Ricardo Alexandre – O homem do leme

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Editei esta entrevista ao som do “Cerco”, dos Xutos & Pontapés, de um velho vinil demasiado riscado pelo uso, como acho que o Ricardo gostaria que acontecesse. Foi a ouvi-lo falar da banda do Zé Pedro que o conheci, no segredo mais mal guardado do Festival de Paredes de Coura, “fardado” com a t-shirt dos Xutos, como em todos os primeiros dias de festival, e das histórias infindáveis dos inúmeros concertos a que assistiu da banda. Por essa altura, já os contentores transbordavam de carga e todos éramos homens do leme.

Depois disso cruzámo-nos por diversas vezes, sempre circunstancialmente e inevitavelmente em Coura, até mergulharmos juntos no mar de Copacabana, bebermos uns chopes na Rua do Ouvidor e sambarmos no Carioca da Gema, na Lapa, numa gloriosa noite pré-eleitoral, ainda o fervor evangélico não envenenara o mais belo presente de Deus deixado à humanidade, a Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Durante esses quatro dias em que cobrimos as eleições brasileiras, aprendi, com o Ricardo Alexandre, a arte da reportagem. Sempre atento, sensível, cuidadoso, nada lhe passava ao lado. Da mais antiga banca de jornais da Zona Sul a Piauí, nome atirado ao acaso por Tom Jobim, só porque “soava bonito”, à frase “Larga esse ódio e vem-me amar” estampada na camiseta de um fiel apoiante de Bolsonaro; do jovem casal desiludido com o discurso de Fernando Haddad no Complexo da Maré, uma das mais violentas favelas do Rio; ao discurso crítico de um antigo colaborador da ditadura militar, na sua luxuosa cobertura do Leblon, ao futuro presidente, tudo era motivo de reportagem. Durante esses quatro dias, em pequenos apontamentos diários, o Ricardo Alexandre pintou um retrato tão real e humano do Brasil que me impressionou, embora não devesse, porque já me devia ter habituado à humanidade com que olha os locais que visita em reportagem. Afinal de contas, fora assim nos Balcãs, no Afeganistão, na Sérvia, na Palestina, no Irão, em Timor Leste, em Moçambique, em Cuba ou no Kosovo, onde, com as suas reportagens, nos ajudou a desmistificar as nossas arrogantes certezas e a olhar o mundo através dos olhos dos outros.

Desde o longínquo ano de 1986, em que começou a trabalhar na “pirata” Portucale, no Porto, por acaso, ou melhor, “por causa do nome” (havia outro Ricardo que tinha faltado), como nos conta com humor; em 1989 começou numa rádio legal, a “local” 7FM na Maia, antes da Press e da pública RDP, teve tempo para fazer de tudo um pouco: uma Licenciatura em Sociologia na Faculdade de Letras do Porto, um Mestrado em Sociedades e Políticas Europeias no ISCTE, um Doutoramento em Ciências Políticas, vertente de Relações Internacionais, também no ISCTE, de dar aulas de Jornalismo Político na Universidade Lusófona e de Jornalismo Radiofónico na Universidade de Coimbra, de escrever livros (“João Aguardela – Esta Vida de Marinheiro”; “Irão: o país nuclear”; “Palestina, Viver na Intifada” e “Por Uma Vida Normal – Guerra e Paz na Jugoslávia”) e participar com capítulos noutros, de ser galardoado com o Prémio Reportagem Rádio, do Clube Português de Imprensa, com o trabalho “Jugoslávia, Cicatrizes para o Futuro”, de participar num álbum de apoio ao Johnny Guitar, mantendo sempre a sua dedicação à rádio (7FM, Press, RDP e TSF).

O orgulhosamente portuense Ricardo Alexandre Encarnação Sousa, conversou com a BICA nas instalações da TSF, rádio onde é director-adjunto, sobre uma vida dedicada a contar aos outros, histórias de guerras e de esperança, de mágoas e de redenção.

 

As recorrentes notícias sobre a morte da rádio têm sido manifestamente exageradas?

A rádio é um meio com grande capacidade de resistência, de resiliência. Mas deixa-me começar por fazer um ponto prévio, um período antes da ordem do dia como se diz no parlamento (risos). Eu falo com todo o gosto para a BICA e para ti, em particular. Mas, se calhar, seria a pessoa menos indicada para falar em nome da TSF, ainda que faça parte da direcção, porque esta casa tem mais de trinta anos de história, e eu só estou cá há um ano e meio. Portanto, não seria, de todo, a pessoa mais indicada, se isto fosse uma entrevista sobre a TSF, em específico. Dito isto, sobre a morte da rádio… não sei. Acho que a morte da rádio foi anunciada várias vezes: quando apareceu a televisão; depois quando apareceu a televisão a cores; quando apareceu o vídeo; quando apareceu a internet; mas a verdade é que a rádio soube sempre reconfigurar-se e adaptar-se às transformações tecnológicas, às mutações na forma de comunicar, soube adaptar-se muito bem às mudanças de hábitos das pessoas.

A rádio é uma excelente amiga, porque não nos exige exclusividade. É a antítese das relações monogâmicas (risos). A televisão exige, muito mais, uma relação monogâmica, uma quase exclusividade – se não estivermos atentos a ver, perdemos, embora muitos de nós façamos da televisão uma espécie de rádio, vamos tratar da nossa vida para outra divisão da casa e fica a televisão a funcionar como se fosse uma rádio. Até nisso a rádio vale. Eu, nos anos em que estive a trabalhar na televisão, admito que ouvi menos rádio, mas usava os canais de notícias como se fossem uma rádio. Aquilo ficava ligado em altos berros, eu ia tomar banho, fazer a barba, vestir-me, tratar da criança… e funcionava como se fosse a rádio.

A forma como hoje a rádio é consumida, pelo modo como a internet se massificou, prova também a sua vitalidade. Tradicionalmente, e eu acredito que ainda assim seja, até porque a publicidade assim o reflecte, ou melhor, a pouca publicidade na rádio assim o reflecte, a força da rádio estava nos chamados períodos de drive in e drive out, isto é, nos horários matinais e nos horários de fim de tarde, quando as pessoas estavam nos carros. A rádio continua a valer muito por isso, mas também começa a valer, cada vez mais, fora desses períodos. Aquele fosso enorme entre a manhã e o fim de tarde, hoje em dia, esbateu-se. As manhãs e os finais de dia passaram a ser apenas uns períodos de pico e o resto do dia já mantém uma audiência mais consolidada e não estou a falar da TSF, estou a falar da rádio em geral. As pessoas, cada vez mais, têm formas de ouvir o que querem sem perturbar o parceiro do lado, durante os períodos em que estão a trabalhar. Muita gente continua a ouvir rádio nos escritórios, nos sítios onde trabalha, com auscultadores, da forma mais discreta possível, e isso acabou por se reflectir nos estudos de audiência das rádios. Por outro lado, e apesar de Lisboa e Porto ainda terem problemas muito complicados de acessibilidades, as pessoas conseguem chegar rapidamente a casa, e ao chegarem rapidamente a casa, o drive out da rádio encolheu um pouco. Hoje, muita gente já chega a casa às sete horas e já não está a ouvir rádio, liga a televisão. A noite é cada vez menos da rádio e cada vez mais das televisões com a enorme diversidade de oferta que existe, e não estou a pensar nos canais tradicionais e nem sequer no cabo, mas em todas as plataformas que existem. Isso também se reflecte na forma como a rádio é consumida. Representa uma excelente oportunidade que acho que a TSF tem liderado, pela enorme quantidade de produtos que oferece em podcast. O podcast é cada vez mais um instrumento que demonstra a vitalidade das rádios. No caso da TSF, temos cerca de cem produtos diferentes em podcasts, o que representa uma oferta brutal.

Curiosamente o podcast acaba por ser um regresso, e corrige-me se estiver errado, a uma certa forma de fazer rádio que remete para o programa de autor.

Pode ser. Depende de como se encara, … mas sim, acho que sim. Acho que todos nós, que gostamos de rádio, e eu gosto muito de rádio, pensamos sempre em muitas coisas diferentes para fazer. Depois entram outras questões, sobretudo a falta de tempo para fazer tudo aquilo em que pensamos. Mas sim, claramente sim. Acho que o podcast pode remeter mais para essa rádio que, de alguma forma, se foi perdendo …

… mas que ainda é a grande referência. Quando pensamos em rádio, quando pensamos no impacto que a rádio teve, no caso português em particular, associamos sempre a vozes, a caras, a programas de autor.

Sim, não podia estar mais de acordo. Muito daquilo que a rádio é, e daquilo que a rádio vale, deve-o a programas que têm uma marca forte dos seus autores, das pessoas que os fazem. Sendo que, jogando contra isso, está uma determinada forma de fazer rádio, muito centrada em playlists fechadas…

O que não acontece nas rádios de informação, ou mais vocacionadas para a informação, como a TSF, a Antena 1 e a Renascença.

Atenção que a Antena 1 e a Renascença não são rádios de notícias. Têm um peso forte de informação, mas não são rádios informativas, ainda que as pessoas que lá trabalham na informação, eu incluído que, durante muito tempo, trabalhei na Antena 1, tivéssemos gostado que assim fosse. No caso da Antena 1, há, sempre, a necessidade de compromissos, fruto das obrigações de serviço público que a rádio tem.

Institucionais?

Institucionais.

E políticos?

E internos e endogâmicos. Não diria políticos. Tem necessidade de respeitar, ou tem querido respeitar, ou a tutela tem querido que a rádio respeite, equilíbrios internos. Seja qual for a razão, não é uma rádio informativa. A única rádio de notícias do país é esta! E é a única rádio do país verdadeiramente independente, sendo é um projecto quase singular em termos europeus. Não há rádios privadas europeias de notícias. Há projectos que nasceram com uma vocação para as notícias que, entretanto, se perderam. Mas uma rádio, há 30 anos a fazer notícias, e a viver de notícias, só há esta. Com as dificuldades que isso traz. Porque as notícias não são uma coisa atraente para o mercado publicitário. Isto seria muito mais fácil se puséssemos quatro pessoas aos guinchos e três às gargalhadas. Aí, teríamos, certamente, muitos hipermercados interessados em patrocinar.

No entanto, têm um dos programas mais antigos da rádio, o Fórum.

Claro, mas o Fórum é quase… brilhante.

Um exercício de democracia…

Um exercício de democracia brilhantemente moderado pelo Manuel Acácio. Faz parte do ADN desta rádio.

Não achas que é um programa atractivo para um investidor publicitário?

Acho que são todos atractivos. Venham eles, venham todos (risos). Agora, não é aquilo que se possa chamar de trend.

Eu nunca geri uma rádio de entretenimento, embora tenha acompanhado de perto. Estive por dentro de alguns processos, e percebi como as coisas funcionavam, mas nunca estive verdadeiramente com as mãos na massa. Não faço ideia do que é gerir uma Comercial, uma RFM. São outras realidades.

Porque é que escolheste a rádio?

Porque escolhi a rádio? Poderia dizer que foi a rádio que me escolheu a mim. Mas não seria verdade (risos). Eu tinha começado há relativamente pouco tempo, estamos a falar de 1985/1986, a ir ver concertos dos Xutos, tinha 15,16 anos, e um dia estava em casa, e um amigo meu com quem ia ver os concertos, que tinha, umas semanas antes começado a trabalhar numa rádio local no Porto, bateu-me à porta de casa, num sábado à hora de almoço, e perguntou: “Queres ir fazer um programa de rádio?”, e eu respondi: “Mas vou fazer um programa de rádio, porquê?” “Porque o gajo que falta chama-se Ricardo”, disse. Sinceramente, na altura, não ponderei muito bem sobre a irracionalidade do argumento, mas aceitei. “Está bem. Já almocei. Vamos.” (Gargalhada). Foi só assim. Comecei a trabalhar em rádios locais…

… ainda piratas, imagino.

Ainda piratas. Quase sempre em programas de música moderna portuguesa e depois, em ‘89, fiz um curso de radiojornalismo, coordenado pelo saudoso mestre António Jorge Branco, com outros grandes professores, desde logo, o Adelino Gomes, desde logo, que dava o primeiro módulo do curso, o Manuel António Pina, uma data de gente a quem, agora, até faz sentido prestar homenagem, porque já não estão entre nós. O Professor Paquete de Oliveira, que dava “Sociologia de Audiovisuais”, o Celestino Amaral que dava “Grande Reportagem”. Uma série de pessoas, que infelizmente, já partiram.

E que te marcaram.

E que me ensinaram bastante… que me ensinaram bastante. Nós tínhamos um grupo muito coeso, graças ao espírito de equipa que o António Jorge Branco soube criar e vivíamos aquilo com um espírito crítico muito forte. Estávamos lá de manhã à noite, no CFJ (Centro de Formação de Jornalistas do Porto). O António Jorge Branco pôs-nos a trabalhar em registo simulador, por- tanto, estávamos a funcionar como se fôssemos uma rádio a sério, das 7h da manhã às 8h da noite. Às 8h da noite íamos jantar e íamos todos para os copos e, depois, já era tarde demais para ir para casa (risos).

Há gravações?

Eu tenho momentos desse curso. Há muita gente que está aí no mercado, na RTP, no Público, na Visão, uma data de gente que continua a trabalhar em jornalismo. Éramos 17 e acho que mais de metade ou cerca de metade continua na profissão, o que tendo em conta que se passaram trinta anos, é notável. Precisamos de fazer um jantar comemorativo disso. Quando acabámos o curso, nesse mês de Dezembro de ‘89, achávamos que éramos os melhores jornalistas do mundo, e já ninguém nos ia parar (risos). Ingénuos! Tínhamos tanto para aprender, cometíamos tantos erros…

Quando acabaste o curso foste trabalhar para onde?

Para uma rádio local, na Maia, a 7FM. Depois, para a Rádio Press. A Rádio Press era uma rádio a quem fora atribuída a frequência regional do Norte. Portanto, dividia com a Correio da Manhã Rádio, o país. Depois, vim trabalhar para Lisboa. E, depois aconteceram duas coisas, que por acaso acho que nunca contei e que posso contar. Quando a Rádio Press, a partir de uma determinada altura se decidiu mudar para Lisboa, era o editor da manhã, e tinha mais três pessoas na minha equipa. Um dia, tivemos uma acção de formação, com um formador que era jornalista da RDP, o Carlos Madeira, de quem vim a ser companheiro de redacção. O Carlos Madeira estava a dar a formação fora do nosso horário de trabalho, mas eu com os meus 21 aninhos, tive a lata de lhe dizer: “O senhor devia era vir acompanhar o nosso trabalho de manhã, às seis da manhã, quando começamos a trabalhar”. E ele foi. Marcou o dia, e foi. Aconteceu que, nessa manhã, as outras três pessoas da minha equipa adormeceram, e ninguém apareceu. E, portanto, eu fiz noticiários de horas, de meias horas, revista de imprensa, síntese de desporto, fiz tudo. Sozinho. E o homem ficou impressionado. Correu-me bastante bem. Uns tempos depois, nessa mesma equipa de quatro pessoas, adormecemos três e um dos três fui eu. E o que ficou, que cumpriu o seu dever profissional, era a pessoa com menos experiência de rádio, era uma pessoa que vinha dos jornais, aliás, continuava a trabalhar nos jornais, aquilo era mais ou menos uma espécie de part-time. E a coisa correu muito mal. Passados dias foi-nos comunicado que os nossos contratos não iriam ser renovados (risos).

Eu tive sempre um percurso estranho. Estava a trabalhar em Lisboa, mas estava a fazer o curso de Sociologia na Universidade do Porto. Aproveitei que tinha uns exames, umas frequências, fui para cima e não disse nada à minha mãe, disse só que estava no Porto para fazer uns exames, e quando vim, lembrei-me de ir bater à porta da Rua do Quelhas, onde ficava a RDP, e pedi para falar com esse jornalista que nos tinha dado a formação.

O Carlos Madeira.

O Carlos Madeira. Recebeu-me um bocado à pressa, estava a preparar-se para apresentar o RDP Regiões estava atrapalhado, e disse: “Eh pá, agora não tenho muito tempo para falar contigo, mas manda o teu currículo que eu falo com o director, porque sei que ele está à procura de gente nova”. E assim foi. Entrei para a RDP. Onde acabei por ficar vinte e cinco anos, sendo que na Rádio Press já era editor e subchefe de redacção e tive de aceitar ser jornalista estagiário do primeiro ano. Mas, pronto, é a vida, não é? (Risos).

O engraçado disto tudo é que na noite em que eu prevariquei e que me fez adormecer e não ir trabalhar no dia seguinte, foi uma noite que ficou registada, porque eu estava na sala de ensaios dos Sitiados onde foi gravado um tema para uma colectânea de apoio ao Johnny Guitar, o bar do Zé Pedro, do Kalú e do Alex Cortez. E estando lá, participei numa música, a “Marcha dos Electrodomésticos” que é uma versão que o João Aguardela brilhantemente fez do tema “A minha sogra é um Boi” dos Mata Ratos, e onde eu, no final, relincho, faço de cavalo (risos). É a minha única participação musical num CD, que fica ligada à não renovação do contrato que, por sua vez, fica ligada à entrada na RDP.

Quem foram os teus grandes mestres da rádio?

O António Jorge Branco, acima de todos. O Adelino Gomes, por aquilo que significa para toda a gente que faz rádio e que faz jornalismo em Portugal. O David Borges que é um excelente director. O Luís Ochôa, pelas oportunidades que me deu. Também já não está entre nós, infeliz- mente. O Francisco Sena Santos, porque não há ninguém com a capacidade que ele tem para motivar aqueles que trabalham perto dele. Absolutamente extraordinário. Ele era director adjunto e editava as manhãs da Antena 1. Eu editava à noite, e ele ouvia-me à meia-noite todos os dias. Eu duvidava. Dizia-lhe: “Não ouviste nada. Estás a dar palmadinhas nas costas e a dizer que foi espectacular, mas não ouviste nada”; e ele começava a dar pormenores daquilo que tinha ouvido, o que achava que tinha funcionado melhor e o que tinha funcionado menos bem. O Sena é… é absolutamente genial. É das pessoas que mais falta faz na rádio. Depois, há um conjunto de pessoas, umas estão aqui hoje e outras não estão, que me habituei a ouvir nesta rádio, e que também foram um dos motivos que me fizeram aceitar este desafio. Há uma série de coisas absolutamente fantásticas que foram feitas na rádio, que foram feitas aqui, pelo João Paulo Guerra, pelo Fernando Alves, que ainda está cá hoje, por uma série de outros jornalistas e isso pesou na decisão de poder abraçar um desafio novo ao fim de 25 anos de empresa pública.

Como está a correr esse desafio?

Está a ser estimulante. Conseguir melhores meios, conseguir reforçar a área do internacional para posicionar melhor a TSF, acho que esse trabalho tem sido feito. Não digo que consegui fazer tudo o que queria, mas a TSF, hoje, tem quase o dobro dos correspondentes internacionais que tinha quando eu entrei. Consegui, numa janela de oportunidade que surgiu, que algumas pessoas pudessem ser convidadas a colaborar com a TSF. Não pagamos colaborações de forma principesca, mas como as pessoas respeitam mui- to esta marca, aceitaram. É uma marca muito forte em termos de jornalismo em Portugal e as pessoas, quer estejam cá ou fora do país, que conhecem a realidade do panorama da comunicação social em Portugal, percebem que para a sua valorização profissional, passar pela TSF ou colaborar com a TSF é muito importante para um currículo. Por isso, está a ser bastante bom. Depois, também queria trabalhar com algumas pessoas que me são muito próximas e que estão na direcção comigo. Desde logo, o meu director, o Arsénio Reis, o Pedro Pinheiro que é director adjunto, o Anselmo Crespo, que eu não conhecia, mas com quem tem sido bastante estimulante trabalhar.

Quais são os desafios que se colocam ao futuro da rádio?

Aquilo que distingue a TSF de qualquer outro projecto jornalístico em Portugal é que a TSF tem duas características que, cumulativamente, não existem em mais lado nenhum. Esta é uma rádio só de notícias e esta é uma rádio plural, não é um projecto político. Aqui há comentadores de direita, há comentadores de esquerda e há comentadores de centro, e a opinião faz-se com todos e queremos que assim continue. Aqui, temos um accionista angolano e continuamos a dar notícias de Angola sejam elas quais forem, feitas com rigor, feitas com sentido crítico, feitas com deontologia. Aqui, há um investidor chinês e nós continuamos a dar notícias da China, falamos dos protestos de Hong Kong e apostamos em fazer a melhor cobertura possível desses assuntos. Não sei se há esse tipo de independência em relação a outros tipos de poderes em outros projectos jornalísticos que se assumem como projectos de notícias. A pluralidade, a independência e a credibilidade são o grande património da TSF. Por isso, se me perguntas qual o futuro da rádio, eu diria que num projecto de rádio de notícias, a manutenção destes três pilares é essencial.

Chegaste à TSF num ano com três eleições muito impactantes no país: as eleições presidenciais brasileiras, as europeias e as legislativas. O acompanhamento jornalístico das eleições mudou muito?

Mudou, porque existe um peso do online, obviamente, diferente. Aliás, o grande investimento nesta redacção, tem sido no reforço da equipa online, com resultados muito interessantes, muito interessantes mesmo. Tivemos meses seguidos com mais de um milhão de visitas ao site o que é bastante bom. Fomo-nos posicionando em lugares cimeiros nos sites de informação mais vistos. Sendo que a TSF é uma rádio. Tivemos esse dilema, de apostarmos num site de informação ou num site de rádio, ou seja, de apostar-mos num site que produzisse informação ou que fosse apenas um repositório daquilo que a rádio faz na antena. O que estamos a tentar fazer é produzir um site de informação. Obviamente que sites que nascem como projectos de sites de notícias, como foi o caso do Observador, e nesse aspecto é um projecto altamente bem conseguido, ou sites de notícias que pertencem a jornais, são mais fáceis de fazer, pelo simples facto das pessoas estarem mais treinadas para escrever textos. Um jornal, quando fecha a sua edição impressa, tem dezenas de textos que podem ser aproveitados, que são diariamente aproveitados para a sua edição online. Podemos dizer que a linguagem não é a mesma, que obriga a refazer coisas, claro que sim, mas a base está lá. Na rádio, obviamente, isso não acontece, o que obrigou os jornalistas da rádio a terem outro tipo de preocupações, a escreverem de outra forma, a tentarem gerir o seu tempo de outra forma, porque sabem que, muitas vezes, aliás, cada vez mais, têm de fazer a história para a rádio e têm de fazer a história para o site. Depois põe-se a questão do que é prioritário. É a antena ou é o site? É evidente que, tradicionalmente, o que conta é a rádio, não é? Afinal de contas, isto é uma rádio, mas se analisarmos melhor, a maior parte dos, não gosto nada deste termo, mas não me ocorre outro melhor, consumidores desta marca já estão mais online do que na antena e isso obriga a reconfigurar a linguagem. Nós crescemos num ambiente em que nos diziam que a rádio conta, a televisão mostra e o jornal explica. Também ouvíamos dizer, principalmente aqueles que trabalhavam na rádio, que temos de explicar, contar tudo muito bem e em poucas palavras e da forma mais clara possível porque as pessoas ouvem uma vez e já não podem voltar a ouvir. É mentira. Hoje, isso é mentira. Hoje as pessoas, e cada vez mais vai ser assim, ouvem e param e voltam atrás para ouvir melhor. Por isso, até que ponto a nossa linguagem não deve reflectir isso? Até que ponto não devemos escrever de forma diferente, eventualmente usando uma linguagem mais elaborada? Não tenho ideias fechadas em relação a esta questão. A verdade é que hoje em dia a rádio mostra, a rádio conta, a televisão mostra e está a contar o tempo todo. Já ninguém espera pelas oito da noite para ouvir notícias. Já não é preciso. Os jornais já não esperam pelo dia seguinte, pela edição impressa, para contar e analisar e explicar. A internet modificou tudo e obrigou-nos, a todos, a fazer de tudo um pouco. Na TSF também já fazemos vídeos, já temos uma pequena equipa, gostávamos que fosse maior, mas temos uma pequena equipa a trabalhar o vídeo. Também estamos a melhorar a nossa rede de correspondentes nacionais, quando quem mais tem obrigação de o fazer foi desinvestindo ao longo dos últimos vinte anos.

Qual foi a história mais rocambolesca que te aconteceu ao longo destes trinta anos de jornalismo?

Aconteceram-me muitas, mas vou contar algumas histórias marcantes, mais relacionadas com viagens e coberturas internacionais e no final uma gafe (risos).

Um dia estava na Bósnia, com um conjunto de jornalistas portugueses, a Isabel Magalhães e o Hélder Oliveira, da RTP, mais uma pessoa que trabalhava aqui na TSF, na altura, e que já não está. Estávamos com um subchefe da polícia portuguesa que nos disse que conseguia orga- nizar uma entrevista com Momcilo Krajisnik, que era o Presidente da Assembleia Nacional da República Sérvia da Bósnia. “Se vocês quiserem falar com ele, eu consigo-vos uma entrevista, porque salvei o irmão dele de ser preso, aqui, em Sarajevo, portanto, se vocês quiserem eu levo-vos lá. “O tipo era só a segunda figura mais importante a seguir ao Radovan Karadzic do lado dos sérvios bósnios e os jornalistas ocidentais raramente iam ao outro lado, nessa altura, ficavam todos a assistir ao briefing que as agências da comunidade internacional faziam. Aceitámos imediatamente e ele levou-nos lá. Esperámos um bocado, veio o tal irmão, agradeceu ao polícia português, recebeu-nos bem e informou-nos que Momcilo Krajisnik já nos iria receber. Recebeu-nos e durante a entrevista disse-lhe: “O senhor revela tanta confiança em relação ao futuro da República Sérvia da Bósnia, no entanto, como é que isso é possível, quando o senhor e o Presidente Karadzic já foram indiciados por genocídio e crimes contra a humanidade pelo Tribunal Internacional de Haia?” Ele respondeu dizendo: “Dou-lhe a minha opinião, mas em relação ao Presidente Karadzic, tem de lhe perguntar a ele. Ele está cá e terá o máximo gosto em receber-vos”. Por isso, entrevistei o Radovan Karadzic assim. Não foi nada programado ou tentado durante meses, foi assim. Aconteceu assim. Estivemos mais duas horas à espera que o homem acabasse as reuniões dele e entrevistámo-lo durante 20 ou 25 minutos.

No Rio de Janeiro, o Francisco Sena Santos deu-me a oportunidade de fazer um dos trabalhos mais extraordinários da minha vida. Foi em 2000, quando se comemoraram os 500 anos do Achamento, ou da Descoberta do Brasil. As come- morações iam ser assinaladas pelo Presidente Sampaio, em Abril, e eu fui em Fevereiro com o objectivo de viajar um mês pelo Brasil utilizando o menos possível o avião. A ideia surgiu daquele filme Central do Brasil, com a Fernanda Monte- negro, e implicava fazer a maior parte das deslocações de ônibus, de autocarro. Mas, ao chegar ao Rio de Janeiro, ainda antes de ir ver onde era a Central do Brasil, pouco depois de me ter instalado, estava no hotel e comecei a pensar em quem seria a pessoa, no Brasil, que eu gostava de entrevistar. E pensei no Oscar Niemeyer. Fui à lista telefónica e encontrei um número de um Ocar Niemeyer na Avenida Atlântica. Liguei e ele atendeu. Isto hoje era impossível. Hoje teria de se passar por agências de comunicação, assessores de imprensa… Ele atendeu e passado umas horas eu estava a entrevistar o Oscar Niemeyer na sua casa na Avenida Atlântica. Uma das mais incríveis entrevistas que fiz.

Em Timor Leste, com mais alguns jornalistas, o Hernâni Carvalho, que hoje não trabalha como jornalista, mas como apresentador, digamos assim, e outros jornalistas, aventurámos-nos a ir para o lado de Timor Indonésio, Timor Ocidental. Tínhamos conseguido um visto para poder estar no lado de Timor Indonésio, portanto, fiquei muito irritado com o Hernâni que insistiu em fazer o caminho pelas montanhas, em vez de irmos pelas estradas normais. Íamos perder imenso tempo entre Cupangue, aonde íamos aterrar, e Atambua, onde estavam as milícias de Eurico Guterres. Fomos de Dili para Cupangue num voo do Programa Alimentar Mundial e tínhamos de fazer todo o território de Timor Ocidental em direcção, outra vez, a Timor Leste. Ora, existia uma estrada normal, não que fosse muito boa, mas era uma estrada normal, uma via rápida, digamos assim, mas o Hernâni quis ir pelas montanhas. Quatro marmanjos, aliás, cinco com o motorista, numa carripana, íamos demorar dias, íamos ter que dormir no carro, etc., e eu não via necessidade disso e lá fui dizendo “isto é uma estupidez, é um erro, nós temos visto, não precisamos de ter medo, etc., etc.” A verdade é que fomos pelas montanhas e o carro avariou no meio de nenhures. E eu mais fulo da vida fiquei. De repente, chega, numa motoreta, um tipo de camuflado e calças de fato de treino cor de rosa. Que combinação! Hoje poderia ser…

… um reggaeton.

Isso, um reggaeton (risos). Era uma figura. Um homem de bigode, uma barbicha… era um timorense que estava num campo de refugiados, gerido por um padre americano, que, ao contrá- rio de quase todos os outros por onde tínhamos passado, não tinha recebido sequer uma visita de uma agência internacional, não tinha tido apoios. Era uma história maravilhosa. Claro que o Hernâni ficou radiante da vida e depois repetia uma frase que o motorista e tradutor nos dizia muitas vezes durante a viagem: “tem de ter confiança no parceiro”. (Gargalhada) Foi uma história engraçada.

Esses anos entre 1999 e 2001 foram anos espectaculares e de que guardo as histórias mais rocambolescas. Em 2001, na Primavera, estive em duas frentes de combate. Na Faixa de Gaza, na zona de Khan Yunis, no Sul, fui a um campo de refugiados que ficava junto a um colonato. Estava eu e um repórter de uma televisão egípcia a entrevistar uma família de refugiados junto a uma tenda e fomos alvejados a partir dos colonatos. Acho que foi só para assustar, porque era tão perto que, se quisessem matar mesmo, tinham matado. Mas deu para assustar… deu para assustar.

A segunda foi no sul da Sérvia, no Vale de Presevo, uma zona em que havia um exército albanês que queria a separação do território, como acontecera no Kosovo. Ainda hoje é uma zona complicada, de maioria albanesa. Eu tinha ido com uma patrulha policial militar sérvia a uma zona da linha da frente e ia com uma assessora do centro de imprensa daquela terriola e ela disse-me:“Eles estão a dizer que quando pararem o jipe vamos ficar em frente daquela casa. Mas o jipe não pode ir até lá, tem de ficar a pelo menos 200 metros e quando pararmos, tens de correr porque eles aqui disparam sempre.” O bom do tuga pensou “ai disparam sempre! Podem disparar ou não disparar”. Saímos e eles dispararam mesmo. Depois vimos os buracos que os disparos tinham provocado nas paredes da casa e foi um susto. Foi dos maiores sustos que apanhei na vida. Foi a coisa mais estúpida, mais irresponsável que fiz.

De outra vez, estava com o Paulo Maio Gomes, um repórter de imagem da RTP, meu grande amigo, no Afeganistão, em 2001, e fomos a uma zona onde ainda havia combate das tropas da Aliança do Norte contra os talibãs e estávamos no lado das tropas da Aliança do Norte e aquilo parecia quase uma guerra do Solnado, o que é típico no fim dos conflitos armados. Nós fomos de táxi.

Parece mesmo a guerra do Solnado. Entraram no táxi e disseram: “Leve-nos à guerra.”

(Risos). Isso mesmo. Saímos do hotel, de táxi, para o sítio X. Estavam lá outras equipas de televisão e uns tipos a disparar de um lado para o outro. O perigo era esse. Estamos no meio de uns soldados, eu com um microfone da RTP na mão e um dos guerrilheiros da Aliança do Norte, um rapaz com a arma a tiracolo, tira-me o microfone e eu, instintivamente, tirei-lhe a arma. Os outros, automaticamente, apontaram as armas para mim, gerou-se um stress brutal, o Paulo Maio Gomes insultava-me de tudo, à moda do Porto, de onde somos ambos, e eu, muito calmamente, disse ao rapaz: “That ́s mine, that ́s mine, you give me that, and I’ll give you this”. Isto, com a maior frieza do mundo. Todos a olhar e o rapaz deu-me o microfone e eu devolvi-lhe a kalashnikov. Aquilo correu bem, mas podia ter corrido tão mal, podia ter corrido tão mal… Porque é que eu não o deixei ficar a brincar com o microfone o tempo que quisesse, não é? Mas o microfone é a nossa arma e na nossa arma não podem mexer, ponto.

E a gafe?

A gafe é outra história. Estava nos estúdios da Antena 1, no Porto, a fazer noticiário à noite e a produtora ou secretária da redacção, como na altura se chamava, diz-me pelo intercomunicador que um avião no aeroporto de Santa Catarina, no Funchal, tinha sido forçado a regressar à pista por causa de um problema qualquer e que ia um repórter a caminho. Dou a notícia nos títulos de abertura do jornal como notícia de última hora a que voltaria mais adiante. Seguiu o noticiário normalmente. E ela entra no estúdio e põe-me um papel em cima. Eu olho e leio “José Manuel Delgado” e digo: “Voltamos à notícia de abertura deste jornal, ao caso do avião forçado a aterrar de emergência no aeroporto de Santa Catarina, no Funchal. Em directo o repórter José Manuel Delgado”… silêncio. “Estamos a tentar o contacto com o José Manuel Delgado…”. Silêncio. De repente, há uma voz que diz “Boa noite o meu nome é José Manuel e sou delegado da TAP e sou delegado da TAP na Madeira.” (Gargalhada). Todo o resto do noticiário foi de uma dificuldade tremenda para não rir.

 

Por João Moreira

Fotgrafia: Bruno Esteves

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