Professor Sobre Rodas – Por uma sala de aula sem paredes

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Ao completar 20 anos de docência em cursos superiores de Gestão do Conhecimento, Turismo, Hotelaria e Meio Ambiente aqui no Brasil, percebi que havia muito ainda por realizar, porém, quem sabe, em uma sala de aulas sem paredes.

Havia que comunicar aos estudantes na faixa etária dos 16 aos 20 anos, sendo o professor que quero ser, outras formas de mediação com o mundo e, principalmente, inspirar o quanto fosse possível que meus ouvintes, alunos e alunas de toda a sorte de origens e meios, fossem além das estatísticas e perspectivas dadas. Havia que provocá-los a ir além do mundo dado.

Enquanto professor, sempre busquei compreender os motivos do conhecimento se revelar mais e melhor em situações onde a emoção estivesse presente. Onde não havia emoção me parecia claro que não residia a percepção do outro, tampouco lá emergia a troca de saberes fraternal entre os diferentes. Tenho constatado que não existe aprendizagem, portanto, como a queremos na construção de um mundo com os outros, se não há amor ao ‘estranho’, o xenophilus. Porque, discuto com meus botões, é muito fácil e confortável amar a quem já se conhece.

Tais reflexões foram objeto de minhas intervenções em mais de 620 escolas públicas espalhadas em 7 estados brasileiros, desenvolvidas no formato de palestras. A proposição era a de provocar alunos e alunas com aquilo que aprendemos ao nos lançar pelos caminhos do mundo a bordo de minha bicicleta, sim, por esta ‘sala de aula sem paredes’ chamada vida. Tenho buscado emprestar essas reflexões em meus encontros dentro das salas de aula formais, pelo Brasil e Argentina, naquele projeto que veio a se chamar Professor Sobre Rodas.

O Projeto Professor Sobre Rodas tem sido uma experiência ciclocidadã que leva às escolas e universidades, públicas ou privadas dentro e fora do país, reflexões sobre a promoção de uma aprendizagem baseada em experiências que a bicicleta me proporcionou, particularmente, em mais de 200.000 km pedalados em 10 anos.

Decorrente destas minhas viagens de bicicleta pelo Brasil e exterior, busco levar provocações para que, aqueles jovens, conosco, já não tão jovens, possamos fazer escolhas plurais, capacitando-nos cada dia mais aptos à humana ‘com-vivência’, e não apenas ‘sobre-vivência’.

Neste formato, o Professor Sobre Rodas já levou esta mensagem em palestras a mais de 75 mil pessoas no Brasil e Argentina, uma delas presenciada pelo Editor da Bica, o querido amigo João Moreira. Minha intervenção, enquanto Professor Sobre Rodas, também já foi acompanhada por milhares de pessoas nas páginas da Revista Bicicleta, nos programas televisivos Globo Esporte, Rede Minas e no site de informações da Globo, o G1.

Ao que nos é peculiar, alunos e alunas do ensino médio (secundário), público-alvo do projeto cá no Brasil, se encontram em um determinado momento de apatia em relação à sua participação enquanto cidadãos deste ‘mundo em construção’.

E são eles e elas, a cada minuto mais, atropelados pela globalização, seus maniqueísmos (seu lado bom e seu lado não tão bom), pela informação fragmentada, individualismo e egocentrismo, o futuro da economia, do trabalho e do emprego, enfim, entre outros aspectos. Cobramos dos jovens respostas para questões que tampouco conseguimos responder satisfatoriamente.

Observamos estes jovens tentando sobreviver às cidades cada dia menos humanas, sucumbindo à violência banalizada em todas as suas formas. E o que é que estamos comunicando a eles?

Ao usar ou valer-se da bicicleta como veículo não violento, economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente responsável, encontramos à disposição toda uma nova maneira de atuar ou ser protagonista de uma ordem que se permite observar expressa nas paisagens, urbanas e/ou rurais. Nos percebemos sujeitos deste acontecer, mais coerente com a qualidade de vida que a grande maioria almeja, ou seja, uma qualidade possível a todos, uma simplicidade latente que busca virar expressão sobre rodas silenciosas, as quais não deixem rastros indeléveis.

Este é o ideal perseguido pelo Professor Sobre Rodas: uma proposta de realidade onde professores e alunos, ambos aprendentes e brincantes, reconstruam seus universos, patrimônios e saberes, seus espaços de convivência, trabalho e frugalidade, reinventando-os e reinventando-se. A ideia de ‹rodas› não se refere apenas ao uso da bicicleta como meio de intervenção nas comunidades por onde se passa.

Um pouco mais para além da mera alusão, as rodas querem sugerir, em cada contexto, o ciclo. A vida é cíclica; o conhecimento é cíclico; a renovação social é cíclica; enfim, somos cíclicos.

Bom, cabe-me dizer que o papel que escolhi para este cenário é o de servir como provocador destes estudantes, a causar-lhes o espanto e encantamento pelas imagens das cicloviagens que realizo, a despertar- lhes a sensação tão especial que é sabermo-nos parte de algo maior e, que em algum lugar, alguém espera pelo melhor de cada um de nós.

 

Por Therbio Felipe M. Cezar

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