Quando a anormalidade se tornou normal

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Quinta-feira à tarde e o Terreiro do Paço está deserto. Este sol único, que é o nosso, parece iluminar ainda mais o rio, a praça, a cidade em volta. O que poderia ser um momento de maravilhosa contemplação da cidade é ensombrado pelo vazio. Tantas vezes nos queixamos do excesso de turistas e de gente na cidade e afinal é impossível gostar de Lisboa assim vazia. As cidades não foram construídas para serem como os legos que fazíamos na infância, bonitos, ordenados e vazios. Sem gente, as cidades perdem todo o seu sentido. Em volta tudo é belo, mas de uma beleza assustadora porque não humana, porque não vivida. A cidade está barricada, cada um em sua casa entregando a rua a ocasionais transeuntes, a mendigos e aos pássaros, que com a ausência humana tomam conta do espaço num cenário “hitchcockiano”.

Na minha rua, onde tantas vezes o ruído é excessivo, o silêncio do dia só é quebrado por autocarros e eléctricos que passam quase vazios. De noite, quando o burburinho era uma companhia já aceite, o silêncio. Ouço passarinhos e cigarras, por enquanto imaginários, em São Paulo e sinto saudades dos ruidosos turistas que engarrafavam os passeios e fazem fila para o Elevador da Bica. Nunca, como a agora, a minha janela sobre o mundo é tão literal. As pausas para cigarro são momentos de conexão com este novo mundo, vazio, silencioso e triste. Passam pessoas de máscara com sacos de compras ou passeando cães, tentando não cruzar olhares, evitando-se, negando a proximidade.

O mundo é belo pela natureza e pela obra humana, mas sem vida e humanidade resta uma beleza fria e depressiva. Valorizamos, como nunca, o sorriso, o abraço e o beijo. O que somos nós sem humanidade, mesmo com todos os seus defeitos? Tirando alguns eremitas convictos, por certo com superpoderes para combater a distância e a ausência, contrariamos agora a nossa natureza e tentamos que tudo isto se torne normal. E esta anormalidade de uma penada tornou-se tão normal, que não sei como descrever a nossa capacidade de adaptação: se admirável, se assustadora. Talvez seja essencial aceitar esta normalidade sem questionar, sob pena de recusarmos o isolamento e sairmos todos para a rua a distribuir abraços e beijos como num carnaval carioca fora de época.

Como sobreviveremos a esta nova normalidade e como nos comportaremos depois? Ninguém terá resposta segura a esta pergunta e todas as respostas são inquietantes. E não falo da economia, que deixo para quem dela sabe, mas da nossa vida em comunidade. O mundo voltará a ser o que era antes destes tempos sombrios ou emergirão novos comportamentos, novas formas de viver a vida, esta vida que agora todos em conjunto nos apercebemos ser fugaz, limitada e sempre em perigo. Qual será a nossa nova normalidade.

 

Por João Albuquerque Carreiras

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