Almirante Reis – A pé pelo mundo todo

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A passar no Ramiro, uma voz brasileira robótica canta os números dos “próximo cliente”. Um sistema de senhas, multilingue, substituiu os nomes apontado num caderno e trouxe alguma organização ao caos da espera do restaurante mais famoso da avenida. Um homem carrega em várias teclas de uma caixa multibanco na esperança que por sorte lhe saia qualquer coisa. Um “espanhol” aborda-me a pedir indicações para a rua Vicente Borga, que fica na Madragoa. Diz-se perdido, sem rede e pede se pode usar o meu telemóvel para pesquisar a morada.

No supermercado Chen, vendem-se especialidades e especiarias africanas, tailandesas, chinesas e japonesas. Olho para o chão e encontro dez euros. Nunca é igual a passagem por esta avenida e aconselha-se o uso atento de todos os sentidos.

Era aqui que íamos ao dentista que fazia parte do corpo de médicos com protocolo com a Casa de Imprensa. Nos anos 80, esperava-se muito nos consultórios. Chegávamos pouco antes da hora marcada, mas não era para sermos atendidos que tínhamos de ser pontuais, mas sim para garantir que não passava ninguém à nossa frente. De modo que teríamos cerca de duas horas para matar, à espera naquela sala austera, de um primeiro andar com vista para a rua. De joelhos na cadeira junto à janela, acompanhava a atividade de uma prostituta que tinha “escritório” entre duas colunas do prédio em frente, e que trabalhava bem mais rápido que o nosso dentista. Ocupava o seu posto, direita com uma pequena mala que entalava debaixo do braço. Voltava ainda a endireitar a saia, esta senhora com ar de quem tinha netos já crescidos, e pouco tempo depois, com alguma negociação, ausentava-se outra vez com outro bêbado.

Nessa altura, os dentistas arrancavam muitos dentes e, no geral, os portugueses só iam ao dentista em dor, no limite. Na época, não era preciso muito para se decidir arrancar e a ordem de espera alterava-se também de acordo com o desespero dos pacientes.

A Almirante Reis ficava a algumas paragens de metro da nossa casa e era um destino para ir e vir sem desvios. Anos mais tarde, quando já saíamos à noite, contávamos histórias da insegurança nesse bairro, a evitar, e de como uma amiga tinha sido “salva” de assédio masculino por prostitutas, “deixem a menina!! Para isso estamos cá nós”.

Costumo entrar na Almirante Reis pelo cruzamento da rua de Angola e virar à esquerda na direção do Martim Moniz. A partir dali a experiência nunca é igual e os prédios, lojas e restaurantes que começam e acabam obras e que mudam de negócio, estão a aumentar a um ritmo alucinante. Hotéis que servem brunchs elegantes ao lado das lojas de tecnologia dos paquistaneses, que são vizinhos das mercearias dos bangladeshianos, que por sua vez estão coladas às joalharias dos indianos, junto aos supermercados de chineses, que vendem produtos de toda a Ásia.

Com tantas mudanças de bairros, era inevitável acabar por aqui vir morar, de maneira que subo e desço muitas vezes a Almirante Reis. Os mendigos e os sem abrigo substituíram as “mulheres da vida” e as caixas de cartão cobertas com cobertores e pertences de quem lá dorme, debaixo das colunas dos prédios são desoladoras.

Os turistas invadiram o Martim Moniz, sobem até ao Ramiro, pelo marisco ou pelo que é avaliado como o melhor prego da cidade, ou até ao largo do Intendente Pina Manique, onde há hotéis, esplanadas e lojas, mas à medida que se avança na direção do Areeiro, começam a rarear. De resto, cá para cima nos Anjos, continuamos a estar rodeados de pessoas de todo o mundo, mas, tirando os clientes dos alojamentos locais, a maioria são moradores. Vêm do Bangladesh, do Paquistão, Brasil, Angola, Moçambique, Nepal, entre tantos outros e as crianças chinesas adotam novos nomes, tradicionais portugueses como Beatriz, Inês, Leonor, Pedro, João ou José.

A avenida começa no Intendente (Santa Maria Maior), passa nos Anjos, Arroios, e termina no Areeiro, e, apesar de ainda inspirar alguns cuidados nalgumas zonas, tornou-se visitável. Melhor, tornou-se desejável e recomendável. O que até há uns dez ou quinze anos era impensável. E de tal modo, que Arroios foi eleito o “Bairro mais cool do mundo” para os leitores nacionais da Time Out. Cool é fácil porque é generalista e não temos de entrar em considerações “picuinhas” como desejar que as ruas fossem limpas com maior frequência ou que os recicláveis fossem recolhidos mais rápido. Tirando isso, sim é cool, porque é estimulante, divertido, inesperado e uma constante viagem. Seja pela variedade de restaurantes ou habitantes. Há muita vida nestas ruas que circundam a Avenida e até de noite há pessoas nos parques infantis.

No espaço de tempo em que quase morreu o comércio local, perderam-se relações com os vizinhos, com o merceeiro que encomendava aquele “produto especial para nós” e que nos guardava o pão, mesmo que chegássemos um pouco mais tarde do que o habitual. Esses espaços têm voltado a surgir e aos poucos as relações renascem. Agora falamos com o comerciante em várias línguas para nos entendermos e a cada dia que passa se torna mais fácil. O Moshiur é bangladeshiano e basta que lhe mande uma mensagem para vir até cá a casa com a botija do gás. Se precisar de alguma coisa fora de horas também lhe posso ligar. O restaurante Nepalês onde a senhora se ri quando as mulheres pedem álcool mas os homens não. O café Brick que se enche de turistas ao fim de semana e que é dos vizinhos nos outros dias, para onde levamos o computador ou nos servimos dos melhores jornais nacionais, sempre atualizados.

Agora, como não é dia de cozido no restaurante “A Casa do Miguel” e nem me posso meter num avião para ir até ao Vietnam, desço da Almirante Reis ao Martim Moniz. São dezoito minutos que levo a chegar ao Mercado Oriental, onde vou comer uma enorme malga de pho.

 

Por Marta Gonzaga

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