POIROT É ACUSADO

694 views

Hercule Poirot sorriu para si próprio enquanto o seu motorista parou o carro com uma simetria satisfatória. Como amante da arrumação e da ordem, Poirot apreciou um alinhamento tão perfeito com as portas de entrada de Whitehaven Mansions, onde vivia. Poder-se-ia traçar uma linha reta a partir do centro do veículo até ao ponto exato onde as portas se juntavam.

O almoço do qual regressava fora très bon divertissement: comida e companhia excelentes. Saiu do carro, brindou o motorista com um agradecimento caloroso, e estava prestes a entrar em casa quando teve uma sensação estranha de (foi assim que o explicou a si próprio) alguém atrás de si precisar da sua atenção.

Esperou, ao virar-se, não ver nada invulgar. Estava um dia ameno, para fevereiro, mas talvez uma brisa ligeira tivesse dado um pequeno tremor ao ar em seu redor.

Poirot viu rapidamente que não fora o tempo que causara a perturbação, apesar de a mulher bem vestida que se aproximava rapidamente parecer uma força da natureza, pese embora tivesse um casaco e chapéu azul-claros à moda. «É um turbilhão muito forte», murmurou Poirot para si.

Não gostou do chapéu. Já vira mulheres pela cidade com chapéus parecidos: minimalistas, sem ornamentos, apertados à cabeça como toucas de banho feitas de tecido. Um chapéu deveria ter uma aba, ou alguma forma de embelezamento, pensou Poirot. Pelo menos, devia fazer algo mais do que cobrir a cabeça. Sem dúvida que em breve se habituaria a estes chapéus modernos, e depois de o ter feito, a moda mudaria, como sempre acontecia.

Os lábios da mulher vestida de azul tremeram e crisparam-se, apesar de ela não soltar qualquer som. Era como se estivesse a ensaiar o que diria quando por fim chegasse junto de Poirot. Não havia dúvida de que era ele o seu alvo. Parecia decidida a fazer-lhe algo desagradável assim que estivesse suficientemente próxima. Ele deu um passo atrás enquanto ela marchava em direção a si, num passo que lhe lembrou uma debandada, formada por nada nem ninguém para além dela.

O seu cabelo era castanho-escuro e lustroso. Quando parou de forma abrupta mesmo à sua frente, Poirot viu que não era tão jovem como parecera ao longe. Não, esta mulher tinha mais de cinquenta anos de idade. Talvez tivesse sessenta. Uma senhora de meia-idade, perita em ocultar as rugas no rosto. Os seus olhos eram de um azul impressionante, nem escuro nem claro.

  • O senhor é Hercule Poirot, não é? – disse ela num sussurro ruidoso. Poirot reparou que ela quis transmitir fúria mas sem ser ouvida, apesar de não haver ninguém por perto.
  • Oui, madame. Sou o próprio.
– Como se atreve? Como se atreve enviar-me uma carta tal?
– Madame, perdoe-me, mas não creio que nos conheçamos.
– Não se faça de inocente comigo! Sou Sylvia Rule. Como sabe perfeitamente.
– Sei agora, porque mo disse. Há um instante, não sabia. Referiu-se a uma carta…
– Vai forçar-me a repetir a sua calúnia sobre mim num lugar público? Muito bem, então, assim farei. Recebi uma carta hoje de manhã, uma carta muito ofensiva e nojenta, assinada por si. – Ela espetou no ar um dedo que teria atingido Poirot no peito se ele não tivesse saltado para o lado, de modo a evitá-lo.
  • Non, madame. – Ele tentou protestar, mas a sua tentativa de negação foi prontamente rejeitada.
  • Nesta desgraça de carta, acusou-me de homicídio. Homicídio! A mim! Sylvia Rule! Alegava poder provar a minha culpa, e aconselhou-me a ir imediatamente à polícia e confessar o meu crime. Como se atreve? Não pode provar nada contra mim, pela simples razão que sou inocente. Não matei ninguém. Sou a pessoa menos violenta que já conheci. E nunca ouvi falar de um tal de Barnabas Pandy!
  • Um tal de Barnabas…
  • É monstruoso que me acuse a mim, logo a mim! Simples- mente monstruoso. Não admito. Sou bem capaz de ir falar com o meu advogado acerca disto, só que não quero que ele saiba que fui tão caluniada. Talvez vá à polícia. A difamação que sofri! O insulto! Uma mulher com a minha posição!

Sylvia Rule continuou desta forma durante algum tempo. O seu sussurrar agitado tinha muitos silvos efervescentes. Lembrou a Poirot as cataratas ruidosas e turbulentas que vira nas suas viagens: impressionantes de observar, mas principalmente assustadoras pela sua implacabilidade. O fluxo nunca parava.

Assim que conseguiu ser ouvido, disse:

  • Madame, por favor aceite a minha garantia de que não escrevi tal carta. Se recebeu uma, não foi enviada por mim. Eu também nunca ouvi falar de Barnabas Pandy. É esse o nome do homem que é acusada de assassinar, seja quem for que escreveu a carta?
  • Foi o senhor que a escreveu, e não me provoque mais ao fingir que não o fez. Foi o Eustace que o convenceu a fazê-lo, não foi? Sabem ambos que não matei ninguém, que sou tão inocente quanto é humanamente possível! O senhor e Eustace conceberam um plano juntos, para me enlouquecer! É exatamente o tipo de coisa que ele faria, e sem dúvida que mais tarde vai dizer que foi só uma piada.
  • Eu não conheço nenhum Eustace, madame. – Poirot continuou a fazer o maior esforço possível, apesar de ser óbvio que nada que ele dissesse faria a menor diferença para Sylvia Rule.
  • Ele acha-se tão inteligente, o homem mais inteligente de Inglaterra! Com aquele sorriso nojento e afetado que nunca lhe sai do rosto medonho. Quanto lhe pagou? Sei que deve ter sido ideia dele. E o senhor fez o seu trabalho sujo. O senhor, o famoso Hercule Poirot, que tem a confiança da nossa polícia leal e trabalhadora. O senhor é uma fraude! Como pôde? Caluniar uma mulher com o meu bom caráter! Eustace faria qualquer coisa para me derrotar. Qualquer coisa! Seja o que for que ele lhe disse sobre mim, é mentira!

Se ela tivesse estado disposta a ouvir, Poirot poder-lhe-ia ter dito que não seria provável que colaborasse com um homem que se considerasse o homem mais inteligente de Inglaterra enquanto ele, Hercule Poirot, residisse em Londres.

  • Por favor mostre-me essa carta que recebeu, madame.
  • Acha que a guardei? Fiquei doente só por segurá-la na minha mão! Rasguei-a em mil pedaços e atirei-a para a lareira. Gostaria de atirar Eustace para uma lareira! Que pena que tais atos sejam con- tra a lei. A única coisa que posso dizer é que quem quer que tenha feito essa lei específica nunca deve ter conhecido Eustace. Se alguma vez voltar a vilipendiar-me desta forma, irei diretamente à Scotland Yard, não para confessar alguma coisa, pois sou completamente inocente, mas para o acusar a si, Monsieur Poirot!

Antes de Poirot conseguir elaborar uma resposta adequada, Sylvia Rule virara-se e afastara-se.

Não a chamou. Ficou parado durante uns segundos, abanando a cabeça lentamente. Ao subir os degraus para entrar no seu prédio, murmurou para si: «Se ela é a pessoa menos violenta, então não quero conhecer a pessoa mais violenta».

Dentro do apartamento espaçoso e elegante, o seu criado pessoal esperava por si. O sorriso algo rígido de George transformou-se numa expressão consternada quando viu o rosto de Poirot.

  • Está bem, senhor?
  • Estou confuso, Georges. Diga-me, como uma pessoa que sabe muito sobre as classes altas da sociedade inglesa… conhece uma tal de Sylvia Rule?
  • Apenas a sua reputação, senhor. É a viúva do falecido Clarence Rule. Muito bem relacionada. Creio que pertence à administração de várias organizações de caridade.
  • E Barnabas Pandy?
 George abanou a cabeça.
– O nome não me é familiar. A sociedade londrina é a minha área

de conhecimento especial, senhor. Se Mr. Pandy viver noutro lugar… – Não sei onde ele vive. Não sei se está vivo, ou se talvez tenha sido assassinado. Vraiment, não poderia saber menos sobre Barna- bas Pandy do que sei neste momento, isso seria impossível! Mas não tente dizer isto a Sylvia Rule, que imagina que sei tudo sobre ele, Georges! Ela acredita que eu escrevi uma carta a acusá-la desse homicídio, uma carta que eu já neguei ter escrito. Não escrevi essa carta. Não enviei qualquer tipo de comunicação a Mrs. Sylvia Rule. Poirot tirou o chapéu e o casaco com menos cuidado do que era habitual e entregou-os a George.
– Não é uma coisa agradável, ser acusado de algo que não se fez. Devia-se ser capaz de ignorar as falsidades, mas de alguma forma elas apoderam-se da mente e causam uma forma de culpa, como um fantasma na cabeça, ou na consciência! Alguém tem a certeza de que se fez essa coisa terrível, e começa-se a sentir que se o fez, mesmo não tendo feito. Começo a entender, Georges, por- que as pessoas confessam crimes dos quais são inocentes.

George pareceu cético, como parecia frequentemente. Poirot observara que a discrição inglesa tinha uma aparência exterior que sugeria dúvida. Muitos dos homens e mulheres ingleses mais edu- cados que conhecera ao longo dos anos tinham o aspeto de terem recebido ordens para não acreditar em nada que lhes fosse dito.

  • Gostaria de beber algo, senhor? Um sirop de menthe, se me permite fazer a sugestão? – É uma ideia excelente.
  • Também devo mencionar, senhor, que tem uma visita à sua espera. Quer que traga já a bebida, e que lhe diga para esperar mais um pouco?
  • Uma visita?
– Sim, senhor.
– Como se chama? É Eustace?
– Não, senhor. É um Mr. John McCrodden.
– Ah! É um alívio. Nenhum Eustace. Posso acalentar a esperança de que o pesadelo de Madame Rule e do seu Eustace tenha acabado e que não mais volte a Hercule Poirot! Monsieur McCrodden declarou a natureza da sua visita?
  • Não, senhor. Apesar de dever avisá-lo que ele pareceu… descontente.

Poirot permitiu que um pequeno suspiro lhe escapasse dos lábios. Depois do seu almoço mais do que satisfatório, a tarde estava a tomar uma direção dececionante. Ainda assim, era pouco provável que John McCrodden fosse tão desagradável como Sylvia Rule.

  • Adiarei o prazer do sirop de menthe e receberei Monsieur John McCrodden primeiro – disse Poirot a George. – O seu nome parece-me familiar.
  • Estará a pensar no advogado Rowland McCrodden, senhor?
  • Mais oui, bien sûr. Rowland Rope , esse bom amigo do carrasco… apesar de estar a ser demasiado educado, Georges, para o tratar pela alcunha que lhe assenta tão bem. Rowland Rope não dá um segundo de descanso à forca.
  • Ele tem sido fundamental a apresentar vários criminosos perante a justiça, senhor – concordou George, com a sua diploma- cia habitual.
  • Talvez John McCrodden seja seu parente – disse Poirot. – Deixe-me instalar e depois pode trazê-lo.

(N. do T.)

No final de contas, George foi impedido de trazer John McCrodden pela determinação deste em entrar a passadas largas na sala sem ajuda ou apresentação. Ele ultrapassou o criado e posicionou-se no centro do tapete onde parou como se paralisado, à semelhança de alguém enviado para desempenhar o papel de estátua.

  • Por favor, monsieur, pode sentar-se – indicou Poirot com um sorriso.
  • Não, obrigado – disse McCrodden. O seu tom era de desprendimento desdenhoso.

Tinha cerca de quarenta anos, segundo os cálculos de Poirot. Tinha o tipo de rosto bonito que raramente se encontrava, para além de obras de arte. As suas feições poderiam ter sido esculpidas por um artista. Poirot achou difícil conciliar o rosto com a roupa, que eram velhas e tinham manchas de sujidade. Seria habitual para ele dormir em bancos de jardim? Podia recorrer aos confortos domésticos normais? Poirot perguntou-se se McCrodden pro- curara cancelar as vantagens que a natureza lhe concedera, os olhos verdes grandes e o cabelo dourado, ao transformar o seu aspeto no mais repelente possível.

McCrodden olhou para Poirot, furioso.
– Recebi a sua carta – disse ele. – Chegou hoje de manhã.
– Receio ter de o contradizer, monsieur. Não lhe enviei carta alguma.
Seguiu-se um silêncio longo e desconfortável. Poirot não quis

tirar conclusões precipitadas, mas receou saber a direção que a conversa iria tomar. Mas não podia ser! Como era possível? Só havia encontrado esta sensação em sonhos: a noção ominosa de estar preso numa situação difícil que não faz sentido, e que nunca o fará, independentemente do que se fizer.

  • O que dizia essa carta que recebeu? – perguntou.
  • Devia saber, já que a escreveu – disse John McCrodden. – Acusou-me de assassinar um homem chamado Barnabas Pandy.

Corda, no inglês, em referência ao instrumento utilizado na forca para executar homicidas.

 

Pré-publicação do romance “O Mistério dos Três Quartos” de Sophie Hannah – Editorial ASA Parceria LEYA

Este site utiliza cookies para permitir uma melhor experiência por parte do utilizador. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização. Mais informação

Se não pretender usar cookies, por favor altere as definições do seu browser.

Fechar