Purple Mountains “All my Happiness is Gone” do álbum “Purple Mountains” – 2019

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Estamos em retiro social, isolados, juntos. Confinados a um limitado espaço. Em tele-trabalho, em trabalho modo “carne para canhão”, ou em quarentena forçada. Mas, acima de tudo, isolados socialmente como lhe chamamos. O tema que me acompanhou esta semana foi este, de David Berman (ex-Silver Jews), tema sobre separação, introspectivo, forte, guitarras lânguidas em sofrimento, deprimido, nostálgico, cheio de azedume,  mas acima de tudo, vivo.  Faz parte de um álbum desconfortante, sobre coisas mundanas, um pedido de ajuda, humanamente real. Pois é, nesse desconforto e revivalismo em que todos estamos. Colados a algo que nos faça sentir parte de um todo. Ode à vivência que nos faz ser e estar. Catarse de sentimentos, libertação, que nos reconforta, na sua maneira triste e exasperada. Na mesa, sirvam o vinho que ainda não abriram à procura do momento especial, usem o serviço que apenas colocam quando há visitas, confeccionem um prato que adoram, mas raramente saboreiam, trazido de fora (ajudem a restauração, enquanto a temos) ou sejam o chef que gostariam de ser. É este o momento de ode à vida. David, que precocemente nos deixou, assolado por uma depressão profunda e intensa, deixou-nos algo inusitadamente belo. Deprimido, mas alegre. Real. Escuro. Mas o preto não absorve, contém todas as cores, guardando-as para si. É isso que queremos guardar para nós nestes momentos que nos fazem sentir vivos. E humanos.

Nuno Baptista

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