Quem anda à chuva, molha-se – Hanói

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Sabíamos que ela estava pelas redondezas, sentíamo-la. Só não sabíamos que estava tão perto, muito menos contávamos com ela naquele preciso momento e ali. Não sabíamos quando iria cair, nem onde ao certo, mas desconfiávamos que seria por perto. Arriscamos ainda assim, até que por fim ela se fez notar. Sem que tenha pedido licença, sem qualquer aviso prévio, eis que nos cumprimentou como se de velhos amigos nos tratássemos. Do nada, uma gota cai-nos diretamente na parte de trás do pescoço despido de qualquer proteção. Naquela rua há todo um caminho que nos pode brindar com infindáveis repetições de todo este processo, com inúmeras gotas de chuva no pescoço. Embora não o queiramos, é quase certo que será esse mesmo caminho que vamos seguir, é por aí que vamos – inconscientemente – escolher ir.

Sim, é sobre andar à chuva que estou a falar. Sobre andar à chuva no meio da cidade.

Como em tudo, há duas formas de sentir a chuva quando andamos na cidade. Uma boa e uma menos boa. Há duas faces de uma mesma moeda, há a medalha e o seu reverso, duas histórias contadas por atores diferentes neste que é o teatro da precipitação citadina.

Comecemos pela mais óbvia. A chuva pode tornar tudo desconfortável. Quando chove os sapatos não ficam só molhados, ficam sujos com lama. A roupa nunca seca totalmente, o cabelo assume formas estranhas que representam a ondulação proveniente da humidade que invade todo e qualquer lugar. A chuva obriga-nos a andar com um impermeável ou com um guarda-chuva, e a verdade é que ninguém gosta de andar de guarda-chuva. Para além disso, a chuva vem muitas vezes acompanhada de nevoeiro. Não que o nevoeiro por si só seja negativo, nada disso. É só que, quando de mãos dadas com a chuva, juntos criam uma combinação fatal que ataca o calor das cores, das pessoas, dos objetos, dos monumentos. Tudo parece mais frio. Mas não nos ficamos por aqui! Quando chove todos os caminhos parecem mais ou menos iguais, as ruas são todas parecidas entre si. Talvez isso se fique a dever ao facto de para tudo olharmos com os olhos semicerrados a fim de evitar encharcar a nossa visão com partículas de água caídas do céu. Não sei. O que é certo é que andar à chuva afeta o nosso sentido de orientação, e quanto a isso não há grande discussão.

Mas a chuva também traz coisas boas, isso é indiscutível. A chuva, qual David Copperfield com a sua fatiota de palco ainda que desacompanhada de assistentes mal vestidas, é mágica. Transforma sítios e momentos. Quando chove, é como se os momentos se imortalizassem em nós com um toque especial. Um toque que não teriam se não chovesse. O céu chora, não se sabe se de alegria ou tristeza, e sentimo-nos abraçados por uma sensação familiar. Somos levados para outro sítio, para um momento diferente que já visitamos no nosso passado. Não é fácil de explicar, mas todos sabem do que estou a falar. Essa é parte da beleza da chuva. Mas não ficamos por aqui. A chuva tem um impacto especial ao nível das cores, duplicando-as, refletindo-as no chão. Em todo o lado se cria um efeito de espelho que só o piso encharcado de chuva consegue reproduzir. A chuva torna o verde das folhas mais verde e em simultâneo amarela as luzes das janelas de cada casa que se eleva sobre as movimentadas ruas de Hanói. Como se tal não bastasse, a chuva contribui para a cidade com uma dose de melancolia sempre desejável, mas por muitos habitualmente rejeitada. Abracemos a melancolia! Quando chove, até a mais intensa, fervilhante e efervescente cidade se transforma, passando a ter como banda sonora de fundo um saxofone até então adormecido. Um que só precisava de uma desculpa para se fazer ouvir.

Se algum dia voltar a Hanói espero que não pare de chover. Pode chover todos os dias sem parar que eu não me importo. Apenas dessa forma me poderei refugiar num sítio qualquer, saborear um café vietnamita e simplesmente olhar para o desconcertante movimento da cidade e de todos aqueles que, fruto da inevitabilidade, a chuva aprenderam a amar.

Por João Barros

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