Pedro Mexia

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Poeta, escritor, cronista, dramaturgo, ensaísta, tradutor, letrista, blogger, crítico literário, comentador, consultor para a cultura da Casa Civil do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, Oficial da Ordem Militar de Sant’iago de Espada, por mérito literário, Pedro Mexia, 46 anos, define-se como autor, no sentido lato que os ingleses conferem ao termo, embora, verdadeiramente, se sinta poeta.

Escreveu a letra da canção “Lixo”, de Balla, “uma brincadeira” comparada com a empreitada de escrever o libreto da Ópera “Canção do Bandido”, de Nuno Côrte-Real, recentemente estreada no Teatro da Trindade. Mas é pelo programa de rádio e televisão, “Governo Sombra”, onde toma assento ao lado dos colegas de editora, Ricardo Araújo Pereira e Carlos Vaz Marques, além de João Miguel Tavares, que é mais conhecido.

Conversámos com Pedro Mexia no Chiado, na Benard, “na sala de dentro, porque não tem rede, para não sermos incomodados pelos telemóveis”. E resultou, durante mais de hora e meia, falámos de política, literatura, cinema e do novo cargo que ocupa, de co-director da Granta em Língua Portuguesa.

 

É fácil ser consultor cultural do frenético Presidente Marcelo Rebelo de Sousa?

É muito fácil, porque é muito natural. Marcelo Rebelo de Sousa é um Presidente da República cujos interesses culturais, ou melhor, é uma pessoa, agora PR, cujos interesses culturais são antigos e conhecidos, e genuínos, portanto não é como se tivesse de ser uma espécie de acrescento cultural a alguém que não preza essa área ou essa dimensão. Evidentemente, o PR, e o cidadão Marcelo Rebelo de Sousa, antes disso, tem gostos e preferências. Mas tem sido muito fácil, porque é, genuinamente, uma pessoa, não só com gosto e interesse pelas questões culturais, como com grande facilidade de lidar com artistas e com autores, aliás, como acontece com o resto das pessoas, bombeiros, lojistas, etc.. Isso é uma experiência interessante, porque, em geral, as pessoas não circulam com o mesmo à vontade pelos diferentes meios sociais e profissionais.

Resumindo, é fácil. É fácil ser assessor cultural do nosso Presidente da República. O ritmo talvez não seja tão fácil (risos), mas a função é fácil.

Apesar de algumas polémicas em que se viu envolvido, ou em que acabou por se envolver, como foi o caso do encerramento da Cornucópia?

Foi a única na cultura. Polémica, foi a única, que me lembre. Houve coisinhas pequeninas…

Não considera que o aparecimento do PR, no Teatro da Cornucópia, foi um pouco intempestivo, subindo ao palco e afirmando que a Companhia não iria acabar?

Tem a ver com a própria personalidade e com a dimensão, digamos assim, dinâmica e voluntarista de Marcelo Rebelo de Sousa, que, naquele momento, considerou que era importante dizer “Não, não vamos deixar que isto acabe”. Provavelmente, esse destino era inelutável. Mas é verdade que esse foi um momento que gerou alguma incompreensão, algum feedback do meio, e fora do meio. Mas, honestamente, nestes dois anos e tal, não me lembro de outro caso polémico, na área cultural. Houve outros, noutras áreas. Mesmo assim, não muitos. Mas, na cultura, foi só o episódio do Teatro da Cornucópia. É verdade que nas funções públicas, em geral, e na função presidencial, em particular, há intervenções que não são intervenções públicas. Há matérias na cultura, como nas outras áreas, em que a intervenção do PR se faz pela palavra, pelo telefonema e por outro tipo de atividades, que não saem, necessariamente, no telejornal do dia.

E ainda bem (risos).

A Cultura tem sido um “calcanhar de Aquiles” deste governo, desde a primeira hora, com a demissão quase imediata de João Soares, passando pelas críticas nos apoios à criação, à falta de dinheiro para quase tudo, incluindo vigilantes no mais importante museu nacional, ao encerramento de companhias artísticas, ao polémico arrendamento de monumentos nacionais para eventos privados. O seu colega poeta, Luís Filipe Castro Mendes, abandona o cargo sem deixar marca.

De facto, não marcou. Na verdade, ninguém marcou o cargo verdadeiramente. Eu sou insuspeito de ter simpatia pela figura, mas, desde o Ministro Carrilho, ninguém marcou o cargo, ou porque esteve pouco tempo, ou porque não tinha força política, ou porque não tinha a personalidade adequada, ou porque (e isso aconteceu com quase todos) não tinha orçamento. Portanto, o Ministro da Cultura, com o orçamento que a cultura tem tido, já há muito anos, pode ser, ou não, mais proactivo (como se diz agora), pode ter, ou não, mais peso político, mais acesso ao Primeiro-Ministro, pode ser mais simpático, pode ser isto ou aquilo, mas não faz muita diferença, não é? A cultura não é só isso, mas é também uma instituição que financia, do património à criação. E, portanto, quando a manta não tapa a cabeça ou os pés, forçosamente, os ministros são uma decepção, mesmo quando são pessoas muito capazes, e muito… até amigos meus, como foi o caso do Francisco José Viegas.

O Francisco José Viegas foi Secretário de Estado. (Risos)

Trocava o Ministério, com este orçamento, por uma Secretaria de Estado, com outro orçamento, sem dúvida nenhuma.

Por isso, dizer que determinado ministro da Cultura não foi marcante, é dizer pouco, porque, praticamente, nenhum foi. O Manuel Maria Carrilho tinha uma ideia para a cultura, tinha força junto do Primeiro-Ministro e esteve lá durante muito tempo, e tinha dinheiro. Teve todas as condições para deixar marca, como, de facto, indiscutivelmente, deixou. E digo isto, totalmente, à vontade, não sendo admirador da pessoa, mais do que do ministro.

No meio cultural, é muito comum falar-se menos do Carrilho e mais de um ministro que, não sendo da cultura, foi considerado um visionário para a área, o Mariano Gago.

Acho que o Mariano foi o ministro que exerceu mais anos o cargo de ministro, em democracia. Pelo menos, tenho ideia de ter lido isso algures. Portanto, isso ajudou, além de ser uma pessoa com um peso na área, e com trabalho feito, que lhe permitiu deixar essa marca. Mas são a excepção. Como são a excepção no Mistério da Educação, ou noutros ministérios, em que o normal é as pessoas passarem por lá, sofrerem muita contestação, e não deixarem rasto.

Sendo uma preocupação tão grande do Professor Marcelo, a vontade de encontrar consensos em áreas, que, pela sua importância, obrigariam a uma continuidade de políticas, não acha que também deveria ser um desígnio para a Cultura?

A cultura não é uma área de consensos. Não é uma área de consensos, por natureza. Os artistas não são imunes a conflitos, a tribos, a guerra civis (risos), e há áreas, dentro da actividade cultural, onde isso é absolutamente patente. No cinema, por exemplo, não se consegue sentar pessoas à mesma mesa. A área da cultura é muito conflituosa, e é particularmente conflituosa, porque muita da criação artística contemporânea depende da intervenção do Estado para existir. Nem é para ser melhor, é para existir. Portanto, com a escassez de recursos, que é mais do que conhecida, a tendência para o conflito é permanente.

Por outro lado, não é sequer consensual, na sociedade portuguesa, o que deve ser o Ministério da Cultura. Existe uma espécie de visão, tendencial, mas, felizmente, não totalmente estanque, entre uma visão patrimonialista, que tem sido habitual à direita, e uma visão que também abrange o apoio à criação artística, mais ligada às políticas de esquerda. O que, na verdade, embora genérico, sociologicamente, não corresponde inteiramente à verdade, na sua essência, porque, por exemplo, as políticas de super-presença do Estado na Cultura, se pensarmos no caso francês de De Gaulle/ Malraux, grandes manifestações sempre existiram à direita, em vários países, nomeadamente em Inglaterra, onde o apoio às artes é, mais ou menos, consensual nos vários partidos.

Historicamente, até há uma grande tradição de apoio e incentivo às artes por parte de certa direita, com forte pendor ideológico, sobretudo durante os regimes autoritários, do século passado. Ezra Pound dizia que nenhum outro regime apoiara tanto os artistas como o fascismo italiano. E mesmo em Portugal, embora não seja politicamente correcto reconhecê-lo, António Ferro foi um promotor da criação artística.

Sem dúvida. O Estado Novo, do ponto de vista, digamos assim, propagandístico, dinamizou uma série de correntes artísticas. Mas, tentando trazer isso para a democracia, do ponto de vista do mecenato, por exemplo, as empresas portuguesas ainda são muito renitentes em apoiar as artes, como não o são as empresas de outros países. Embora tenhamos uma lei do mecenato que é, genericamente, considerada boa, pelo menos no seu articulado, o mecenato ainda não é natural a um empresário, ou a um milionário português. Por exemplo, no caso dos Estados Unidos, onde toda a intervenção do Estado, nessa área, é problemática, existe uma quantidade de fundações, de mecenas e de doações, que, de certa forma, vai suprir essa ineficiência do Estado. Isso gera uma discussão acessória sobre se não deveria caber ao Estado essa função. Mas a questão prática, e imediata, é: não seria benéfico se a sociedade civil, em Portugal, se organizasse de uma forma em que o dinheiro dos privados pudesse viabilizar as artes? Tenho tido muitas discussões, ao longo dos tempos, com pessoas, sobretudo à direita, que acham que a minha posição é de esquerda, digamos assim…

(Risos). Muita gente, de direita, acha que o Pedro está à esquerda, em muitos temas…

Em muitos temas, não creio. Nesse, claramente.

Em matéria de costumes, também?

Em relação aos costumes, sou um liberal. Live and let live (risos), que me parece um excelente princípio de vida…

Mas, regressando aos consensos na cultura, não existe consenso, existe conflito. Existe o conflito da escassez, existe o conflito dos entendimentos diferentes sobre o papel do Estado, sobre o financiamento público/política de gosto/amiguismo, etc.. Todas essas questões são, mais ou menos, conhecidas. Portanto, não seria normal que a política cultural fosse pacífica, embora, quanto menos dinheiro exista, menos pacífica seja, porque isso é a natureza das coisas.

Depreendo que, em sua opinião, não faz sentido procurar um consenso político, que permitisse alguma continuidade nas políticas culturais. Nem em áreas como a conservação do património, a museologia, onde os agentes reclamam mais autonomia?

Isso, com certeza. Até porque, nessas áreas, há, teoricamente, um consenso social. Há um consenso de que se deve preservar o património, nem que seja um consenso piedoso, sem consequências, mas há consenso. Ninguém diz que o Estado devia acabar com os museus ou deixar cair os mosteiros. Ninguém diz isso, não é? Enquanto há muita gente que diz que o teatro devia acabar, ou o bailado, (risos), ou os realizadores que fazem filmes para os amigos. Esse discurso existe. Mas ninguém tem um discurso contra o património. Esse discurso não existe. O discurso pode não querer dizer grande coisa na prática, porque é mais fácil do ponto de vista teórico, mas, em relação à preservação do património, existe consenso. Neste momento, o movimento, a que temos assistido, é no sentido de reclamar mais autonomia, que permita fazer aquelas coisas básicas, como comprar uma caixa de pregos, sem ter de fazer um processo…

A burocracia.

A burocracia que continua a existir, apesar do Simplex, e que faz com que tudo seja tão moroso, que acaba por prejudicar a gestão corrente, já nem falo da gestão estratégica ou da gestão de longo prazo, mas da gestão do dia-a-dia.

O que é tanto mais preocupante quanto, em muitos casos, falamos de equipamentos, cuja programação, para ter relevância, tem de ser pensada a dois, três anos.

Mas depois, ao mesmo tempo, também percebemos que não há consensos, mesmo nisso, não há consensos. Por exemplo, há consenso que devemos preservar o património. Dito desta forma, poucas pessoas civilizadas dirão o contrário. Mas, por exemplo, houve um caso interessante, relacionado com a gestão do património, em que se verificou que havia divisões, até dentro da mesma área ideológica, que foi a polémica, recente, do arrendamento de espaços públicos, de relevância patrimonial, para eventos. Isso não é pacífico. Há algumas pessoas que dizem que é bom fazer isso, porque é uma forma de financiamento, e outras dizem que não, porque isso é dessacralizar, desrespeitar esses espaços. Isso também é uma polémica, e é uma polémica que faz sentido, e sobre a qual tenho sentimentos, ligeiramente, divididos.

Mesmo em relação ao Panteão? (risos)

(Risos). Não, em relação ao Panteão, não. O Panteão, com todo o respeito, ganhou uma importância na nossa consciência colectiva, nos últimos anos, que nunca teve. Essa importância teve a ver, essencialmente, com a morte de duas figuras, que sendo duas figuras nacionais, a Amália e o Eusébio, talvez não correspondessem ao protótipo do Chefe de Estado ou do intelectual inquestionável, que habitualmente era proposto para o Panteão. Embora por lá estejam muitos escritores que, por exemplo, foram muito famosos no seu tempo, mas que não são hoje, provavelmente, canónicos. Mas, independentemente da importância real que o Panteão tem, apesar de tudo, não é o Panteão francês, não tem o lastro histórico, o peso histórico que tem o Panteão francês.

Para terminar, se formos ver cada um destes aspectos, o que é consensual vai-se esboroando, porque, de facto, ponto por ponto, não é consensual, e, nesse sentido, a ideia de que a cultura está acima dos conflitos, dos combates ideológicos, é errada. Não está… não está, de todo.

É verdade que está a colaborar com o programa eleitoral do CDS, para a área da cultura?

Sim.

Porque decidiu aceitar esse desafio?

A minha contribuição é uma contribuição muito pontual, até porque eu não sou do CDS, já fui militante, mas já não sou, e há uma dimensão muito grande do que é um programa eleitoral, que passa por propostas muito concretas que têm uma componente orçamental, legislativa, etc., que cabe às pessoas que, nos partidos e na Assembleia da República, tratam esses assuntos. Eu aceitei este convite, que me foi feito por Assunção Cristas, que conheço há 25 anos, e de quem sou amigo, por, além do facto de ser amigo dela, conhecer várias pessoas desse grupo, nomeadamente o Adolfo Mesquita Nunes e o Francisco Mendes da Silva, que são pessoas de quem gosto, e por quem tenho consideração pessoal e intelectual. Mas sou uma espécie de nota de rodapé ao grupo (risos). Não quero influenciar nada, o meu papel é muito pequenino, até porque não tenho interesse em fazer vida partidária.

Essa colaboração fez-me lembrar as Grandes Opções do Plano, de Cavaco Silva, escritas por Miguel Esteves Cardoso?

Isso foi mais insólito, e mais divertido. Não, aqui tem a ver com o facto, que eu acho que a Assunção percebeu, de que, ao contrário daquilo que, geralmente, é sentido pelo eleitorado do CDS, pelo que vou percebendo, a cultura não tem de ser uma área em que eles não se sintam à vontade, ou seja, contribuir para acabar com esse estereótipo, porque não há nenhuma razão para ser assim.

Contaram, há tempos, uma história que eu achei muito divertida. Um deputado de um dos partidos da direita, na Comissão de Cultura, dirige-se aos deputados da esquerda, da maioria governamental, e diz: “Os senhores, que são da Cultura…”, ao que eles responderam: “Senhor deputado, isto é a Comissão de Cultura. Por isso, aqui, somos todos da Cultura”. (Risos). Portanto, acho que ainda há uma espécie de auto menorização da direita, em questões culturais, pelo facto de ser uma área que, tradicionalmente, pende para a esquerda. Por outro lado, participei naquela iniciativa, que ainda decorre, chamada “Ouvir Portugal”, que o CDS tem feito, e nas sessões, na área da cultura, praticamente, todas as pessoas com quem falámos, e que achámos que fazia sentido convidar, se disponibilizaram a estar presentes, mesmo dizendo que não eram do CDS, ou assumindo que não votavam no CDS. Isso foi óptimo, até porque o objectivo era perceber o que independentes, e mesmo pessoas de outras áreas políticas, gostavam que os partidos, no caso, este partido em particular, dissessem e fizessem pelos artistas, pela vida cultural. A recepção foi incrivelmente boa. Não fui eu que fiz a maioria dos contactos, mas soube que não houve rejeição, ninguém desligou o telefone na cara (risos), e, embora ache isso normal, de certa forma, apercebo-me que acabou por ser uma espécie de conquista.

O Independente e os bloggers, de direita, que se lhe seguiram, nomeadamente o Pedro, o João Pereira Coutinho e o Pedro Lomba, contribuíram para isso? Para limpar essa imagem de uma direita avessa à cultura?

Sem falsa modéstia, acho que não se podem comparar os filhos com os pais (risos), e, neste caso, o pai foi O Independente. O que fez, realmente, diferença foi O Independente, de que era leitor ferrenho. Comprava o jornal com entusiasmo, ia à banca comprar o jornal com um entusiasmo que nunca mais tive. O Independente, além do talento óbvio daquelas pessoas todas que lá escreveram, marcou por duas ou três coisas: uma foi uma Carta de Princípios, ideologicamente clara, que não é comum…

…diria que nunca tinha sido e nunca mais foi feito nada assim. Essa definição ideológica, plasmada em Carta de Princípios, foi absolutamente revolucionária.

Sim, sim, isso por um lado. Por outro, a possibilidade da palavra “direita” querer dizer coisas novas, até aí, conotadas com a esquerda. Costumo contar uma história, que seria risível, não demonstrasse o preconceito que existia, em relação às pessoas de direita. Quando começou o blog, em que eu escrevia com o João Pereira Coutinho e o Pedro Lomba, falávamos muito de música pop, como, aliás, o MEC fez, durante muito tempo.

Com crónicas compiladas no icónico Escrítica Pop, onde até inventava bandas (risos).

Mas isso faz parte do talento dele (risos). Nós também falávamos muito de música pop, e lembro-me de um jornalista me dizer: “Para mim, vocês deviam gostar era do António Calvário” (risos). Eu gostava que isto tivesse sido uma piada, mas não foi. Ou seja, a ideia, de que alguém à direita pudesse ter gostos, mais ou menos, livres de naftalina, era impensável. Foi um choque para muitas pessoas. E eu senti muito isso com O Independente, não só o “live and let live”, que apregoavam e defendiam, mas o facto de serem pessoas que não estavam em conflito com o seu tempo, que não tinham aquele discurso “do tempo horrível em que nos coube viver”. Nunca tive paciência para esse discurso, não por achar que este tempo seja extraordinário, mas porque acho que todas as gerações têm o seu tempo.

Não vê, como Roger Scruton, “as vantagens do pessimismo”?

Sou muito pessimista, mas não, sobre esse ponto de vista. O Scruton, por exemplo, é daqueles que acha que a música pop é toda aberrante, o Woody Allen, no Hannah e as Suas Irmãs, em que a rapariga o leva a um concerto de rock, e ele diz: “Vamos embora, antes que eles façam reféns”. (Risos).

Eu tenho todo o respeito pelo Scruton, mas ele tem uma visão um bocadinho fossilizada. Certamente, as questões ideológicas não passam por gostar ou não gostar de música pop, e seria bastante absurdo que assim fosse. Portanto, desde que O Independente apareceu, afirmando-se como de direita, foi uma lufada de ar fresco, porque aquela não era a direita que eu conhecia, não era a direitaque eu ouvia falar. Os blogues, de certa forma, são uma emanação disto. Mas, na verdade, O Independente é que fez a diferença. Os blogues não teriam existido, ou melhor, teriam existido, mas não teriam existido, da mesma maneira, sem O Independente.

Onde quase tudo podia acontecer, até ter a Agustina Bessa-Luís a escrever as duas páginas de abertura. (risos).

Esse foi um grande momento.

Agustina, de quem compilou um livro de ensaios, “Contemplação Carinhosa da Angústia”.

De ensaios, comunicações, etc.. Há bocado, estávamos a falar de notas de rodapé. A minha vontade era existir como nota de rodapé, dizendo: “Compilou um livro de Agustina Bessa-Luís.” (Risos). Na altura, propus ao editor…

Ainda a Guimarães Editores?

Sim, o Francisco Cunha Lea. Na altura, propus-lhe a compilação de uma série de textos, de não-ficção, da Agustina. Ele falou com ela e com o marido, Alberto Luís, e a resposta, que veio, foi: “Muito bem, ela concorda. Faça você.” Assim foi.

Foi uma ideia tão original que, recentemente, a neta de Agustina, Lourença Baldaque, reuniu, em 3 volumes, todos os textos dispersos da avó, numa edição extraordinária da Fundação Calouste Gulbenkian.

É incrível, porque nós, quando achamos que sabemos, mais ou menos, a dimensão da obra, editada em livro, de Agustina Bessa-Luís, somos surpreendidos por mais aqueles três volumes, merecidíssimos. Para mim, é a melhor escritora portuguesa, do tempo histórico que me coube viver. Agustina está num patamar diferente. É outro campeonato, simplesmente é outro campeonato. Há outros escritores portugueses, de que gosto muito, mas a Agustina, para mim, existe num plano de génio e de provocação, e de intuição, que não comparo com nenhum outro.

Poeta, escritor, cronista, dramaturgo, tradutor, argumentista, letrista. Como é que o Pedro Mexia prefere definir-se?

Quem pergunta muito isso é o fisco (gargalhadas). O fisco pergunta-me isso, com frequência. Os ingleses utilizam com frequência uma palavra, que é author, que, embora exista em português, não tem a mesma abrangência. Portanto, à falta de melhor, tendo a usar a palavra escritor, mas com uma certa… acho que são palavras que não devem ser usadas pelos próprios. Pior ainda, seria poeta. São palavras que não devem fazer parte de auto definições, mas eu, de facto, não sou jornalista, embora escreva nos jornais, também não sou outra coisa, embora não, embora não, embora não… Portanto, quando me dizem que tenho de pôr alguma coisa no oráculo da entrevista, eu respondo: “Ponha escritor”.

Não se sente mais poeta? Foi por aí que começou…

Não diria dessa maneira. Diria que, do que escrevo, aquilo que para mim é mais importante é a poesia. Se tivesse de abdicar de todas as coisas, menos de uma, não abdicaria da poesia. A poesia, para mim, é o mais importante, daquilo que faço. Mas, certamente, isso não é, sequer, reconhecido como tal, isto é, não são, por definição, nem os livros que têm mais público, nem a área em que, comparativamente, sou mais reconhecido. Mas aquilo em que me sinto mais eu, em que sou mais eu, e sei que isto não faz grande sentido dizer, é a poesia.

Embora muito elogiado como poeta, e com belíssimos livros publicados, é mais reconhecido como cronista?

Sim, as crónicas, em Portugal, têm bastante público. Eu tenho um grande feedback das crónicas, quer semanalmente, quer quando saem em livro. A poesia tem um feedback esporádico, embora os livros vendam, aliás, vendem o que vendem os livros de poesia, que não vendem mal, mas sem comparação com a prosa.

O Pedro, além de poeta, é o responsável pela excelente colecção de poesia, da Tinta da China. Faz sentido existir uma colecção de poesia, ou isso só é possível porque estamos a falar de uma editora independente, que faz um esforço para ser uma referência em determinados nichos?

É bastante curioso, porque eu nunca propus a criação de uma colecção de poesia e a Tinta da China nunca pensou em ter uma colecção de poesia. Exactamente, pelo facto de ser um pouco arriscado para uma pequena editora, e eu nunca iria propor uma coisa arriscada e a própria editora não ia arriscar… Bom, houve um momento, e isto partiu da Bárbara Bulhosa, em que, após um diagnóstico de que a poesia estava numa espécie de pirâmide invertida, havia um mundo de pequenas e pequeníssimas editoras, em geral, com produção muito boa, e onde a maioria das pessoas publicou os primeiros livros, depois, havia duas ou três editoras que, hoje em dia, já fazem parte dos grandes grupos editoriais, e que tinham as colecções mais prestigiadas. Mas, depois, as editoras do meio, digamos assim, foram desaparecendo, várias colecções que, ou acabaram, ou sai um livro, quando sai. A ideia, da Bárbara Bulhosa, foi que houvesse uma colecção de poesia, que, não sendo de uma grande editora, não fosse invisível, ou seja, que editasse livros que estivessem nas livrarias, e isso foi uma coisa muito importante.

Curiosamente, afirmou-se, e representa, segundo sei, um peso significativo nas vendas da própria editora.

Sim. Isso tem a ver com várias coisas. Uma delas é o facto de que as pessoas, quando se fala da colecção, vão à livraria e sabem do que estamos a falar.

Da coerência gráfica?

Sim. Depois, a própria imagem de marca da editora. Além do catálogo, a Tinta da China tem uma imagem gráfica muito boa, e a Vera Tavares, boa parte das capas são dela, e as da colecção de poesia têm sido sempre, cria uma imagem que dá identidade e gera o efeito de colecção. Nós já tínhamos visto isso, na editora, com a colecção de viagens…

…dirigida pelo Carlos Vaz Marques, como na colecção de humor.

Sim, a colecção do Ricardo Araújo Pereira. Mas, no caso da colecção de viagens, eu lembro-me de estar na Feira do Livro e as pessoas aparecerem, quase, com aquela lógica de quem coleccionava cromos, “Falta-me o 7, o 2 …”. Essa lógica, de colecção, funcionou.

Por outro lado, na colecção de poesia, Pedro apresenta uma escolha, de autores, muito interessante e diversificada.

É muito diversificada. O que eu queria era que fosse uma colecção não adstrita a uma determinada ideia, que seria a minha, do que é a poesia. E, de facto, há autores, ali, com entendimentos e com práticas muito diferentes do que é a poesia, e a poesia contemporânea, em particular, e isso, para mim, é muito importante. Eu queria evitar aquela ideia de facção, de caderno de encargos – “Esta colecção só edita poetas assim”. Há excelentes colecções e excelentes poetas que entram nessa lógica, faz parte da história da poesia, mas eu não queria, explicitamente, fazer isso. A colecção tem publicado autores, quer portugueses, quer estrangeiros, muito diferentes uns dos outros, e eu faço questão que isso se mantenha. Não é o critério número um. O critério número um não é serem diferentes, mas é um dos critérios. Depois, evidentemente, há linhas de continuidade, porque todos os gostos pessoais têm uma linha de continuidade.

Por falar em gostos pessoais, o seu ideal de poesia ainda continua a ser Hölderlin?

Hum… não. Isso foi uma espécie, eu comecei…, quer dizer, isso é, mais ou menos, como começar pelas drogas duras (risos). É uma visão, é uma abordagem de poesia maximalista, em certo sentido, insustentável, tão insustentável que, coitado, enlouqueceu. Não quer dizer que tenha enlouquecido por causa da poesia, mas, certamente, a poesia não foi um grande obstáculo na loucura (risos). Portanto, isso tem a ver com um determinado momento histórico da literatura, e com uma determinada crença na poesia e na palavra poética, que não é, exactamente, o período histórico em que nós vivemos, que é um período mais de suspeita, ironia, distância, etc.

Se eu tivesse de mandar uma cápsula, para os extraterrestres saberem o que é uma prática que nós temos, que é a poesia, se calhar punha lá Hölderlin, mas fui-me aproximando de autores, sobretudo anglo-saxónicos, que têm um entendimento muito mais modesto, deflacionário da poesia, nomeadamente Philip Larkin, que é o caso mais conhecido, mas há muitos outros, que não pedem tanto à poesia como pedia o Hölderlin, e se calhar também não enlouquecem tanto (risos).

Se tivesse de escolher um poeta português…

Hum…não consigo escolher um.

Dois ou três, ou quatro…

Tenho de escolher três, em três momentos diferentes. E os que eu escolheria, em três momentos diferentes, ou dois, para tentar ser mais exclusivista, seria o Cesário Verde, porque eu tendo a preferir uma poesia mais do sentido do que do som e mais visual do que abstrata, e a relação do Cesário com a Cidade é uma espécie de poesia cinematográfica.

Esteve muito esquecido.

Sim, talvez. Por acaso eu não tenho muita essa noção, mas há pessoas que me dizem isso. Mas, sim, claramente o Cesário Verde. No século XX, tendo que escolher só um, embora existam tantos, de facto, o século XX é um caso incrível de óptima produção poética, escolheria o segundo Álvaro de Campos, não o Álvaro de Campos dos primeiros anos, não o Álvaro de Campos de se pôr em cima das mesas, de escrever em maiúsculas, mas o Álvaro de Campos do Lisbon Revisited, do Poema em Linha Recta, de poemas desse género, porque do ponto de vista de afinidade, de personalidade, se é que se pode ter afinidade com um heterónimo (risos), entendo muito bem o sentimento do mundo que está naqueles poemas, e não sou sequer tão sensível aos outros heterónimos do Pessoa, nem sequer ao ortónimo.

Como foi substituir o João Bénard da Costa na Cinemateca, embora por um curto período de tempo?

Começando pela resposta mais directa à pergunta, em nenhum momento me passou pela cabeça, em nenhum sentido da palavra, substituir o João Bénard da Costa. Simplesmente aconteceu que, infelizmente, eu estava na Cinemateca, há um ano e pouco, salvo erro, como Director-adjunto, quando o João Bénard da Costa morreu. E eu fui nomeado Director interino, até ser escolhido outro director. De facto, esse processo prolongou-se por um período bastante maior do que esperava, mas em nenhum momento essa questão se pôs, ou seja, eu não seria o Director da Cinemateca, nem exerci, nesse momento em que estive como Interino, como se fosse o novo Director. Limitei-me a manter a Cinemateca, em funcionamento.

Apesar disso, internamente, foi bastante elogiado, até por ter permitido uma transição pacífica, ou, pelo menos, menos tensa do que seria expectável, após o desaparecimento de uma figura tão icónica como o João Bénard da Costa.

Acho que foi importante, e estou a pensar nisto no momento em que estou a formular, mas acho que acabou por ser relativamente importante, e não estou a invocar méritos meus, até porque não tive nenhuma intervenção no tempo que demorou, mas essa transição acabou por ser muito pacífica, acabou por não ser problemática, nem na substituição quase imediata, porque demorou alguns meses, nem depois disso, na continuidade com o José Manuel Costa, que tinha sido Subdirector, e que era uma pessoa da casa. O que me apercebi, quando estive na Cinemateca, além do que já sabíamos, visto de fora, sobre a personalidade forte e invulgar do João Bénard da Costa, foi o prestígio que a Cinemateca tinha.

Até, ou sobretudo, internacionalmente. Acha que isso se deveu à personalidade do próprio João Bénard da Costa, e aos contactos internacionais que ele tinha? Ou o peso da Cinemateca, por si só, já era suficiente para ser reconhecida?

Deveu-se, em muito, à personalidade dele, até porque, além de ser crítico, historiador, escritor, etc., também era um homem sedutor, também era um homem que recebia muito bem as pessoas, que fazia amizades e criava essas cumplicidades. Mas, depois, também há o outro lado, que é o lado oculto, não tão oculto como isso, mas menos conhecido, que é o trabalho que a Cinemateca fazia, e que continua a fazer, de arquivo. A Cinemateca, a certa altura, faz uma aposta bastante interessante. Quando a generalidade dos cinemas, e o mundo do cinema, deixa de trabalhar com película, a Cinemateca aposta no restauro da película, compra uma máquina que restaura película, no eBay, o que, por si só, já é uma história deliciosa, e, de repente, vemos filmes clássicos, que passam, em versão restaurada, nos festivais de cinema europeus, com uma cópia extraordinária da Cinemateca. Isso foi, por um lado, uma boa fonte de rendimento, mas também foi uma espécie de trabalho em função da memória, uma certa memória dos filmes. Hoje em dia, isso já não se põe, porque grande parte dos filmes já são feitos em digital, a esmagadora maioria, mas houve uma fase histórica em que os filmes eram feitos daquela maneira. Esse lado de preservação de um lugar, de um património, em que o trabalho do ANIM, que é o trabalho, como eu dizia, invisível, porque é pouco conhecido do público em geral, é importantíssimo.

O Pedro assumiu recentemente o cargo de Director da Granta em Língua Portuguesa, com Gustavo Pacheco, que assumirá o mesmo cargo no Brasil.

Exactamente, embora não estivesse nos planos.

Não se consegue dizer “não” à Bárbara? (risos)

Sim, lá está… já está respondido (risos). É, evidentemente, um projeto importante, e que tinha de continuar. Além do mais, estava assegurado que haveria uma pessoa do lado de lá do Atlântico, que desempenhasse a mesma função, ou seja, que um dos editores fosse brasileiro, até porque eu conheço relativamente bem, relativamente mal, conforme queiramos, a literatura brasileira contemporânea, mas não conheço os novos autores, os primeiros livros, conheço os nomes estabelecidos, e a Granta, se quer ser capaz de atrair os autores agora revelados, tinha de ter alguém atento e conhecedor do meio, até porque os livros não chegam cá.

Isso sempre foi um drama.

Houve um esforço heróico da Cotovia.

Que tem uma excelente colecção de autores brasileiros.

Foi um projecto pessoal do André Jorge, que tinha algum dinheiro e investiu na criação de um catálogo irrepreensível, e que, no caso dos brasileiros vivos, ou vivos na altura, foi o primeiro a editar em Portugal, mas com resultados, nalguns casos, estranhamente insatisfatórios de público.

Há um desinteresse pelos autores brasileiros em Portugal?

Penso que sim. Comparando com o contrário, isso é óbvio. Tenho ido algumas vezes ao Brasil, nos últimos tempos, e é incrível a atenção e a generosidade com que acolhem os autores portugueses. Aparentemente, já não existe qualquer espécie de complexo pós-colonial, que, até há poucas décadas, ainda existia. E há um interesse grande pela cultura portuguesa, especialmente pela literatura. Quanto ao desconhecimento, ou desinteresse, dos portugueses em relação à literatura brasileira, atribuo isso, empiricamente, porque não tenho nenhuma teoria sobre o assunto, ao monopólio da dupla, música – telenovela, que foi de tal forma marcante no nosso imaginário, que é como se não houvesse espaço para mais nada. Por exemplo, os filmes brasileiros estreiam por cá e desaparecem ao fim de 15 dias, e a literatura também não deixa grande marca. Há uns anos, estreou um filme brasileiro extraordinário, chamado “O Som ao Redor”, que foi um grande sucesso no Brasil, e que cá passou relativamente despercebido. De facto, investimos de tal forma na música brasileira, enquanto espectadores e consumidores, e, de outra forma, na telenovela, que é um produto cultural lato sensu, que não sobra mais espaço. No caso da literatura, acho que Portugal conviveu melhor com a literatura brasileira, e estou a pensar mais na ficção do que na poesia, quando a ficção brasileira nos devolvia uma imagem de um Brasil rural, muito através de autores como o Jorge Amado e o Graciliano Ramos, aliás, um grande escritor, mas sempre com um Brasil que tivesse fazendas e cangaceiros. Rubem Fonseca, o grande escritor do Brasil moderno, violento, só aparece em Portugal, recentemente, através da Companhia das Letras e, depois, da Sextante. Aliás, a nossa visão do Brasil, desde o momento zero, desde a Carta de Pero Vaz de Caminha, é a da descoberta do paraíso. Por isso, se a imagem que nos devolvem é uma imagem que contraria essa visão, rejeitamo-la. Só isso explica que escritores, como Bernardo Carvalho, vendam uma escassa centena de exemplares. É escandaloso.

Granta pode ajudar a criar um maior interesse pela literatura brasileira?

Granta é uma forte marca internacional, com grande historial. Aliás, uma das melhores partes desta incumbência, que estou agora a exercer, é poder mergulhar nos arquivos da Granta, para escolher textos a fim de serem traduzidos, com uma password mágica que me permite ler as Grantas, todas que quiser (risos). Mas esse grande prestígio da marca é importante para a Granta em Língua Portuguesa, assim como o facto de estar presente em Portugal e no Brasil, e é óbvio que isso pode ajudar. Em termos mais práticos, o que a Granta pode fazer, e já está a fazer, é, como vai acontecer no próximo número, publicar autores brasileiros que nunca foram publicados em Portugal. Esse é o passo número um, que permite despertar o interesse, de quem lê, por determinados autores. Sabemos que é apenas um contributo, mas esperamos que ajude ao estímulo de uma leitura comum. É a mesma língua, temos de nos ler uns aos outros.

Por João Moreira

Fotografia: Ana Brígida

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