Saber o futuro

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Foi o realizador norte-americano Woody Allen que disse “gosto muito do futuro porque é lá que vou passar o resto dos meus dias.” Será difícil não concordar. Daí as constantes e múltiplas tentativas que a Humanidade tem empreendido para preparar o futuro. O futuro é connosco no sentido em que, usando o nosso melhor conhecimento e os melhores meios tecnológicos proporcionados por esse conhecimento, podemos criar condições de vida que irão perdurar. Se é certo que o conhecimento ajuda muito na construção do futuro, não é menos certo que ele se tem revelado sempre uma caixinha de surpresas. Quem faz previsões arrisca-se sempre a errar.

A futurologia é a disciplina que, com base no actual conhecimento, efectua previsões, naturalmente falíveis. Grandes nomes da futurologia, que encontraram ampla audiência pública, são os norte-americanos Rachel Carson (1907-1964), Daniel Bell (1919-2011), Hermann Kahn (1922-1983), Alvin Toffler (1928-2016), e os franceses Bertrand de Jouvenel (1903-1987) e Jean Fourastié (1907-1990). Na actualidade têm-se destacado os norte-americanos Michio Kaku (n. 1947) e Ray Kurzweil (n. 1948), e o israelita Yuval Harari (n. 1976).

Os computadores são hoje em dia um instrumento imprescindível para fazer previsões, não só porque acumulam informações, mas também permitem correr simulações. Mas as melhores previsões ainda continuam a ser feitas por humanos, eventualmente servindo-se de computadores. Um projecto particularmente interessante é o do psicólogo canadiano Philip Tetlock (n. 1954), autor do livro Superprevisões: A Arte e a Ciência da Previsão (2015), escrito com Dan Gardner. A ideia dele, financiada por agências de segurança dos Estados Unidos, é que se pode, com treino adequado, desenvolver capacidades de previsão em pessoas que não são necessariamente génios.

O passado é o melhor guia

Há algumas coisas que podemos prever com confiança guiados pela nossa experiência passada. Uma daquelas em que mais acredito – e tenho boas razões para acreditar – é de que, no futuro, vamos saber mais do que sabemos hoje. Já no século XVI, o médico português Garcia da Orta (c.1501-1568) escreveu, com manifesto optimismo, que “o que não sabemos hoje amanhã saberemos.” Foi nos séculos XVI e XVII – no tempo da chamada Revolução Científica – que surgiu o método científico que tem guiado o caminho da Humanidade desde então. O físico britânico David Deutsch (n. 1953) no seu livro O Início do Infinito (2011), diz que com a Revolução Científica se iniciou um processo sistemático de ampliação do conhecimento, uma vez que passámos a dispor de um meio para criar conhecimento seguro. No século XVIII surgiu, na sequência dessa Revolução, uma outra, a Revolução Industrial, que permitiu substituir o trabalho animal e algum trabalho humano por trabalho de máquinas (um marco foi a máquina a vapor de James Watt em 1776). Já não se via uma mudança tão grande na vida da Humanidade desde a Revolução Neolítica, há cerca de 10.000 anos, quando os caçadores–colectores passaram a fazer agricultura e pecuária perto das suas habitações, aglomeradas em povoações. No século XIX ocorreu uma segunda vaga da Revolução Industrial com a substituição gradual das máquinas a vapor por máquinas eléctricas (um marco foi o primeiro dínamo de Faraday em 1831). Já no século XX ocorreu uma terceira vaga da Revolução Industrial, com o desenvolvimento da electrónica (um marco foi a invenção do transístor em 1947) e dos computadores (marcos foram o aparecimento do computador pessoal em 1974 e a World Wide Web em 1990).

A Revolução Industrial levou a um crescimento explosivo da economia, um crescimento que continua nos tempos de hoje. É lícito esperar que essa tendência prossiga no futuro, isto é, que se produza cada vez mais riqueza, embora existam nítidas e persistentes desigualdades na sua distribuição.

A maior riqueza permitiu a mais gente ter acesso a um conjunto de bens que a ciência e a técnica foram proporcionando. O século XIX viu nascer, falando de inventos mais ligados à física: a telegrafia, eléctrica e sem fios, o telefone, a lâmpada eléctrica e a electrificação, os raios X, a bicicleta, o automóvel e o comboio. O século XX viu nascer o avião, a rádio e a televisão, a energia nuclear, os electrodomésticos, os computadores, os lasers e as fibras ópticas, os satélites e as viagens espaciais, a Internet e o GPS. Mas, nos dois últimos séculos, houve muitos outros inventos, incluindo alguns ligados à química (os adubos, o plástico e a pílula anticoncepcional) e outros ligados à biologia e à medicina (o conhecimento dos germens, as vacinas, a aspirina, a penicilina, a estrutura do ADN e o projecto do genoma humano). Avanços no saneamento, na nutrição e na medicina conduziram a um contínuo aumento da longevidade humana que continua nos dias de hoje. Baseado em todos esses avanços do passado, será seguro prever a continuação desse progresso material e do maior conforto do homem como habitante do planeta.

Erros de previsão

E, no entanto, algumas destas invenções, que hoje são banais nas nossas vidas, foram imprevisíveis. Ninguém previu, por exemplo, no alvor da última década do século passado, o aparecimento da World Wide Web no CERN, um laboratório de ciência fundamental, nem o seu rápido crescimento em todo o globo, mudando completamente a nossa vida.

Mas já antes tinha havido grandes dificuldades e falhas de previsão, tanto na ciência como na tecnologia. Alguns grandes nomes da ficção científica como o francês Júlio Verne (1828-1905) fizeram previsões bem sucedidas, como a da viagem à Lua ou a de grandes viagens submarinas, mas no século XIX não era de todo possível conceber o que seria o século XX. Muitos sábios falharam. O físico norte-americano Albert Michelson (1852-1931), coautor da famosa experiência que permitiu eliminar a hipótese do éter como meio de propagação das ondas electromagnéticas, afirmou em 1894: “Parece provável que a maior parte dos grandes princípios já estão firmemente estabelecidos e que os avanços futuros precisam de ser procurados arduamente na aplicação rigorosa desses princípios a todos os fenómenos de que temos conhecimento. (…) As verdades futuras da física devem ser procuradas na sexta casa decimal.” Não tinham ainda passado dez anos e já havia teorias físicas completamente novas: a teoria quântica e a teoria da relatividade, que haveriam de permanecer inabaláveis até aos dias de hoje. Houve quem tivesse boas premonições. O britânico Lord Kelvin (1824-1907), um dos maiores físicos do século XIX, numa conferência na Royal Institution de Londres em 1900, que havia, na física clássica, dois pequenos problemas por resolver: “A beleza e a claridade da teoria dinâmica, que coloca calor e luz como modos de movimento, está presentemente obscurecida por duas nuvens.” Essas duas “nuvens” deram lugar às duas teorias referidas, que são os pilares da física moderna e que, em particular a teoria quântica, proporcionaram enormes transformações do nosso modo de vida.

No início do século XX houve algumas previsões que se revelaram acertadas. Por exemplo, o grande autor britânico da ficção científica Herbert George Wells (1866-1946) previu as comunicações rápidas, a bomba atómica, os lasers, a engenharia genética, etc. Mas outras pessoas notáveis falharam nas suas previsões. O marechal francês Ferdinand Foch (1851-1929), professor de Estratégia na Escola Superior de Guerra em Paris, que seria comandante das forças aliadas na frente oeste durante a Primeira Guerra Mundial, declarou em 1911 que “os aviões são brinquedos interessantes, mas não têm qualquer valor militar.” No entanto, naquela guerra os aviões começaram a revelar a sua enorme utilidade, tendo-se revelado decisivos na guerra mundial seguinte.

Sobre os computadores, que proliferaram no mundo de forma vertiginosa nos últimos 40 anos, também há todo um reportório de previsões falhadas. Vejamos, como exemplos, os grandes erros de três líderes norte-americanos da indústria informática. Em 1943, Thomas Watson (1874-1956), fundador da IBM, afirmou: Penso que no mundo só há mercado para talvez cinco computadores.” Mais tarde, em 1977, Ken Olsen (1926-2011), fundador da Digital Equipment Corporation, uma companhia pioneira na indústria de computadores,  declarou: “Não há nenhuma razão para que um cidadão comum queira ter um computador em sua casa.” E Bill Gates (n. 1955), fundador da Microsoft, declarou, em 1981, que “Uma memória de 640 k deve ser suficiente para qualquer pessoa”. Todas essas frases parecem-nos hoje ridículas. Houve, porém, quem conseguisse fazer previsões acertadas a longo prazo. O engenheiro norte-americano Gordon Moore (n. 1929), fundador da Intel, previu em 1965 que os chips dos computadores iriam duplicar o número dos seus transístores a cada 18 meses – a famosa lei de Moore -, e essa previsão acabou por ser cumprida ao longo de décadas. Há quem diga que uma das razões é que a Intel controlava a indústria…

Ninguém foi capaz de prever a libertação da energia nuclear, tal como ocorreu no final da Segunda Guerra Mundial. É certo que Pierre Curie (1859-1906), o marido de Madame Curie e um dos pioneiros da radioactividade, tinha dito, na sua Conferência Nobel em 1905: “Pode-se inclusive considerar que o rádio pode tornar-se muito perigoso em mãos criminosas e, aqui, levanta-se a questão quanto à capacidade da humanidade de se beneficiar do conhecimento dos segredos da natureza, se está pronta para lucrar com isso e se essa sabedoria não será prejudicial.” Mas ninguém podia adivinhar o uso bélico dado à energia nuclear. Os militares não previram. Em 1945, o almirante norte-americano William Leahy (1875-1959), disse ao presidente Truman em 1945 a respeito da bomba atómica: Esta é a maior tolice de sempre. A bomba atómica não explodirá nunca, e falo como especialista em explosivos.” As explosões de Hiroshima e Nagasaki calaram-no. Os átomos passaram depois da guerra a servir para a paz, mas ninguém conseguiu prever Chernobyl nem Fukushima. Assim como ninguém conseguiu prever quando haverá uma instalação prática que permita fornecer energia nuclear de fusão, um dos santos grais da Física para produzir energia limpa em abundância.

Sobre o espaço, a colocação em órbita do primeiro satélite artificial, o Sputnik-1, em 1957, foi uma surpresa para muita gente. Em particular, para os norte-americanos. Em resposta, o presidente John Kennedy previu, em 1962 que os EUA seria o primeiro país a chegar à Lua, ainda antes do fim dessa década, uma profecia que foi concretizada em 1969 graças aos avultados meios colocados à disposição da NASA. É, como no caso da Intel, o que se pode chamar uma profecia que se auto-realiza. Quando as leis da física o permitem e o profeta tem os meios para concretizar a profecia, é fácil ser um profeta bem sucedido.

Em contraste, as previsões feitas no século passado e mesmo neste sobre a ida a Marte dificilmente se concretizarão. Eu próprio escrevi um artigo em 1990 na revista Omnia (intitulado “A Difícil arte de prever o futuro”) em que, com um optimismo temperado por um ponto de interrogação, dizia que a primeira viagem a Marte poderia ocorrer em 2015. Já passaram cinco anos sobre essa data e não só ainda não se foi ao planeta vermelho como ninguém consegue prever com segurança quando se lá irá. A viagem é permitida pelas leis da física e o grande problema são os avultados meios para efectivar a viagem.

A aposta Ehrlich-Simon

Há uma coisa que devemos aprender com a história no que respeita à previsão do futuro. Não devemos nunca desprezar a capacidade humana de inovar e, portanto, os desenvolvimentos tecnológicos que podem surgir. Nos anos 80 houve uma aposta envolvendo previsões que ilustra bem esta essa capacidade.

O norte-americano Paul Ehrlich (n. 1932), professor de Biologia na Universidade de Stanford, é um dos ecologistas mais conhecidos pelos seus avisos sobre os efeitos do crescimento populacional. Publicou em 1968 um livro, que se tornou rapidamente um clássico, sobre o crescimento populacional e suas consequências (A Bomba Populacional), que teve uma sequela (A Explosão da População, 1990). Nessas obras expôs as razões para temer para o futuro. Os motivos pareciam evidentes: A curva da população mundial estava a subir vertiginosamente, mas os recursos existentes na Terra para satisfazer as necessidades dessa população eram finitos. A certa altura teria de haver pessoas com necessidades.

Os pessimistas costumam ter optimistas por opositores. Julian Simon (1932-1998), professor de Economia na Universidade de Maryland, depois de ter estudado a questão levantada por Ehrlich, concluiu que poderia haver um ou outro problema local relacionado com o excesso de habitantes na Terra, mas que no global não haveria problema nenhum. Quanto mais cabeças houvesse na Terra maior seria a pool de criatividade de onde novas ideias e soluções poderiam surgir. Simon publicou em 1980 na Science um artigo em que criticava as conclusões dos ecologistas pessimistas como Ehrlich. Se há mais gente a procurar mais matérias-primas e estas são limitadas, Ehrlich concluía que elas tinham de aumentar de preço, conforme manda a lei de oferta e da procura da economia. Errado, replicou Simon, explicando: devido ao progresso das tecnologias que são necessárias para as suas extracção e transformação, o preço desses recursos não ia, a prazo, subir mas sim baixar. Ehrlich e Simon resolveram adoptar um exemplo concreto para confrontar as suas posições. Em 1980 fizeram uma aposta sobre o preço daí a dez anos de um conjunto de metais de utilização comum (cobre, crómio, estanho, níquel e tungsténio). Ehrlich previa que iam ser mais caros, ao passo que Simon previa que iam ficar mais baratos. Em 1990, foi a altura de verificar quem tinha ganho.

Ganhou Simon. Corrigindo os preços para levar em conta a inflacção, esses metais tinham de facto descido de preço. Aliás não era praticamente necessária essa correcção porque a descida era bastante acentuada. Ehrlich não teve mais do que pagar ao seu antagonista. As razões da descida de preço eram claras e corroboravam a tese de Simon: tinham-se desenvolvido novas tecnologias de detecção e extracção de jazidas metálicas e tinham-se substituído alguns materiais por outros. Foram, designadamente, descobertas novas jazidas de níquel, o crómio passou a ser extraído de uma forma mais eficaz, o tungsténio foi substituído por cerâmica em utensílios de cozinha, e o cobre passou a ser substituído por fibra óptica, que é feita de areia, muito mais abundante.

O boom da população mundial

A questão do crescimento da população e da escassez de recursos do planeta esteve também subjacente a um famoso relatório do Clube de Roma, um grupo de notáveis fundado em 1968, que tem debatido a economia, o ambiente e o desenvolvimento sustentável. O relatório intitulou-se Os Limites do Crescimento (1972), elaborado por uma equipa do MIT, contratada pelo Clube de Roma e chefiada pela ecologista norte-americana Donella Meadows (1941-2001). A visão era pessimista: usando sofisticados modelos matemáticos, os cientistas do MIT chegaram à conclusão de que o planeta não suportaria o crescimento populacional devido à pressão gerada sobre os recursos naturais, incluindo as fontes de energia, e devido ao aumento da poluição, mesmo levando em conta os previsíveis avanços tecnológicos. Haveria problemas na qualidade de vida, a começar logo pela saúde. O relatório vendeu mais de 30 milhões de exemplares em 30 línguas, tendo-se tornado o livro sobre ambiente mais vendido de sempre.

Mas, décadas volvidas, podemos confrontar com a realidade as conclusões do relatório Meadows. Vários analistas concluíram que as equações dos modelos eram muito sensíveis a pequenas variações de alguns parâmetros, pelo que as suas previsões não se podiam considerar fiáveis. Além disso, ocorreram inovações, que, por definição, são imprevistas.

A previsão do crescimento da população mundial resistiu à prova do tempo. Projecções da ONU têm augurado o crescimento contínuo dessa população, que ultrapassou há pouco tempo os sete mil milhões de pessoas, de modo a ultrapassar os dez mil milhões antes do fim do actual século (em 2019 a ONU previa que os habitantes da Terra seriam 10,9 mil milhões nessa altura). No entanto, essas previsões podem revelar-se falíveis. Segundo um estudo do Instituto de Medição e Avaliação de Saúde da Universidade de Washington, publicado em Julho de 2020, no fim do corrente século a população mundial estará dois mil milhões abaixo das previsões da ONU. Haverá um pico de 9,7 mil milhões por volta do ano 2064, caindo para 8,8 mil milhões em 2100. A razão é a queda da natalidade em numerosos países. Portugal é um exemplo concreto: devido à falta de nascimentos, a população portuguesa cairá para metade antes do fim do século, tornando-se um dos países mais envelhecidos do mundo. À escala global, essas são boas notícias para o ambiente, uma vez que haverá menos pressão sobre ele. Mas para a economia dos países com maior decréscimo populacional, como é o caso português, as notícias não são boas. Não se vê como melhorar a situação a não ser com incentivos à natalidade e à imigração.

O clima e a energia

O relatório do Clube de Roma não foi alarmante sobre o aquecimento global. Esse é, porém, um problema que a ciência tem vindo desde então, e cada vez mais, a evidenciar, chamando a atenção dos políticos e da população em geral. Não restam dúvidas de que o nosso planeta está, em média, a aquecer e que esse aquecimento se deve à acção humana, designadamente aos processos de produção de energia, industriais e de mobilidade que levam a emissões de dióxido de carbono, que causam um excesso de efeito estufa. O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, da ONU tem produzido sucessivos relatórios alertando para as consequências em vários domínios que vão da meteorologia à saúde, passando pela biodiversidade. Fala-se até de uma nova era, o Antropoceno, caracterizada pelo nefasto primado da acção humana sobre o ambiente. Em 1997 foi assinado o Protocolo de Quioto, uma resposta política global à ameaça anunciada. Na sua sequência, foi, em 2015, assinado o Tratado de Paris por quase todos os países do mundo (os Estados Unidos assinaram, mas não ratificaram), um acordo para a diminuição das emissões de dióxido de carbono. As previsões sobre o clima e o ambiente a curto e médio prazo são feitas com bastante segurança, mas, como o problema é extremamente complexo, existe alguma incerteza quanto à amplitude da questão num prazo mais longo. Este é decerto um dos problemas maiores do mundo de hoje e paira a dúvida sobre o que vai acontecer.

Mais uma vez, como no caso da aposta Ehrlich-Simon é bastante possível que a inovação venha em nosso auxílio. Há já muito que se desenvolvem e aplicam tecnologias para obter energias por fontes alternativas aos combustíveis fósseis (recorrendo às energias eólica, solar, hídrica, etc.), que se procuram processos industriais mais sustentáveis (com menores emissões de gases de efeito estufa), e que se desenvolvem veículos com menos ou nenhumas emissões (os veículos híbridos ou eléctricos). O caso do petróleo é particularmente interessante. Vários especialistas têm tentado prever o fim do petróleo, uma vez que as reservas são evidentemente limitadas. Alguns disseram que estava quase a acabar. Mas o facto é que as novas tecnologias, como a extracção do petróleo de xisto, levaram a que ainda tenhamos reservas para cerca de 50 anos, continuando o consumo actual. A procura está a baixar, como é indicado pelos preços que, em média, estão a descer desde 2008 (na actual crise pandémica atingiu-se um mínimo de duas décadas). Embora seja desejável não depender dos combustíveis fósseis, o certo é que ainda dependemos em larga medida e não sabemos bem quando estaremos em condições de deixar de depender. Apesar dos seus riscos, o tema da energia nuclear voltou à baila, uma vez que não tem emissões de dióxido de carbono. Fala-se hoje muito em economia do hidrogénio, mas as previsões da sua implementação são muito incertas.

Os computadores e o futuro

Um desenvolvimento tecnológico vertiginoso e em larga medida inesperado ocorreu na área dos computadores. Se o mesmo desenvolvimento tivesse ocorrido na indústria automóvel hoje andaríamos de Ferrari pelo preço de uma bicicleta. São os nossos computadores mais poderosos que nos permitem fazer previsões sobre o futuro: num certo sentido, são as nossas bolas de cristal. No início da década de 60, quando os computadores pessoais ainda não existiam e a computação implicava grandes e dispendiosos monstros electrónicos, previa-se o triunfo a curto prazo da inteligência artificial, com os computadores a desempenharem muitas das tarefas humanas. Mas, apesar de o progresso ter sido lento, hoje o tema da inteligência artificial voltou em força (um marco desse desenvolvimento foi a derrota, em 1997, do campeão mundial de xadrez, Garry Kasparov, num jogo com uma máquina da IBM). Há quem anteveja que a inteligência artificial se vai desenvolver de tal maneira que haverá o que se chama uma “singularidade” daqui a cerca de 30 ou 40 anos, quando os computadores tiverem mais capacidade do que o cérebro humano. Seria o que poderíamos chamar “fim da história humana” e o começo de uma “história transhumana”.

A ideia, apesar de ser hoje muito debatida (Stephen Hawking e Ellon Musk chamaram a atenção para o perigo de um futuro transhumano) não é propriamente nova. O engenheiro norte-americano de origem austríaca Hans Moravec (n. 1948), da Universidade de Carnegie-Mellon, previu no seu livro Homens e Robôs. O futuro das inteligências humana e
robótic
(1988), que robôs inteligentes iriam acabar por prevalecer sobre os seus criadores. Tal supremacia deveria ocorrer cerca do ano 2040. Por essa altura, poder-se-ia fazer o download da mente humana para dentro de um robô, assegurando assim uma vida eterna. Em defesa da sua tese, Moravec confessa que nunca percebeu por que razão o Pinóquio, um boneco de pau, queria ser humano. Ele em criança sonhava ser Pinóquio, o que lhe garantia uma recuperação fácil na oficina do Mestre Gepeto em caso de um eventual acidente. O professor de Robótica diz que as pessoas preferirão ser robôs, com o hardware imperecível, e um software com capacidade para expansão para além dos actuais e frágeis limites humanos.

Não sei, tenho dúvidas… Os computadores são velozes processadores de informação, mas não são ainda conscientes. Nem se sabe se algum dia poderão ser: não falte quem diga que não. E, para um futuro decente, a consciência é essencial.

 

Por Carlos Fiolhais

 

*Professor de Física da Universidade de Coimbra

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