Quantos cheiros cabem no teu nariz? – Banguecoque

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Estou certo de que já todos nos entretemos com o jogo em que alguém pergunta: ‘se tivesses de abdicar de um dos sentidos, de qual seria?”. Se alguém ainda não foi questionado por outra pessoa acerca de tão polémica questão – eu passo a vida a fazê-la, acho uma ótima forma de quebrar o gelo com novas pessoas que conheço -, pelo menos já se terá debruçado sobre o tema, numa profunda e pouco científica indagação introspetiva. Ou assim o espero. Se ainda não o fizeram, está lançado o desafio.

Não raras vezes a resposta a tal pergunta, e possivelmente aquela que seria a minha opção uma e outra vez, é simples. Se tivesse de abdicar de um dos meus sentidos abdicaria do olfato. Sim, do olfato por si só e individualmente considerado. Porquê, questionar-se-á o comum dos mortais? Por várias razões. Desde logo porque sou um amante de música, de sonoridades, de melodias e de vozes, até do próprio silêncio, e não poderia nunca abdicar da audição. Já para não falar da perspetiva de nunca mais poder vir a saborear uma das minhas muitas refeições prediletas até ao momento do meu último suspiro, algo que está fora de questão. Quanto à visão, como observador apaixonado que não descansa enquanto não apreende todos os detalhes que giram à sua volta, não gostaria de desperdiçar tamanho – inútil e não raras vezes frustrante – talento. E o tato é o tato, pronto. Por isso, a ter de abdicar de um acho que abdicaria do olfato. Mas a verdade é que não quereria nunca que isso acontecesse antes de ter estado em Banguecoque.

Banguecoque foi a primeira cidade que pisei em continente asiático e as expectativas multiplicavam-se a vários níveis. Desejava sentir o calor acompanhado de elevadas doses de humidade de tal forma que a roupa se colasse ao meu corpo para não mais o largar. Queria ouvir uma língua diferente. Queria ver selva, cidade, pessoas e luzes, tudo de uma só vez. Queria provar todos os pad thais do país, saborear todos os caris, experimentar a frescura da fruta tropical. Mas a verdade é que não tinha em mente dar um uso apurado ao olfato. E a verdade é que me enganei profundamente.

Quando se chega a Banguecoque em janeiro, fruto da circunstância de na Europa recorrentemente vivermos um frio inverno, é habitual o nariz estar congestionado. Para tal estado contribui também o excessivo ar condicionado com que somos brindados nas longas viagens de avião necessárias para chegar ao outro lado do mundo. Uma e outra vez repetem-se os relatos de narizes congestionados à chegada à Ásia, como se tal condição fizesse parte da própria viagem. Não se trata de um congestionamento tão grave ao ponto de não sentir o sabor da comida, isso não. Antes ao nível de não permitir estar cem por cento capaz de apreender tudo aquilo que esteve na base da criação, e que justifica a existência, do olfato.

A chegada a Banguecoque brinda-nos com muito daquilo por que tanto se ansiava. As cores são do mais intenso que já se viu, a língua utilizada a nível local é absolutamente impercetível, a humidade agarra-se a cada centímetro da nossa pele qual sanguessuga esfomeada. Já a comida é, como se costuma dizer, de comer e salivar – ou chorar – por mais.

Tudo nos deslumbra e a verdade é que não damos sequer pela falta do olfato apurado. Há muito com que nos entreter, e quando assim é não estamos sequer atentos a isso. Mas a verdade é que inevitavelmente acaba por chegar o dia do descongestionamento nasal. Um evento digno de épicas e grandiosas histórias, e uma tal descrição não chega sequer aos calcanhares do que realmente se passa quando tão auspicioso momento finalmente dá um ar da sua graça.

De repente, num clique que passa despercebido, o nariz anteriormente obstruído é tomado de assalto, sem qualquer pedido de autorização e num verdadeiro assédio sensorial, por um atentado ao sentido que mais se desprezou até então. Do nada, a intensidade das cores, a melodia da língua impercetível, a água na boca derivada dos novos sabores, a pesada humidade que se faz sentir já não são o cabeça de cartaz nos dias de festival que são a nossa chegada à Ásia. Não. Numa assentada, e sem que disso seja sequer possível dar conta, somos incapazes de identificar a absurda quantidade de cheiros que nos rodeiam. Como que atropelados por uma bola de neve que aumenta a cada metro que percorre, somos dominados por uma avalanche de odores que nos passam a dominar e dos quais não poderíamos, ainda que quiséssemos, afastar-nos.

Da esquerda chega-nos um cheiro intenso a comida de rua. Os aromas a noodles fritos, carne na brasa, vegetais prontos a ser cozinhados, molho de soja queimado e fervente, fruta descascada pronta a comer e até de insetos recentemente cozinhados que se preparam para ser devorados atravessam-se à nossa frente e damos por nós num mundo diferente.

Provindo da direita abalroa-nos um cheiro incessante a dezenas de cremes de massagem diferentes, odor presenteado pelas mil e uma barracas que, no meio da rua – sim, mesmo ali – proporcionam momentos de alegado prazer relaxador no meio da intensidade, da confusão e da azáfama de uma tão agitada cidade como o é a capital da Tailândia.

Da frente, num grito de Ipiranga que anuncia a busca incessante pela liberdade, entra-nos pela cavidade nasal um forte cheiro a marijuana que é expelida pelas bocas e narizes de muitos daqueles que connosco se cruzam na rua, restaurantes e bares. Já que desde há uns meses para cá é legal comercializar e consumir livremente marijuana em toda a Tailândia, não há por onde escapar a este perfume natural.

Vindo de trás, como quem não quer a coisa, um cheiro persistente a sudação recorda-nos a estação quente e não tão seca que se abate sobre Banguecoque no início de cada ano. Passamos então a perceber que todas aquelas gotas que vemos escorrer pelas testas, pescoços e braços dos milhares de pessoas que se atravessam no nosso campo de visão têm uma fragrância própria que por aqui também se faz sentir. Um deleite para o quinto sentido.

Lá em baixo, em muitas das zonas pelas quais somos necessariamente obrigados a atravessar, emerge recorrentemente um fedor intenso a esgoto capaz de fazer cair o mais bravo e corajoso gladiador que contra tal odor se propusesse brandir espadas. Os esgotos a céu aberto para isso contribuem, e os nossos narizes é que pagam a fava.

E finalmente, desde cima, de lés a lés, sentimos uma lufada de ar fresco. Uma daquelas brisas bem-vindas e necessárias para todos aqueles que se deparam com uma panóplia atordoante de ataques dirigidos especificamente ao seu nariz. Um momento de descanso merecido para as cavidades nasais desgastadas por força da convivência forçada com os mil e um cheiros que aqui compõem uma ode ao aroma.

A verdade é que poderia continuar a enumerar todos os odores que, durante uma estadia em Banguecoque, renovam a crença generalizada no poder e alcance do olfato. Mas creio já ser evidente o meu ponto de vista e onde queria chegar. Voltando ao início, se hoje me perguntassem, novamente, qual seria o sentido de que decidiria abdicar, será que a minha resposta seria a mesma? Não sei. Talvez não. Foi preciso vir até Banguecoque mas finalmente percebi que também se pode viajar com o olfato. E a verdade é que isso é algo que não pode ser levianamente descartado.

Texto e fotografia por:  João Barros

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