

A minha primeira preocupação foi sempre a literatura e não o cinema. Agora, entendo é que o cinema tem uma relação muito estreita com a literatura e, depois, com a evolução tecnológica. Não há nenhuma arte que tenha uma relação mais directa com a evolução tecnológica do que o cinema. Por outro lado, o cinema tem uma estrutura narrativa que se aproxima da literatura, sem prejuízo das múltiplas contribuições de outras artes.  

No caso português essa ligação é quase umbilical?  

Sim, isso é muito evidente. Nem sempre da melhor maneira, porque há, naturalmente, que ter em conta a especificidade da linguagem cinematográfica. Num livro, nós podemos voltar atrás quando nos esquecemos de qualquer coisa; no cinema, quando estamos numa sala, a ver um filme, não podemos pedir ao projeccionista para parar e voltar atrás porque sentimos que nos escapou qualquer coisa importante. Hoje em dia, isso está um bocado ultrapassado com os novos meios de reprodução. Mas estamos a falar de cinema dentro de uma sala de escura. Por acaso, há dias, ouvi Martin Scorsese, que é, na minha opinião, o maior cineasta vivo, dizer que as nossas casas estão a aproximar-se cada vez mais de salas de cinema. É capaz de ter razão. O sonho do cinéfilo é poder estar sentado numa sala de cinema, sozinho, a fumar um charuto, muito provavelmente, e a assistir ao filme.  

Regressando à questão inicial, a minha aproximação ao cinema fez-se por via da literatura e por uma memória da minha infância noroestina. De vez em quando, apareciam na minha aldeia umas pessoas enviadas pelo governo do tempo, o do Dr. Salazar, que iam projectar uns filmes nas paredes brancas da escola: foi a primeira vez que vi cinema. A segunda vez foi quando um irmão mais velho me levou à sede do concelho, Vila Nova de Cerveira, com o único e exclusivo to de irmos ver um filme, na época natalícia, passado no Salão dos Bombeiros, chamado, salvo o erro, A Vida de Cristo. Nesse filme, há um momento em que um soldado romano atinge Cristo com uma lança, com Cristo já crucificado, e dá-se um tremor de terra brutal e os romanos caem todos pelos buracos que se vão abrindo e os judeus ficam a levitar. Achei aquilo uma coisa extraordinária e pensei: como é possível que haja uns tipos que morrem em buracos que se abrem sem ninguém perceber porquê e outros ficam a pairar? É a chamada justiça poética cinematográfica. Certamente com um toque de religiosidade que também convinha à época. Mas a verdade é que achei aquilo notável. Devia ter para aí uns nove anos e depois fui vendo filmes, uns a seguir aos outros. Achei muita graça. Era mais fácil ver filmes do que estar a ler, gastava menos tempo (risos).  

Isso é um desincentivo à leitura (risos)…  

Não, porque eu estimulo a leitura. Considero que não há nenhuma experiência tão extraordinária como a da leitura. E essa ideia de que os livros poderão acabar é perfeitamente idiota. Em Portugal é que essa ideia pode ocorrer, porque quando entramos nas livrarias, costumamos andar por lá bastante sozinhos. Mas se formos, por exemplo, a Londres ou Nova Iorque as livrarias estão sempre cheias de pessoas. Há muita gente que gosta de ler livros e isso é muito importante.  

Aqui, em Cascais, até recuperámos um projecto que, para mim, foi muito importante, a Biblioteca Itinerante. Aliás, como se sabe, a primeira começou em Braga, ideia de Victor Sá: foi ele que iniciou essa coisa das bibliotecas itinerantes, depois Branquinho da Fonseca trouxe o projecto para Cascais, atraindo a atenção do Dr. Azeredo Perdigão, à época Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, que o convidou para o desenvolver a nível nacional. Foi essencial para mim, na minha juventude. O meu pai era professor, havia livros na nossa casa, é claro, mas ele não gostava muito de romances, talvez tivesse aquela ideia que ainda persistiu durante algum tempo de que o romance era uma coisa negativa para a formação dos jovens, que podia induzir em comportamentos…  

Menos próprios.  

Exactamente. Comportamentos menos próprios para a idade. Por isso consegui ler os grandes romances por ter existido essa biblioteca itinerante que ia à minha aldeia durante as férias grandes liceais. Foi assim que li os grandes escritores norte-americanos traduzidos, os grandes escritores portugueses e os grandes escritores franceses e russos. Foi uma experiência particularmente enriquecedora e essa lembrança levou-me a pensar que talvez não fosse mau recuperarmos a Biblioteca Itinerante em Cascais, ainda para mais tendo uma ligação tão directa com Branquinho da Fonseca.  

Como tem sido a aceitação?  

Extraordinária. No verão vamos às praias e durante o resto do ano vamos a zonas onde existem associações culturais, a parques, a jardins. Tem sido muito gratificante e com resultados extremamente positivos. Foi, aliás, com grande satisfação que ouvi a Ministra da Cultura dizer que gostaria de recuperar esta ideia e que iria propor ou que teria já proposto à Fundação Calouste Gulbenkian retomar as bibliotecas itinerantes.  

De modo que tudo isto foi importante para a minha formação.  

Depois, lá andei a dar umas aulas de Literatura Inglesa e Americana e de Teoria de Literatura, até acabar por chegar aqui.  

A literatura americana é a sua paixão.  

Sim, gosto muito de literatura americana e de literatura portuguesa de uma determinada época.  

Mas, em relação à literatura americana, durante muito tempo, não passava de uma imitação da literatura inglesa. James Fenimore Cooper é uma espécie de Walter Scott que, no entanto, teve, juntamente com Brockden Brown, entre outros, um papel importante na afirmação da identidade americana. A literatura teve um papel central na criação dessa identidade. A partir do momento em que se liberta da síndrome colonial, começa a desenvolver-se, até chegar aos dois grandes génios da literatura americana, pelo século XIX, que são Nathaniel Hawthorne e Herman Melville. Então, com Melville, o salto é brutal, é um salto em frente extraordinário. Embora Melville seja um discípulo de Hawthorne, enquanto Hawthorne é um escritor, até pela delicadeza dos seus temas e do seu estilo, que se poderia dizer medieval, Melville é um escritor barroco. De grande, de enormíssima importância. Eu costumava dizer nas minhas aulas de literatura que há três livros que é absolutamente indispensável ler e que os meus alunos, obrigatoriamente, tinham de ler. Um é a Bíblia, outro é Guerra e Paz e outro, Moby Dick. A partir daí já podemos falar sobre muito mais coisas, mas estes três livros são absolutamente fundamentais.  

Mas é claro que a literatura americana não ca por aí, vem Mark Twain, um escritor prodigioso que é preciso reavaliar, e Jack London, que é outro grande escritor. Depois vêm alguns escritores dos anos 20 e 30 do século passado, dignos de particular atenção: para mim, o mais importante de todos é Dashiell Hammett, não porque escreva romances policiais, porque poderia escrever outra coisa qualquer, mas porque é um estilista de altíssimo nível. E depois vêm todos os outros grandes escritores: Steinbeck, Hemingway, Faulkner ou mesmo Kerouac.  

Relativamente à literatura portuguesa, gosto daqueles escritores que têm um grande conhecimento dos grandes autores americanos dos anos 30, 40 e 50. É o caso de Carlos de Oliveira e José Cardoso Pires. Aliás, tive a felicidade de ser amigo dos dois e, durante um período da minha vida em que vivi na zona do Saldanha, todos os dias tomava café no Toni dos Bifes com Carlos de Oliveira, José Cardoso Pires, Augusto Abelaira, Nuno Judice, Gastão Cruz e outros: julgo que todos íamos lá para prestar homenagem a Carlos de Oliveira, que é, para mim, o maior escritor português dos últimos cem anos. É um escritor prodigioso, de grande depuração, que criou um universo próprio, com base num espaço geográfico concreto, a Gândara, que é uma espécie de Yoknapatawpha County faulkneriano. É um caso único..  

E um bocadinho injustiçado.  

Sim, hoje em dia não se lhe presta a atenção que ele merece. Como acontece, aliás, a outros.  

A Fundação D. Luís I tem desempenhado um papel muito relevante na área da literatura, nomeadamente através do projecto das residências literárias, convidando autores muito relevantes a nível mundial, para virem escrever durante dois meses para Cascais.  

Sim. Convidámos Olivier Rolin, que esteve na Cidadela em Agosto do ano passado, onde escreveu uma boa parte do romance agora publicado, “Peregrinação”, que é finalista do prémio Goncourt. Aliás, nos agradecimentos pode ler-se, «por fim quero agradecer a fundação D. Luís I que me convidou a fazer uma residência em Cascais, durante a qual escrevi uma grande parte deste livro», portanto, a ideia funcionou. Depois, esteve Michael Cunningham e agora temos cá Jonathan Coe.  

Não fazem a coisa por menos (risos).  

Não são nada maus, de facto (risos). O papel da nossa vogal do Conselho Directivo, Filipa Melo, tem sido fundamental, porque é ela que tem a responsabilidade de acompanhar este processo e é com ela que discutimos os escritores que devem ser convidados. A seguir virão Javier Cercas e o vencedor do Prémio Camões, o cabo-verdiano Germano de Almeida.  

Como vê, tudo se encadeia. No âmbito da literatura, também criámos, em conjunto com a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a Cátedra Cascais Interartes, na qual atribuímos uma bolsa de cinco mil euros a quem estudar os escritores que viveram ou que têm uma relação com Cascais. Não é obrigatório que tenham cá vivido ou que tenham cá nascido, mas que tenham uma relação com Cascais, e há alguns importantes: o Almeida Garrett, o Herberto Helder, o Mircea Eliade, a Maria Amália Vaz de Carvalho, o Fernando Pessoa, o Ramalho Ortigão, o José da Cunha Brochado, um que aprecio muito, o Rubén A., o Branquinho da Fonseca e o próprio Eça de Queirós, que passava cá grandes temporadas.  

Quando é que o Salvato Teles de Menezes decidiu vir para Cascais?  

Acabei por vir para Cascais há 24 anos, a convite de um amigo, e foi a melhor coisa que fiz.  

Não está arrependido, portanto?  

Foi a melhor decisão que tomei. Quando a Fundação D. Luís I foi criada, tínhamos um instrumento, mas não tínhamos uma estratégia nem o espaço de intervenção adequado para esse instrumento funcionar. A Fundação actuava aqui, ali, acolá, conforme era necessário e, sobretudo, no Centro Cultural de Cascais. Com a chegada de Carlos Carreiras à Presidência da Câmara, isso mudou. A ele se deve toda esta presença da Fundação D. Luís I na vida cultural e artística de Cascais. Hoje em dia, a Fundação D. Luís I gere, sob o ponto de vista programático, o Bairro dos Museus, que inclui todos os equipamentos culturais que estão nesta área geográfica: a Casa das Histórias Paula Rego, o Museu Condes de Castro Guimarães, a Casa de Santa Maria, o Museu do Mar, no fundo, equipamentos direccionados para as artes plásticas, embora nele desenvolvamos diversas outras actividades: ciclos de cinema, leitura de poemas, congressos de música, etc.  

No que às artes performativas diz respeito, irão para o Monte Estoril, onde se iniciou a recuperação do Edifício Cruzeiro, obra da responsabilidade do Arquitecto Miguel Arruda, onde carão instalados o TEC, Teatro Experimental de Cascais e a sua Escola de Teatro, a Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras, a OCCO, além de uma biblioteca especializada em cinema e teatro e um auditório com capacidade para 400 lugares. Portanto, o Edifício Cruzeiro, será uma Academia das Artes, um cluster dedicado às artes performativas.  

Também se vão iniciar as obras na Casa Reynaldo dos Santos e Irene Quilhó dos Santos, na Parede, onde, sob a tutela da Professora Maria de Sousa, uma investigadora portuguesa do Porto, que trabalhou nos Estados Unidos durante muito tempo e há cerca de 30 anos fez uma descoberta notável que permitiu um grande desenvolvimento no tratamento do cancro, instalaremos um centro de estudos das relações que é possível estabelecer entre arte, cultura e ciência. Na casa está já todo o acervo que o Professor Reynaldo dos Santos doou à Câmara Municipal de Cascais, a que se somará o acervo pessoal da Professora Maria de Sousa. Estamos, igualmente, a negociar a vinda do acervo de Bartolomeu dos Santos, que é neto do Professor Reynaldo dos Santos, para depois, a partir desse núcleo, desenvolvermos esse centro de investigação das relações entre cultura, arte e ciência.  

Esses projectos coincidem com a reabilitação de espaços que estavam…  

…não digo devolutos, mas pelo menos desaproveitados. A Casa Reynaldo dos Santos, por exemplo, estava a precisar de uma intervenção de pouca monta, mas o Edifício Cruzeiro que, pouca gente saberá, foi o primeiro centro comercial do país, estava completamente degradado e devoluto. No entanto, tão importante como a reabilitação é a ocupação e dinamização desses espaços. Nós não queremos ter museus onde as pessoas vão só de vez em quando, queremos ter espaços que tenham vida própria, em que haja actividade constante, e isso implica outra visão. É nesse caminho que estamos a evoluir e, de facto, e não digo isto por nenhuma razão de simpatia, mas porque gosto de reconhecer o trabalho das pessoas, deve reconhecer-se o papel importantíssimo do Presidente Carlos Carreiras, porque, de facto, tem uma visão estratégica para Cascais. Os políticos, normalmente, são tácticos e há muito bons tácticos, trabalhei com alguns, não vou dizer quem, porque podem ficar ofendidos, porque julgam todos que têm uma grande visão estratégica, mas não têm. Aqui, há essa visão estratégica e depois há os passos tácticos necessários para conseguir atingir o grande desígnio. É preciso perceber que a cultura pode ter um papel importante do ponto de vista do desenvolvimento económico e social.  

Embora ainda persista a ideia de que a Cultura é um sorvedouro de dinheiro sem contrapartidas.  

Sim, há isso. Na generalidade pensam isso. Não percebem que com a cultura se pode ganhar muito dinheiro. Aquilo que nós, em Cascais, estamos a tentar fazer, no fundo, é perceber as linhas de força que se vão afirmando em termos da cultura e da arte contemporâneas, sem deixar de considerar a importância da tradição. Procuramos olhar para a cultura tendo em consideração as experiências do passado, com a consciência da evolução constante que hoje a vida imprime a tudo, não só à cultura.  

O facto de Cascais ter uma tradição cultural reconhecida contribuiu o desenvolvimento deste plano estratégico de que fala? E já agora, considera a estabilidade política a nível autárquico essencial para a implementação dessa visão estratégica?  

Isso é muito importante. Cascais é um sítio especial, não há dúvidas sobre isso. E teve a sorte de ter pessoas que contribuíram muito para se criar aqui uma percepção diferente da importância da cultura. Desde que teve como vereador da cultura o escritor José Jorge Letria, sofreu uma alteração no modo como as pessoas passaram a encarar esse fenómeno. Isso foi muito importante, porque se iniciou um trabalho cuja continuidade nunca foi posta em causa por nenhum dos presidentes que houve até agora..  

O que é raro.  

Raríssimo. Criou-se um espírito que favoreceu um entendimento diferente do que é a cultura e isso é importante. Nomeadamente, a noção de que a cultura contribui para aquilo que é a ambição principal, creio eu, de qualquer presidente de câmara – a qualidade de vida dos seus munícipes. E o actual presidente tem consciência, como os anteriores, de certa maneira, tiveram, de que a cultura desempenha um papel fundamental na garantia dessa qualidade. Sendo que, como disse, o Presidente Carlos Carreiras percebeu que, para além do que já tinha sido feito, era necessário dar um salto em frente, quer em termos quantitativos quer em termos qualitativos e que, para isso ser bem-sucedido, era importante reorganizar e disponibilizar meios para que se pudessem efectivar essas alterações. Foi o que aconteceu. Por exemplo, quem teve a ideia do Bairro dos Museus não fui eu, foi o Presidente da Câmara. Eu e os meus colegas do Conselho Directivo sempre achámos, efetivamente, que seria muito mais interessante podermos actuar em rede, ou como se diz hoje, aproveitando as sinergias, essa palavra tão bonita (risos), mas quem teve a ideia, foi o Presidente Carlos Carreiras. 

O nome Bairro, surgiu pela tradição da designação que existe na vila?  

Também, mas surgiu, sobretudo, porque era mais fácil de apresentar internacionalmente. Museum Quarter funciona muito bem e nós, é preciso que se diga, temos, cada vez mais, essa preocupação de atracção do público internacional. Temos isso como um objectivo claro. Curiosamente, apresentámos, porque fomos convidados a isso, uma candidatura a Destination of Sustainable Cultural Tourism Awards 2019 e vencemos a categoria de Heritage Interpretation, o que nos deixou muito satisfeitos.  

O turismo cultural, em Cascais, desempenha um papel fundamental em termos económicos.  

É importantíssimo para a nossa economia, daí esse desígnio, não só de atrairmos turistas, como de estar presentes no estrangeiro, e temo-lo feito de múltiplas maneiras, sobretudo através dos acervos Casa de Histórias Paula Rego e da Fundação D. Luís I. Por exemplo, as obras que temos no acervo da Casa de Histórias Paula Rego, quer as obras que estão em depósito cedidas pela pintora, quer as obras que fazem parte da doação que, no contrato inicial feito com a pintora, passaram a ser propriedade da Câmara Municipal de Cascais, têm sido por nós emprestadas a inúmeros grandes museus internacionais. Isso desperta, não só a curiosidade, como permite desenvolver contactos essenciais em todo o mundo que nos dão a garantia de que esta- mos a caminhar no bom sentido. Com passos seguros, mas não lentos.  

A falta de meios financeiros para o sector, de que os agentes culturais regularmente se queixam, é o principal entrave à dinâmica cultural do país?  

Não me parece que a falta de dinheiro seja o motivo principal. No sector cultural, uma coisa que não há em Portugal, em quase lugar nenhum, é organização. Os portugueses não gostam de ponderar, gostam de improvisar. Só que as melhores improvisações são fruto da ponderação, para serem boas dão um trabalhão, portanto, é preciso organização. E a organização passa por ter as pessoas certas nos sítios certos, passa por ter uma equilibrada distribuição dos meios e, naturalmente, passa por definir critérios de avaliação da capacidade de execução dos programas que forem aprovados. Eu acho que se faz tudo ao contrário. Não há, de facto, essa vontade de organizar. Por isso é que sou calvinista, em boa verdade. É porque os católicos, que eu respeito muito, acreditam que vão ter o pagamento no Céu, enquanto os calvinistas, como têm um Deus muito cruel e ainda por cima acreditam na predestinação, acham que o pagamento é na Terra. Por isso é que aquele livro de Nathaniel Hawthorne chama-do Letra Escarlate é tão bom, é porque trata destes dilemas morais e estes dilemas morais são importantes para se poder alcançar aquilo que, julgo eu, se veio cá ao mundo fazer, que é melhorar as coisas de alguma maneira, não é? De facto, há muitas maneiras de melhorar as coisas, mas é preciso ser-se capaz de as organizar devidamente.  

Além dos já enunciados, quais são os futuros projectos da Fundação D. Luís I para Cascais?  

No âmbito da música, vamos realizar, com a Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras (OCCO), uma residência musical muito especial. Convidámos a grande compositora búlgara Dobrinka Tabakova, que em 2017 foi nomeada compositora residente da BBC Concert Orchestra e que ganhou um Grammy com o seu álbum de estreia, String Paths, gravado pela EMC Records, para vir a Cascais, onde realizará um concerto com a OCCO, com obras suas, um recital de música de câmara, com solistas da OCCO, uma conferência sobre composição sob o tema Modality in Music, culminando com uma grande performance, em 2021, de uma peça que ela está a escrever de propósito para a BBC, para a Orquestra Sinfónica de Estocolmo e para nós, que contará com uma parte dedicada a Inglaterra, uma à Suécia e uma a Portugal, e que deverá ser interpretada aqui, em Cascais, por Hugo Ticciati. Um projecto bastante ambicioso que terá uma importância muito grande para nós. Finalmente, na primeira semana de Julho de 2021, ao longo de cinco dias, o Centro de Congressos do Estoril vai acolher a 49.ª edição de Medieval and Renaissance International Music Conference – MedRen Cascais 2021 – organizada pelo CESEM (Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical da Universidade Nova de Lisboa) em parceria connosco, que é o mais importante evento científico mundial da área da Música e da Musicologia da Idade Média e do Renascimento.  

Cascais em grande, nos próximos tempos.  

Sim, mas, como lhe disse, para chegar aqui é preciso estratégia e organização. Carlos de Oliveira, sempre ele, escreve o seguinte, num dos mais belos momentos de um livro chamado Aprendiz de Feiticeiro: «Suspiro, lembrem-se de que estou diante das estrelas, afinal referi-me apenas à conjuntura exterior do processo, digamos assim, mas o que ele exige antes de mais, deixemos de lérias, é um alicerce de uma personalidade diferenciada, o talento que modela a névoa interior, sílaba a sílaba, até lhe dar um rosto próprio, sem isso nada feito. Não há processo que me valha.” Portanto, é preciso organização e depois pessoas talentosas, como temos em Cascais, para executar os projectos que derivarem da tal ponderação que deve ser feita.  

“And there is a Catskill eagle in some souls that can alike dive down into the blackest gorges, and soar out of them again and become invisible in the sunny spaces. And even if he for ever flies within the gorge, that gorge is in the mountains; so that even in his lowest swoop the mountain eagle is still higher than other birds upon the plain, even though they soar.”  

Herman Melville, Moby Dick 

Por João Moreira 

Fotografia : Bruno Esteves

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