A Barca dos Amantes

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Há dias, acordei em Ipanema. Abri as cortinas do quarto e lá estava o mar que nos separa à minha frente.

Estamos quase sempre deste lado do Atlântico mas ali, em Ipanema, do lado de lá, temos maior certeza que também estamos em casa. Porque o Brasil sempre foi um pouco de nós. Ainda criança, via em família algumas novelas brasileiras que nos mostravam um certo Brasil, ousado e à frente da nossa realidade cinzenta e abafada. “Gabriela” ou “O Bem Amado”, marcaram a minha geração. Mas não só, nem sobretudo.

Também muito jovem, li “O Meu Pé de Laranja Lima”, de José Mauro de Vasconcellos, quase tudo do Jorge Amado, Erico Veríssimo, os “quadradinhos” com o Zé Carioca ou “A Turma da Mônica” e, sobretudo, ouvi tanta música brasileira, através dos meus tios e primos mais velhos. Chico Buarque, Tom Jobim, Caetano, Maria Bethânia e tantos, tantos outros.

Mais tarde, vieram outras leituras. Machado de Assis, João Ubaldo Ribeiro, a fabulosa escrita de Vinícius de Moraes ou de Carlos Drummond de Andrade, a descoberta mais recente de Rubem Fonseca…

Isto não é um exercício de “name dropping”. Ilustra apenas a forma como o Brasil sempre esteve nas nossas vidas e como, na verdade, conhecemos bem o Brasil, provavelmente melhor que qualquer outro povo do mundo.

Desde há cerca de 20 anos que, por razões profissionais – mas também já aconteceu ser em lazer – viajo frequentemente para o Brasil, para diferentes Estados e cidades e também, menos, pelo interior.

E se, há 20 anos, percebi que a inversa não era verdadeira, que, ao contrário do que acontece com os portugueses em relação ao Brasil, a maioria dos brasileiros ignorava completamente a realidade portuguesa e manifestava um total desconhecimento sobre Portugal, esboçando apenas, timidamente, um esgar sobre “o Cabral” e invocando o “bacalhau” e uma suposta expressão idiomática da “terrinha”, um “ora, ora, pois, pois…” que nunca ouvi por cá, hoje a realidade já é bem diferente.

As coisas mudaram, e mudaram muito. Hoje, a perceção de Portugal no Brasil é muito diferente, para a maioria dos brasileiros das classes médias e altas Portugal é visto (e conhecido) como um país da Europa moderno e desenvolvido, socialmente estável, onde os brasileiros encontram as origens e os fundamentos do que poderiam ser, mas ainda não alcançaram.

O potencial do Brasil é enorme, mas perdese numa gritante iniquidade social, que redunda em pobreza extrema e crime elevado, convivendo lado a lado com luxo, fausto, e qualidade de vida.

Esta qualidade de vida, também, pela pródiga natureza, e pelo “jeito brasileiro” de ser, é quase irreplicável.

O Brasil, diz o chavão, é um país de contrastes. E o chavão é verdadeiro. Há, no Brasil, do melhor do mundo. Mas também há do pior do mundo.

O Brasil é enorme alegria, uma alegria que contrasta com as dores do Brasil e as disfarça.

O Brasil é como o nosso irmão mais novo. Genial, louco, estouvado, alegre, festivo, com tudo para dar certo. Mas que ainda experimenta e procura o seu caminho e o seu lugar e ainda não “assentou”. Qualquer atitude de paternalismo de Portugal em relação ao Brasil será, ainda sim, deslocada.

O Brasil é, de longe, a maior força da língua portuguesa, tem a maior pujança populacional, económica e cultural entre os países de língua portuguesa. E isso faz do Brasil, também, a nossa Pátria. Como Portugal é, tem de ser, a Pátria brasileira.

Um oceano nos separa. Nele, portugueses e brasileiros devem navegar incessantemente, como Sérgio Godinho e Milton Nascimento cantaram, a barca dos amantes.

“Ah, quanto eu queria navegar

Pra sempre a Barca dos Amantes

Onde o que eu sei deixei de ser

Onde ao que eu vou não ia dantes”.

 

 

Por: André Serpa Soares

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