Retrocolonizadores

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Conversámos no Adamastor – com vista para o Tejo, esperando aquele pôr-do-sol tão único,
num dos locais de Lisboa onde é mais evidente a nova onda de emigração brasileira na cidade
– com Vítor, Carolina e Marcela, três cariocas que trocaram o calçadão e o choppe pelo
Bairro Alto e a mini. Quisemos saber o porquê de saírem do Brasil, da escolha de Portugal,
entender o que acham da experiência aqui. Uma conversa tranquila, em volta de cervejas,
onde o carioquês foi a língua oficial e onde também falámos das diferenças dentro da nossa
língua comum.
Carolina tem 28 anos, é designer e mudou-se para Lisboa há dois anos, altura em que deu um
prazo de 4 meses para encontrar emprego na sua área de trabalho. Conseguiu, entretanto
mudou de trabalho dentro da mesma área, e hoje está estabilizada numa multinacional.
Marcela tem 27 anos, veio pela primeira vez para Portugal para estudar turismo em Évora,
depois estagiou num operador turístico, no qual ficou a trabalhar até hoje.
Vítor tem 31 anos, é designer, chegou há cerca de ano e meio e veio com um prazo de um
ano para conseguir um emprego relacionado com a sua área, acabando por conseguir esse
emprego passados 7 meses e nele permanecendo até hoje.
Todos são cariocas e um bom exemplo da nova vaga de emigração do Brasil para Portugal,
feita de gente jovem, de classe média, formada, viajada e moderna, que vem em busca da
segurança, tranquilidade e qualidade de vida que o Brasil de hoje não lhe pode dar.

Porque é que vocês saíram do Brasil?

Carolina: Eu morei há uns anos atrás no Porto, gostei muito e queria morar fora de novo, o que, aliado à confusão que ficou o Brasil e à insegurança que eu sentia lá, foi o que me fez mudar.

Marcela: Eu sempre pensei sair do Brasil, mas nunca tomei iniciativa, até que vim visitar uma amiga ao Porto, em 2011, gostei muito e falei “quero morar em Portugal”. Aí corri atrás das coisas e em 2012 vim para estudar em Évora.

Vítor: Também sempre tive vontade de sair do Brasil, porque sim, sem motivo específico, mas não tinha tido condições financeiras para sair. Quando consegui estabilizar a parte financeira, coincidiu com o Brasil não estar num bom momento, além da insegurança no Rio, e foi tudo o que eu precisava para sair. Assim que consegui o dinheiro para vir, logo de seguida eu fui assaltado e aí falei “bom, é um sinal que é o momento de sair”.

 

Porquê Portugal? Vocês falaram que estavam a pensar em sair do Brasil, mas porquê Portugal?

Carolina: Bom, eu vim a primeira vez para o Porto em intercâmbio da Universidade. A escolha foi muito por conta da língua, pois apesar de também saber falar inglês, nos países de língua inglesa era muito mais difícil passar nas provas para entrar. De uma forma geral foi assim que eu escolhi Portugal na primeira vez, não é uma grande forma de escolher, mas quando vim gostei muito e não me arrependo nem um pouco de ter tomado essa decisão. Agora, de uma maneira geral, também escolhi por causa dos laços com a família que tenho morando aqui, para além da língua, claro.

Marcela: Para mim também foi mais ou menos isso. Teve a questão da língua, depois eu conheci e gostei muito do país e quis vir morar aqui. Eu sou muito imediatista, quando decido alguma coisa quero logo fazer e como Portugal era muito mais simples, eu não precisei fazer prova nenhuma para entrar na Universidade, vim com transferência.

Carolina: Eu acho que muitos dos brasileiros acham que Portugal é uma boa porta de entrada para a Europa para depois se mudar, entretanto a maioria deles que eu conheço acabou ficando aqui.

Vítor: Sim, foi o que aconteceu comigo. Na minha ideia, Portugal era só o primeiro passo para entrar na Europa e para procurar emprego em qualquer outro lugar, por conta do passaporte (tenho cidadania portuguesa). Mas eu gostei muito de ficar aqui, acho que vejo muito do Rio de Janeiro em Lisboa, para mim foi uma receção muito tranquila, tinha um amigo que se tinha mudado faz pouco e logo conheci outros brasileiros que ajudaram a ficar e a criar laços. Não tenho nenhum familiar aqui, o facto da minha família ser portuguesa ajudou, mas a ideia de vir para cá era basicamente financeira, porque é dos países mais baratos da Europa.

 

Quais são grandes qualidades e defeitos que vocês vêem em Lisboa? Podem falar mal à vontade.

Marcela: Eu posso falar mal?

Pode e deve, a ideia é essa.

Marcela: Nem sei bem exatamente o que eu não gosto em Lisboa. Eu simplesmente não gosto (risos). Sabe quando você não se identifica com a cidade? Ou com alguma coisa? É isso. Eu não me identifico com Lisboa

Ou seja, a sua ideia vai ser sair daqui?

Sim a minha ideia é sair de Lisboa.

Mas para outro lugar em Portugal ou para a Europa?

Marcela: A minha ideia agora é me mudar para o Porto. Eu tento aproveitar o máximo o que Lisboa tem para me dar, gosto muito da oferta cultural, adoro comer em restaurantes e aqui tem muita opção, mas eu simplesmente não me identifico. É uma cidade com a qual particularmente eu não tenho empatia, não é que eu odeie ou que nunca mais me vejo morando aqui, mas por agora não é o meu lugar, definitivamente.

Carolina: Eu gosto de Lisboa, mas não é a minha cidade favorita. Eu também sou mais fã do Porto, sinceramente. Aqui no começo foi muito difícil e a primeira vez que eu morei no Porto as pessoas eram bem mais calorosas, me receberam muito bem e estavam sempre bem-dispostas, aqui tive mais dificuldade de fazer amigos e de me enturmar. Uma vez eu escutei de uma pessoa que mora em Lisboa dizer “realmente nós somos muito mal-acostumados, porque nós nascemos em Lisboa, estudamos em Lisboa, fazemos faculdade em Lisboa, então nossos amigos são daqui e a gente não faz questão de ter novos amigos se os nossos amigos já tão bons”. Assim é difícil de entrar num grupo.

Acaba por ser mais fácil em grupos de pessoas que não sejam de Lisboa?

 Carolina: Exatamente. Então houve esse primeiro choque, o meu primeiro ano foi muito difícil, porque eu venho de uma cidade em que você faz amigos na rua, podem não ser amigos para a vida, mas você acaba encontrando as pessoas e consegue sair mais. E vim para uma cidade que era super fechada e não era o que eu esperava, porque era muito diferente do Porto. Entretanto fui ficando e me apegando à cidade, mas todas as vezes que eu vou no Porto eu pergunto “o que raios eu estou fazendo em Lisboa?”, mas eu volto [14] sempre para cá, não tem muita hipótese.

Vítor: Eu me sinto super à vontade aqui, super em casa mesmo. Acho que fui muito bem recebido desde que cheguei o ano passado, até o clima que estava um pouco melhor e um pouco parecido com o Rio de Janeiro ajudou a minha receção (risos). Mas eu acho que o clima da cidade é bom, os espaços verdes, a segurança, acho que a única coisa que eu sinto falta comparando as cidades – Rio e Lisboa – é a vida noturna. Eu sinto falta da noite do Rio de Janeiro, aqui eu não sinto nem um pouco que a noite seja boa. É coisa que é completamente fora do que eu gosto mesmo.

Mas nem a parte de ficar da rua?

Vítor: Não, porque eu acabo não conseguindo aproveitar, para mim falta qualquer coisa. É o único momento que eu não me sinto em casa. Durante o dia e o fim-de-semana eu consigo vir para o parque, ver amigos, a gente vai fazer o que for, mas à noite…

Carolina: A noite também me custa. Marcela: Principalmente no inverno. Aqui tem muito a coisa de você beber na rua e eu até gosto disso, entretanto chega o inverno e não consigo. Imagina eu estar no Bairro Alto com frio, nem é pela chuva, mas está frio e eu estou desconfortável. Tudo bem, estou ali conversando, mas estou tipo “quero ir para dentro de um lugar”, mas a gente não vai.

Qual é a grande diferença que vocês notam da noite daqui para a noite do Rio?

Vítor: Eu acho que as pessoas lá são muito mais receptivas, existem muitas opções de festa na rua. Não estou falando ficar parado no Bairro Alto tomando cerveja, digo festa na rua mesmo, com música, pessoas.

Carolina: Como são as festas populares, não é o mesmo estilo, mas são festas na rua.

Marcela: Aqui a gente até tem coisas, mas é mais de dia, aos fim-de-semanas e principalmente no verão, claro. Por exemplo, aqui a gente não tem um bar para sentar dentro e beber cerveja até às 5 horas da manhã. Se você não tiver a fim de ir para uma boîte você sabe que pode ficar bebendo sentado na mesa.

Vítor: Sim, mas existe uma diferença do bar do Rio para o bar de cá.

Falta o boteco?

Vítor: Exato, o bar daqui às vezes tem música tão alta que não consegues conversar. No bar do Rio às vezes pode ter música, até um cara tocando violão ou tamborim, tocando o que for ao seu lado, mas você consegue conversar. É uma pegada diferente.

Carolina: É o boteco, com as portas todas abertas e as mesas do lado de fora e se chove todo mundo entra.

O boteco é maravilhoso, eu sei. Até a mim me faz falta e eu só morei seis meses no Rio. E como tem sido a vossa integração em Portugal?

 Carolina: Quando vim a primeira vez, estava estudando num lugar novo com pessoas que vieram também pelos mesmo motivos e estavam sedentas por conhecer pessoas, mesmo portugueses que estavam envolvidos em associações. Quando voltei foi diferente porque não estava mais estudando na universidade, que é o lugar mais fácil para conhecer pessoas.

Marcela: Os meus grupos de amigos são brasileiros, aqui em Lisboa não tenho amigos portugueses. Os meus amigos portugueses mais próximos são os que estudaram comigo em Évora, aqui de Lisboa talvez uma ou outra pessoa que trabalhe comigo, e quando eu falo isso, é literalmente no máximo duas pessoas, não é mesmo mais do que isso.

Carolina: Eu, depois de 3 anos, já me vejo fazendo parte de uns grupos que me adotaram e colocaram dentro, mas não colocam qualquer pessoa

Uma das grandes questões da actualidade no Brasil, em particular do Rio, é a segurança.

Carolina: Sim, aqui eu posso andar a noite sozinha sem ficar olhando para trás. É a liberdade que eu não tinha e que não sabia que não tinha. Você acaba morando dentro daquela rotina e não percebe o quão preso você é, está sempre preocupado, sempre nervoso.

Vítor: Hoje em dia valorizo muito essa diferença. Eu só falo com a minha mãe na rua, então eu ligo no caminho para o ginásio ou no fim-de-semana descendo para baixa, e então ligo chamada de vídeo no meio da rua e ela fala “Vítor desliga isso vai ser assaltado”, eu falo “mãe, não estou no Rio de Janeiro”. (Risos)

Vocês sentiram discriminação por serem brasileiros? Gostava de uma resposta sincera.

Carolina: Na verdade, não e sim. Logo que eu cheguei não senti discriminação nenhuma, mas senti discriminação no meu primeiro trabalho. Ouvi coisas do tipo “que ela é brasileira então ela não sabe isso”, eu antes nunca tive que mostrar de onde eu vinha ou falar que eu sabia ou fazia muito, até que no meu primeiro trabalho fui muito diminuída. Até porque eu comecei a trabalhar ganhando 200 euros, e isso é desumano, e foi numa empresa 100% portuguesa. Hoje em dia eu trabalho numa multinacional que é diferente, mas no começo ainda ouvi coisas, tipo, “ela não deve saber porque ela vem do Brasil” e tal, as pessoas generalizam muito as coisas e acham que o Brasil é um país do terceiro mundo. Uma vez viraram para mim falando assim “dá o texto para ela que ela tem um nível médio de inglês” e aí uma pessoa que ouviu isso falou “olha que ela é formada em inglês, eu acho que você devia pensar um pouco antes de falar essas coisas”. Então eles partem do pressuposto que nós não temos tanto ensino ou tanta educação ou tanta cultura. Tirando isso eu nunca senti mais discriminação em lado nenhum.

Marcela: A única vez que eu me senti no mínimo ofendida, ainda morava em Évora, estava à espera para ser atendida no hospital e veio uma senhora e falou assim, “a menina é brasileira, etc., aposto que já arrumou um namorado”. Assim, até falou isso na boa, eu falei “sim, por acaso já, é português”. Aí ela, “sim, vocês gostam muito de vir aqui para roubar os portugueses de nós”. E eu, tentando levar na boa, respondi “se calhar é porque vocês não sabem fazer bem” (risos). Foi a única vez que eu me senti minimamente discriminada. De resto nunca, nem com relação ao trabalho, nem com faculdade, nunca tive problema. Eu já ouvi amigos meus falarem que tiveram problema a nível do próprio português da escrita, de professores que deram nota mais baixa porque escreveram em português do Brasil. Eu nunca tive isso aqui, nem um caso.

Carolina: Eu por acaso tive uma situação há pouquíssimo tempo, em que eu entrei num táxi com amigos e no meio da conversa ele começou a falar que os brasileiros só roubam e que agora estamos a vir todos para cá comprar apartamentos de 500 mil euros para ganhar o golden visa. Eu comecei a ficar incomodada e comecei a me encolher. Mas fiquei muito surpresa porque as pessoas que estavam comigo, que eram portugueses, começaram a bater boca com ele, a falar que aquilo era um absurdo, que ele devia prestar atenção porque ele sabia que tinha uma pessoa que era do Brasil, não devia falar isso e abriram a porta e saíram do táxi. Falaram que eu não devia aceitar isso nunca. Então, ao mesmo tempo que eu acho que sofri preconceito, eu também tive pessoas que deram o outro lado, gente que também está lutando para melhorar as coisas por aqui, isso foi muito legal.

Vítor: Nunca sofri nada assim. Mas já aconteceu uma vez eu ligar para o dono de um apartamento e a pessoa – que obviamente percebeu que eu era brasileiro – falar que não alugava para brasileiros. Não foi nada especificamente contra mim, mas contra o facto de ser brasileiro, não me ofendeu diretamente. Fora isso nunca sofri nenhum preconceito aqui, pelo contrário, eu sempre fui muito bem recebido, incluindo no trabalho.

Esta pergunta vem a propósito desta nova vaga de emigração, que se segue à dos anos 90, que eu acho deixou um estereótipo do brasileiro bem diferente das pessoas que estão agora vindo para cá. Muita gente com o perfil parecido com o vosso.

Marcela: Completamente. Eu tenho esse exemplo dos meus primos, ele é um dentista formado, funcionário público, tanto ele quanto a esposa, tinham emprego garantido para o resto da vida, não precisavam mais de se preocupar. Mas por causa da violência no Rio de Janeiro eles optaram por vir morar aqui, fazer um mestrado, para poder atender aqui, para poder exercer aqui a profissão. Está terminando agora esse mestrado e logo vai começar a exercer. Tanto ele quanto a esposa eram mais que qualificados, já estavam no mercado de trabalho há anos, têm 40 anos e é isso. E como esse meu primo, só na turma dele, tem cerca de 150 brasileiros, não só do Rio, mas brasileiros vindo para essa mesma situação.

E vocês pensariam em voltar para o Rio ou para o Brasil agora? Ou próximo?

Marcela: Eu voltei em 2016, fiquei lá um ano, e não voltaria mais. Talvez um dia daqui a muitos anos, mas agora não. Infelizmente.

Carolina: Eu também não. Iria para visitar, pois sinto falta dos meus amigos, mais do que da minha família, porque com a minha família eu falo todos os dias e eles vêm me visitar. Os meus amigos não vêm e então sinto falta e eu tenho vontade de visitar, mas só visita mesmo.

Vítor: Eu também não. Sinto falta dos meus amigos, mas não penso ir agora, eu acho que estou num momento de aproveitar aqui ainda.

Carolina: Eu sofri muito no primeiro ano, foi difícil e a minha irmã ainda não morava aqui, agora ela mora e facilita um pouco as coisas, além que os meus pais passaram a vir mais, mas o primeiro ano custou muito. O meu primeiro Natal tinha custado muito, então eu quis ir no Natal do ano seguinte e me fez muito bem. Não é fácil porque é caro e depois que você não tem tantos dias de férias assim e ninguém vai passar uma semana no Brasil, a não ser que tenha uma grande oportunidade.

Marcela: Eu já fui, mas foi porque eu arrumei uma promoção, tipo eu queria muito passar o meu aniversário lá e foi um ano que eu estava mais para baixo. Eu arrumei uma passagem barata e fui mesmo uma semana exatamente.

Carolina: Você começa a pensar tipo, eu não vou perder tudo, eu quero ver a minha avó e quero ver tudo, mas eu também quero conhecer outros lugares, e é isso, você não vai para o Brasil para passar pouco tempo, de uma forma geral você vai para lá ficar 2 ou 3 semanas.

Qual a vossa opinião sobre os portugueses? Quais as maiores diferenças com os brasileiros? Carolina: A gente acha que fala a mesma língua (risos).

Marcela: Essa parte é uma parte difícil, eu acho, para nós todos. Eu tenho uns primos que vieram em Agosto do ano passado e a minha prima tem uma filha na escola, que tem uns 5-6 anos. Então, quase toda a semana ela manda mensagem “Marcela, eles mandaram esse bilhete aqui, o que é que quer dizer isso que ela precisa de levar para a escola?”. “Sério, ela precisa de levar alguma coisinha para a escola e não sei quê, algum tipo de lanche, alguma coisa”, e ela não sabe o que é.

Carolina: Eu a trocar menagens passei a ter comichões, tipo o que será que esta pessoa quis dizer, “vocês podem-me ajudar, por favor”. Precisaria consultoria para entender mensagens.

Vítor: Acho que a questão não são bem as palavras, são os termos, e a interpretação também, às vezes eu falo uma coisa e para o brasileiro a pessoa fala “OK”, significa isso, para o português a mesma frase significa outra coisa completamente diferente.

 Carolina: Eu tenho certeza que com muitas das pessoas com quem eu saí e que não deu certo, eu falei coisas que eles interpretaram de maneiras muito diferentes, muito. Já recebi uma mensagem que falei “OK, levei um corte, essa pessoa não quer mais sair comigo”, dois dias depois estava me chamando para sair. Então aquela mensagem não era um corte.

Mulher: Eu logo que cheguei aqui, namorei 4 anos com um português e é engraçado que parece que eu não tinha essa dificuldade, ele é do Alentejo, não é de Lisboa, e eu não tive essa dificuldade tão grande, mas depois que eu terminei com ele, parece que as coisas ficaram mais complicadas.

Carolina: É difícil manter uma conversa, porque se perdem coisas e geralmente é mais fácil com pessoas que já moraram no Brasil, ou que tem parentes brasileiros, ou que tem um sobrinho ou uma tia que mora lá.

Vítor: Sim, ou que já visitou ou que tem amigos brasileiros, porque a pessoa consegue-se pôr um pouco no nosso lugar, a gente acho que ainda não se consegue pôr – eu não consigo – na cabeça do português. Mesmo trabalhando com portugueses o dia todo, a gente não tem uma relação íntima de amizade com eles, então não me consigo colocar na cabeça da pessoa. Eu acho que a interpretação das línguas é muito diferente, não sei se para o carioca ou para o brasileiro em geral, mas enfim.

Marcela: Eu acho que para o brasileiro no geral.

Carolina: Olha, eu tenho um problema seríssimo com os “chegamos”. Por exemplo, a interpretação disso é horrível, porque eu escrevo newsletter e eu escrevi “chegamos” sem acento e eles falam para mim não é “chegamos”, é “chegámos”, que é isso que eu escuto, exatamente a mesma palavra duas vezes, pois é, só que para eles tem diferença na sonoridade.

 

Chegamos ou chegámos.

Carolina: Mas para a gente é igual.

Vítor: É igual.

Chegámos é passado.

Vítor: E qual que é a outra? Chegamos.

Marcela: Chegamos, chegámos.

Chegamos, chegámos.

Carolina: Para mim a partir do momento em que você chegou, já é passado. Só que, então chegamos é sempre passado. Só que é o passado próximo e o passado distante, foi isso que me ensinaram ou o porquê e o porque.

Vítor: Sim, “porque” eu nunca vou entender na vida.

Carolina: Porque para a gente é porquê.

Marcela: Para a gente é tudo porquê quando falamos, é tudo porquê.

Carolina: E a gente tem muitos mais porquês, escritos, do que vocês.

Diferentes?

Vítor: Sim.

Carolina: São uns 6.

 Ah, o por que, não, por que, por que, porque, porquê.

Carolina: Oh, está vendo. Porque tem separado, junto, com acento e sem acento, separado com acento, junto com acentos, enfim…

Pergunta tem acento sempre, reposta não tem acento.

Marcela: Não, nós temos resposta com acento e nem todos os porquês de pergunta têm acento, esse é que é o problema. Carolina: O porquê no Brasil só tem acento quando vai no final da frase. Eu estou vendo que devia haver um artigo só sobre o porquê.

Carolina: Você pode fazer um artigo sobre a diferença linguística, que é enorme. Mas é isso, o porquê com acento é no final da frase. Vocês não têm isso. Os acentos são todos diferentes e aí nisso hoje em dia já estou super acostumada e vou vivendo muito bem, aí me deparo com o chegamos ou o chegámos. E ainda tive de me acostumar a falar 6 e não meia.

Meia, aqui ninguém sabe o que é. Eu tive esse problema no Brasil e por azar o meu número no Brasil tinha três 6.

 Marcela: O meu aqui tem dois 6.

Carolina: E aí a pessoa trava no meia.

Marcela: E a pessoa trava.

Claro que trava. Mas me desculpa, o meia não faz sentido nenhum.

Marcela: Meia dúzia.

Vítor: Assim como vocês falam a hora, tipo uma e um quarto, a gente não fala isso no Brasil, a gente fala uma e quinze.

Marcela: Mas faz sentido. É um quarto de hora.

Já tinham passado alguns quartos de hora, o sol já se punha, a fome apertava, e não havia conclusões na discussão sobre os dois portugueses diferentes. Nada melhor que continuar a conversa de forma ainda mais informal, acompanhada de feijoada e ao som de samba, no Acarajé da Carol, no Bairro Alto, um pouquinho de Brasil nesta Lisboa cada vez mais brasileira.

 

 

Por: João Albuquerque Carreiras

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